O que a parábola do semeador tem a nos ensinar sobre a prioridade que o estudo da Palavra de Deus deve ter em nossa vida, e quais as consequências se isso for negligenciado?
O conto Os desejos ridículos, de Charles Perrault, em uma de suas versões, começa com um lenhador que se prepara para cortar uma árvore. No entanto, a árvore é o lar de um duende, que promete três desejos ao lenhador se ele poupar a árvore. O lenhador espera até a hora do jantar com sua esposa para revelar a boa notícia sobre os três desejos recebidos. Sem pensar, a esposa do lenhador tomou um gole de vinho e disse: “Gostaria de ter um prato de linguiças para acompanhar”.
Imediatamente, as salsichas apareceram; no entanto, o lenhador não ficou satisfeito. Com raiva, ele gritou: “Que desperdício estúpido de um desejo! Sua mulher tola! Eu gostaria que elas ficassem presas no seu nariz!”. Imediatamente, as salsichas saltaram para o nariz da mulher e ficaram presas lá. O casal sentou-se tristemente no chão e percebeu que só havia uma coisa a fazer, que era restaurar o nariz da mulher com o último desejo. O lenhador disse: “Eu gostaria que as salsichas saíssem do nariz da minha esposa”. O marido e a esposa se abraçaram chorando e comentaram: “Talvez sejamos pobres, mas seremos felizes novamente”. As salsichas foram fritas para o jantar; no entanto, o casal pensou em como seus desejos foram desperdiçados.
A prioridade fundamental para o crente é dar primazia ao estudo da Bíblia e à oração.
O conto de Perrault nos lembra como é fácil desperdiçar nossas vidas com coisas insignificantes, ou seja, viver nossos dias sem nenhum propósito. A “tirania do urgente” está sempre presente, como escreveu Charles Hummel em 1967; assim, podemos estar ocupados, mas sem realmente fazer nenhum progresso significativo. De acordo com Hummel, o problema não é a falta de tempo, mas sim a falta de prioridades. A maior tragédia na vida é permitir que o urgente atrapalhe o importante.
Os relatos dos Evangelhos sobre Jesus revelam que o Senhor nunca estava com pressa, mesmo quando seu amigo Lázaro morria. Marcos 1.35 indica a prioridade que o Senhor Jesus dava à oração. A razão para essa espera em oração era que ele aguardava as instruções do Pai. É claro que a Palavra de Deus ocupa esse papel para os cristãos de hoje. Consequentemente, a prioridade fundamental para o crente é dar primazia ao estudo da Bíblia e à oração.
O Senhor criou o tempo e o usa para os seus propósitos, de acordo com a sua soberania. Ao longo da Bíblia, é evidente que Deus opera dentro do tempo e age de maneira diferente em vários momentos. A ênfase repetida das Escrituras é que Deus revelou profecias do futuro no Antigo Testamento e, então, cumpriu essas ações em um período posterior. Portanto, uma maneira pela qual podemos entender o tempo é que Deus o criou para que tudo não ocorresse de uma só vez. Isso certamente se refere à sua obra dentro do tempo para trazer redenção ao seu povo, mas também no que diz respeito à ordem dos eventos diários de nossas vidas (cf. Eclesiastes 3.11).
Não espere ter tempo para realizar tudo o que deseja. Você pode descobrir que já é difícil o suficiente realizar o que precisa fazer. Portanto, decida não permitir que o urgente controle as coisas importantes da vida. Dessa forma, você poderá experimentar como Deus “fez tudo formoso no seu devido tempo”. Por que não ler o capítulo 8 de Lucas nesta semana? Peça a Deus que lhe conceda sabedoria para cultivar a boa terra, que é ouvir e seguir a Palavra de Deus com o propósito de glorificar a Cristo. A importância de fazer isso é simples: o objetivo da nossa vida é cumprir a vontade de Deus, e ele é a nossa razão e força para viver.

Cultivando a boa terra
Em Lucas 8.4-15, o Senhor Jesus descreveu quatro respostas diferentes à Palavra de Deus. Deus deu sua Palavra, mas as pessoas respondem de maneiras diversas.
1. Primeiro, há aqueles que ouvem essa Palavra, mas o Diabo imediatamente “tira-lhes a palavra do coração, para não acontecer que, crendo, sejam salvos”.
2. Segundo, alguns “a recebem com alegria” até que outra alegria apareça, o que então impede a regeneração e a transformação que vêm da Palavra de Deus. Os sentimentos por si só não são suficientes para fazer com que você persevere em tempos difíceis.
Jesus nunca fez um chamado para eremitas que buscam refúgio da vida no mundo. No entanto, ele chama pessoas que têm uma perspectiva eterna em relação a este mundo e que ouvem e prestam atenção à Palavra de Deus muito além de todas as atividades, preocupações e interesses temporais.
3. Terceiro, alguns ouvem a Palavra de Deus, mas rapidamente esquecem o que ela diz e não permitem que ela afete suas vidas (cf. Tiago 1.22-25). Alguns se envolvem na busca pelo sucesso material e nas preocupações da vida cotidiana. A busca pelo prazer supera as buscas eternas; assim, não há tempo para a Palavra de Deus, e eles “não chegam a amadurecer”.
Observe que Jesus participou de festas suficientes para ser falsamente rotulado como “um glutão e bebedor de vinho” pelos fariseus (Lucas 7.34). Para cumprir seu ministério, o Senhor dependia de certas pessoas para obter recursos materiais (8.3). Jesus nunca fez um chamado para eremitas que buscam refúgio da vida no mundo. No entanto, ele chama pessoas que têm uma perspectiva eterna em relação a este mundo e que ouvem e prestam atenção à Palavra de Deus muito além de todas as atividades, preocupações e interesses pessoais.
4. Quarto, algumas sementes (ou seja, a Palavra de Deus) atingem o alvo. A “boa terra” acolhe a semente, incentiva sua germinação, guarda-a para tempos futuros e faz ela perseverar através das complexidades, tentações e provações associadas à vida presente. A parábola de Jesus indica que, se ouvirmos a Palavra de Deus, acreditarmos nela e a “ret[ermos]”, podemos ser a “boa terra” na qual essa Palavra se multiplica e dá frutos em abundância. Precisamos ter certeza de ser a “boa terra”.
É claro que a noção de que alguém pode “se afastar” da Palavra de Deus (Hebreus 2.1-4; cf. 6.1-8; 10.1-10; Lucas 8.11-14) levanta questões a respeito de tal apostasia. Em outras palavras, alguém poderia “acreditar” em Deus e ainda assim não ser um discípulo? A crença e o discipulado são mutuamente inclusivos? O discipulado é um chamado à fé/confiança em Jesus Cristo como Senhor e Salvador, e tal chamado é evidente na devoção à Palavra de Deus, muito além de todas as outras prioridades.
Ignorar a Palavra de Deus sempre resultará em consequências terríveis. Por que devemos ler e estudar a Palavra de Deus? O resultado de ignorá-la ou negligenciá-la é eterno. “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disso, o juízo” (Hebreus 9.27). Devemos ouvir a Deus e dar ouvidos à sua Palavra. Deus falou! Ele não nos deixou à mercê da escuridão em busca de orientação espiritual. Deus falou de muitas maneiras diferentes por meio dos profetas do Antigo Testamento. Deus falou gloriosa e completamente por meio de Jesus Cristo. Ele não está em silêncio! Devemos estudar diligentemente sua mensagem, como aqueles que buscam orientação, tesouro e sabedoria – agora e para sempre.
Deus falou de muitas maneiras diferentes por meio dos profetas do Antigo Testamento. Deus falou gloriosa e completamente por meio de Jesus Cristo. Ele não está em silêncio! Devemos estudar diligentemente sua mensagem, como aqueles que buscam orientação, tesouro e sabedoria – agora e para sempre.
Aquele que crê em Jesus Cristo – pela graça, mediante a fé – é um discípulo. O discipulado não é um sentimento bom ou uma declaração passada, em que você se sentiu positivo em relação a Jesus e desejou a salvação. A advertência das palavras de Cristo em Lucas 8 é para não se tornar seguro demais e de forma muito rápida em sua salvação. A salvação é uma experiência transformadora que permanece por toda a vida. Portanto, os crentes são aqueles que buscam a maturidade no discipulado para toda a vida, em oposição a bons sentimentos por um breve período.
A Palavra de Deus traz mudança! Você tem ouvidos para ouvir? Apenas um tipo de solo – aquele que está em sintonia com Deus conforme ele se revela na Bíblia Sagrada – produz maturidade na salvação. Não “vive[mos] só de pão”, mas devemos ter “toda palavra que procede da boca de Deus” (Mateus 4.4).
Autor
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Ron J. Bigalke (Ph.D., Tyndale Theological Seminary) fundou em 1999 a missão Eternal Ministries junto com sua esposa. Membro da diretoria do Ministério Chamada nos Estados Unidos, Bigalke colabora frequentemente em revistas, livros e artigos para a internet. Além disso, é o editor-geral de quatro obras. Sua ênfase atual está nas áreas de apologética, estudo bíblico, pensamento eclesiástico, historiografia, teoria política e teologia. Casado com Kristin, possui dois filhos.
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