Entregues aos Seus Próprios Desejos

Em Romanos 1, lemos como Paulo explica que Deus entrega pessoas aos seus próprios desejos pecaminosos. Qual deve ser a nossa atitude perante o nosso próprio coração pecaminoso? 

Existe um ditado antigo que afirma que você pode levar um cavalo até a água, mas não pode forçá-lo a beber. Isso também é verdade em muitas situações entre nós, humanos.

Por exemplo, na criação de filhos, podemos, como pais, ensinar, demonstrar, insistir, corrigir, mas – infelizmente – não temos o poder de mudar o coração. Essa realidade é motivo de grande tristeza para muitos pais cristãos. Pessoalmente, temos nossas dores ao vermos filhos tomando decisões que sabemos que acarretam tristes consequências.

A realidade é que chega um momento em que temos de permitir que nossos filhos colham os resultados de suas decisões equivocadas. Como nós os amamos, sofremos com isso, mas somos impotentes para tomar decisões por eles, especialmente quando chegam à idade adulta.

Se, como pais imperfeitos, passamos por isso, quanto mais nosso Deus, que é o modelo perfeito de pai e de amor?

Quando Deus entrega?

Deus não apenas ama; ele é amor (1João 4.8). Há, no entanto, uma triste situação em que o próprio Deus permite que homens e mulheres sigam o seu próprio caminho. Em especial, no primeiro capítulo de Romanos, vemos Deus entregando os homens às suas próprias escolhas. A partir do versículo 20, Paulo explica que os homens que rejeitam a Deus são indesculpáveis. Os argumentos são fortes e profundos: (1) eles não glorificaram a Deus, (2) eles não deram graças, (3) seus pensamentos se tornaram fúteis e (4) seu coração se obscureceu.

Se, como pais imperfeitos, passamos por isso, quanto mais nosso Deus, que é o modelo perfeito de pai e de amor?

A partir do versículo 24 (e novamente nos versículos 26 e 28), Paulo afirma que Deus os entregou aos seus desejos pecaminosos. Por um lado, Deus nunca desiste de alguém; enquanto houver vida, há tempo de se arrepender (vide o exemplo do ladrão na cruz, Lucas 23.39-43). Contudo, o texto é claro ao afirmar que aqueles que persistem em sua rejeição de Deus são entregues aos seus próprios desejos.

O que são esses desejos?

O termo usado para “desejos pecaminosos” (v. 24) é a palavra grega epithymia. Essa palavra significa paixões profundas e, em geral, é usada no sentido de paixões que dominam a pessoa de tal forma que ela passa a praticar atos que, em situações normais, desprezaria. Há pelo menos três instâncias em que a palavra é usada positivamente, inclusive por Jesus (Lucas 22.15). O ponto central do termo é algo que, se não for controlado, passa a dominar os atos e pensamentos da pessoa.

Parece justo afirmar que é Deus quem coloca essas paixões em nosso coração. O problema é que, com a Queda, até mesmo nossos desejos foram distorcidos. O desejo por reconhecimento e afeto, por exemplo, é dado por Deus, mas a Queda fez com que, em vez de buscarmos a Deus para satisfazer esse desejo, nos voltássemos para o mundo. Assim, pessoas buscam reconhecimento e afeto por meio de posses, sexo, realizações e outras estratégias pecaminosas.

Uma vez que uma pessoa rejeita a Deus, ela perde seu referencial. A partir daí, Deus a entrega aos seus próprios desejos. Em outras palavras, Deus permite que essa pessoa busque satisfazer seus desejos longe dele. O resultado, conforme descrito em Romanos 1, é o seguinte:

“Tornaram-se cheios de toda sorte de injustiça, maldade, ganância e depravação. Estão cheios de inveja, homicídio, rivalidades, engano e malícia. São bisbilhoteiros, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes e presunçosos; inventam maneiras de praticar o mal; desobedecem a seus pais; são insensatos, desleais, sem amor pela família, implacáveis.” (Romanos 1.29-30)

Infelizmente, essa condição de ser “entregue por Deus aos nossos desejos” não ocorre apenas com descrentes. Conheço e, em alguns momentos, experimentei o “ser entregue por Deus”. Acredito que, para nós, cristãos, essa condição seja limitada e temporária (Romanos 8.38-39); no entanto, já vi, na vida de cristãos, consequências trágicas por seguirem seus próprios desejos.

O que fazer?

Nesses momentos, sou levado ao final do salmo 139, quando Davi ora: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece as minhas inquietações. Vê se em minha conduta algo te ofende e dirige-me pelo caminho eterno” (v. 23-24).

Minha oração é que oremos como Davi, pedindo a Deus que revele nosso coração, para que não sejamos entregues ao nosso próprio coração!

Autor

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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