O Dilema do The Send Brasil

Foto/Facebook(thesendbrasil)

Qual deve ser a nossa reação diante de grandes eventos evangélicos, que atraem multidões, mas podem muitas vezes não demonstrar corretamente o cristianismo?

No dia 31 de janeiro tivemos a realização do evento The Send Brasil. Segundo alguns sites, o evento foi um movimento gigantesco: 300 mil participantes, 400 líderes presentes no palco, 12 horas de duração. Incluiu palestras, oração, apelos e louvor, com vários momentos de consagração e outras expressões.

Trata-se de um evento que chama a atenção de toda a sociedade brasileira. Alguns se empolgam, muitos ignoram e alguns condenam veementemente.

Tenho ouvido todo tipo de reação por parte dos cristãos quanto ao movimento. Por um lado, tenho diferenças teológicas e mesmo éticas profundas com alguns dos pregadores. Por outro, fico impressionado com o movimento, e algumas das reações e alguns dos preletores certamente são sinceros e legítimos.

Como, então, reagir diante de um movimento desses? Condenar por causa das ênfases com as quais discordamos? Afirmar porque pelo menos o evangelho está sendo apresentado? Afastar-nos devido ao oportunismo político de alguns? Apoiar pelo fruto que pode ter surgido?

Eu teria muito a comentar sobre alguns preletores e sobre os próprios objetivos do evento. Pergunto-me o quanto movimentos assim realmente promovem o evangelho. Houve homens e mulheres que ministraram ali que eu descreveria como falsos mestres; no entanto, também houve homens e mulheres que eu descreveria como servos fiéis.

Houve algumas ênfases das quais discordo teologicamente. Ao mesmo tempo, o propósito era estimular jovens à santidade, à proclamação do evangelho e à consagração ao trabalho missionário. Algum cristão sério pode se opor a tais objetivos?

Sim, podemos discordar do modo como o evento foi programado e conduzido. Podemos desconfiar do critério de escolha de preletores e músicos. Ao mesmo tempo, lembro-me da passagem de Romanos 14, com ênfase especial no versículo 10: “Portanto, você, por que julga seu irmão? E por que despreza seu irmão? Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus”.

Julgando os irmãos

A questão do julgamento é um tema delicado e, infelizmente, muitas vezes distorcido por grupos cristãos. Certa vez estive com um pastor mais velho tratando de um caso de disciplina na igreja. Ao confrontarmos o casal, rapidamente a esposa citou para nós Mateus 7.1 – “Não julguem, para que vocês não sejam julgados”. A atitude deles era arrogante e hostil, e sua vida cristã ruiu dentro de alguns meses, mas o versículo foi usado para desacatar a autoridade do pastor e da própria Bíblia.

O foco do ensino de Jesus é condenar julgamentos ou avaliações hipócritas.

No entanto, a questão do julgamento permanece, pois é verdade que Jesus ensinou para não julgarmos as pessoas. Ao mesmo tempo, ele também falou: “Não julguem apenas pela aparência, mas façam julgamentos justos” (João 7.24).

Na passagem de Mateus, o foco do ensino de Jesus é condenar julgamentos ou avaliações hipócritas. Ou seja, antes de avaliar a conduta de alguém, cuide de avaliar e deixar-se avaliar pela Palavra (Salmos 139.23-24). Essa mesma ênfase está presente no relato de João. Repare que João 7.24 começa com “não julguem penas pela aparência”, e a conclusão do versículo nos estimula a fazermos julgamentos com justiça.

Outro ponto fundamental quando avaliamos o procedimento de outra pessoa é que nosso “julgamento” não deve ter autoridade ou caráter condenatório. Somente um é justo juiz. Confira a passagem de Tiago 4.12: “Há apenas um Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e destruir. Mas quem é você para julgar o seu próximo?”. Nossa avaliação visa apenas alertarmos o irmão em Cristo – quando oportuno e sempre cuidando de nossa própria pecaminosidade.

Três considerações

Voltando ao evento em questão, deixe-me alistar algumas considerações:

Primeira, a palavra foi pregada, talvez não com a interpretação ou ênfase que eu julgo correta, mas a essência do evangelho foi promovida.

Podemos avaliar ensino, comportamento, ou mesmo posições teológicas, mas não o coração, pois este está oculto de nós.

Segunda, líderes fiéis conduziram o evento. Eu não considero todos fiéis, e alguns eu diria que tem se mostrado mais uma vergonha que uma ajuda à causa do Senhor. No entanto, Paulo nos alerta para não assumirmos que conhecemos o coração das pessoas. Podemos avaliar ensino, comportamento, ou mesmo posições teológicas, mas não o coração, pois este está oculto de nós (1Coríntios 2.11).

Terceira, eu não me envolvi (nem sequer fui convidado) e não me envolveria, pois me sentiria constrangido a compartilhar o palco com alguns dos presentes. Ao mesmo tempo, creio que assim como Deus pôde usar a Assíria – a quem chama de “vara do meu furor” e “bastão da minha ira” em Isaías 10.5 – para fazer sua vontade, ele é soberano para realizar sua vontade por meio de vasos quebrados.

Conclusão

Minha oração é que a igreja evangélica se torne mais e mais fiel, não que promova eventos fantásticos.

Minha oração é que jovens se curvem diante do Senhor e que líderes busquem se purificar diante de Deus.

Quando grandes eventos ocorrem, devo segurar minha condenação pelo todo, ainda que mantenha minha crítica a posições e posturas. Também oro para que nós sejamos encontrados fiéis na vinda do Senhor!

Autor

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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