Como Somos Conduzidos ao Arrependimento?

Quais são as condições necessárias para que o arrependimento ocorra, como a bondade de Deus é crucial nesse processo e como somos conduzidos em meio a ele? 

Minha esposa e eu tivemos o privilégio de criar quatro filhos com temperamentos e estilos muito diferentes. Uma de nossas preocupações era em como conduzi-los a uma atitude de arrependimento diante de Deus.

Tentamos várias abordagens ao longo dos anos. Algumas tiveram sucesso, outras fracassaram redondamente. Com o tempo, entendemos que ninguém pode levar outro ao arrependimento. Arrependimento depende de uma série de fatores. Por um lado, o reconhecimento de nossas limitações; por outro, um ambiente em que é seguro confessar nossas falhas.

Condições para o arrependimento

Estas duas condições são simbióticas, ou seja: uma precisa da outra para que o arrependimento ocorra. Por exemplo, se eu sei que errei, mas tenho a convicção de que serei destruído ao reconhecer meu erro, minha tendência será de ocultar, transferir, minimizar minha responsabilidade. Por outro lado, por mais seguro que seja um ambiente, se não creio em um padrão que pode indicar meu erro, nunca vou admiti-lo.

Pela complexidade do tema, sempre paro para refletir quando me deparo com uma passagem que trata do arrependimento. (Uma passagem que já tratei de estudar é 2Timóteo 2.24-26, que você pode ler no texto “O Perigo de um Coração Enganoso”.) Recentemente parei para refletir na passagem de Romanos 2.3-4:

“Assim, quando você, um simples homem os julga, mas pratica as mesmas coisas, pensa que escapará do juízo de Deus? Ou será que você despreza as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência, não reconhecendo que a bondade de Deus o leva ao arrependimento?”

Deus e o arrependimento

Após discorrer sobre a impiedade daqueles que rejeitam a Deus e a trágica consequência de serem entregues a seus próprios desejos (Romanos 1.18-32), Paulo passa agora a advertir aqueles que, percebendo-se justos, julgam os demais. No entanto, o que chamou minha atenção é a frase final do versículo 4 – “não reconhecendo que a bondade de Deus o leva ao arrependimento”.

Paulo afirma aqui que, entre outros fatores, a bondade de Deus leva pessoas ao arrependimento. Ele inclusive fala no início das “riquezas da sua bondade, tolerância e paciência”. Antes de examinarmos a palavra “bondade”, vamos olhar as duas outras usadas em conjunto com esta.

“Tolerância” (anoche) significa o ato de conter sua ira diante de uma ofensa. Na passagem de Romanos 3.25, lemos: “Em sua tolerância, [Deus] havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos”. Neste versículo, a tolerância demonstra o fato de que Deus conteve sua ira e não efetuou a justa consequência dos pecados cometidos. É por isso que não somos consumidos a cada pecado.

A palavra seguinte é “paciência” (makrothumia), que está ligada em seus usos à perseverança, firmeza, constância ou longanimidade. Intrinsicamente ligada à palavra anterior, a paciência de Deus não ignora ou se esquece do pecado, apenas vê muito mais longe que o homem.

Deus, que é atemporal, pode ver um arrependimento que não vemos ou sequer cremos. Se tolerância está ligada a reter a ria, paciência está ligada a aguardar o tempo predeterminado para Deus expressar sua justa ira contra o pecado.

Ambas as palavras, no entanto, estão condicionadas à palavra “bondade” (chrestotes). Esta está sempre ligada à graça e justiça. A bondade de Deus, baseada igualmente em sua graça (favor imerecido) e sua justiça, são a razão de não sermos consumidos imediatamente (Lamentações 3.22-23).

Conduzidos ao arrependimento

De que forma, então, essa bondade nos conduz ao arrependimento?

Em primeiro lugar, como já vimos acima, demonstrando que há uma solução para nosso estado essencial de pecado. A bondade de Deus inclui o fato de não sermos alvos imediatos de sua ira (tolerância), de que sua ira é guardada até o momento em que, reconhecendo minha dependência, eu tome sobre mim o pagamento de meus pecados por meio da obra de Cristo na cruz. Se não houvesse uma opção, não haveria salvação e assim não haveria conversão ou arrependimento, apenas remorso e desespero.

Não somos conduzidos ao arrependimento por nossa capacidade moral ou mesmo por ensinos bíblicos.

Mais do que isso, por meio da obra do Espírito, a bondade de Deus nos conduz ao entendimento (João 16.7-11) e ao arrependimento (Romanos 2.4), chegando por fim à própria conversão (Efésios 2.8-9). De um modo muito claro, não somos conduzidos ao arrependimento por nossa capacidade moral ou mesmo por ensinos bíblicos. Embora fundamentais, esses ensinos apenas nos apresentam as verdades essenciais para que, por meio da obra do Espírito (na passagem de Romanos 2.4 pela bondade de Deus), cheguemos ao arrependimento (2Timóteo 2.24-26).

Minha oração é que sejamos impactados pelas “riquezas da sua bondade” e, mais do que isso, oro para que possamos refletir sobre essa bondade. Estou seguro de que trazer à mente essa bondade nos aproxima de um espírito quebrantado e humilde!

Autor

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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