Como a regeneração e a renovação devem transformar a nossa forma de viver e nossos relacionamentos? O que se deve esperar de cristãos sob a direção do Espírito Santo?
Há algum tempo conversei com um casal de noivos. Como costumo fazer nestes casos, pergunto sobre as famílias de origem, pois muitos dos conflitos entre um casal começam nos comportamentos e atitudes aprendidos na casa onde cresceram (1Pedro 1.18).
Para minha tristeza, o que ouvi indicou que os problemas das famílias de origem tinham alta probabilidade de se repetir nesse novo casal. Atitudes, expectativas e valores preocupantes dos pais estavam presentes nos noivos. Ao conversarmos sobre isso com muito cuidado, pois não queria soar “determinista” nem contrário ao relacionamento, percebi a resistência dos dois a investirem em mudanças necessárias e possíveis antes mesmo do casamento.
O casamento e o reino
Na semana passada, comecei a escrever uma série sobre de que forma o estudo das características do reino de Deus deveria orientar nossas vidas em geral e nossos casamentos em particular. O cerne do texto era como a graça do reino de Deus pode e deve impactar um casamento cristão. No entanto, com frequência esta ênfase na graça parece trazer consigo uma mensagem de que não há necessidade de transformação pessoal. O famoso teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer chamava isso de “graça barata”.
A graça torna um casamento possível devido ao perdão e à reconciliação. Isso, no entanto, não significa que a graça exclua a transformação. Paulo escreve:
“Mas quando, da parte de Deus, nosso Salvador, se manifestaram a bondade e o amor pelos homens, não por causa de atos de justiça por nós praticados, mas devido à sua misericórdia, ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós generosamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador.” (Tito 3.4-6)
A bondade e o amor de Deus pelos homens (v. 4), somados à declaração de que a salvação não é devido a nossos “atos de justiça” (v. 5), apontam para a própria graça, ainda que o termo não seja mencionado nestes versículos. No entanto, ainda no versículo 5, ele afirma que sua misericórdia nos concede não só a remissão dos pecados, mas a regeneração e renovação do Espírito Santo.

Regeneração
Regeneração é definida por Wayne Grudem como o “ato secreto de Deus pelo qual ele nos comunica nova vida espiritual”.[1] O conceito se baseia em 2Coríntios 5.17: “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!”. Aqui Paulo declara que somos feitos novos em Cristo, nascemos de novo.
Trata-se de uma perspectiva preciosíssima dentro de qualquer relacionamento, em especial no casamento, pois sempre podemos ter a esperança de sermos transformados pelo poder do Espírito Santo.
Se você está em Cristo, você tem o direito e o dever de esperar mudanças em seu coração a partir da obra do Espírito Santo.
Infelizmente, já ouvi maridos mentirosos afirmando que sempre mentiram e que não tinham esperança de parar de mentir. Ou de esposas briguentas desculpando seu mau humor em características de temperamento. Ambos os exemplos negam a realidade da regeneração. Se você está em Cristo, você tem o direito e o dever de esperar mudanças em seu coração a partir da obra do Espírito Santo. Somos chamados a vir a Cristo como estamos em pecado, mas não é a vontade dele que continuemos em pecado por toda a nossa vida. Ele nos chama para uma nova vida!
Renovação
A segunda promessa feita a partir da misericórdia de Deus é nossa renovação. Enquanto a regeneração é um ato divino e instantâneo, a renovação pode ser entendida como santificação, que é definida por Grudem como “uma obra progressiva da parte de Deus e do homem que nos torna cada vez mais livres do pecado e semelhantes a Cristo em nossa vida presente”.[2] A passagem que atesta essa descrição é 2Coríntios 3.18: “E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito”.
Quando aplicados a um relacionamento, tal como um casamento, essa promessa é muito preciosa! Primeiro, ela descreve como somos transformados ao contemplarmos o Senhor. O ato de comtemplar não é um mero olhar, mas refere-se a uma relação de intimidade e adoração de nossa parte. Em segundo lugar, afirma que estamos sendo transformados (processo contínuo) à imagem do Senhor. Ele, Jesus, é nosso alvo maior, nosso modelo dentro e fora de um casamento. Por fim, declara que nossa transformação é ação do Espírito Santo.
Minha sincera oração por mim e por você, meu leitor, quer você esteja em um relacionamento conjugal ou não, é que seu coração se sinta tanto desafiado quanto encorajado com a transformação que nos é apresentada quando vivemos com a perspectiva do reino em nossas vidas.
Notas
- Wayne Grudem, Teologia Sistemática, Atual e Exaustiva (São Paulo: Vida Nova, 1999), p. 584.
- Ibid., p. 622.
Autor
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Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.
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