Um estudo sobre Jonas 3.10–4.1, no qual o profeta nos mostra que é possível ignorar o óbvio em nossa caminhada cristã.
Você já deixou de ver o óbvio? Eu sim.
Prova A: o que aconteceu com Mark Yarbrough e Garrett Chandler em 1o de dezembro de 2019.
Quero começar pelo princípio. Tenho o prazer de comunicar que ganhei um novo filho, chamado Garrett Chandler. Ele se juntou oficialmente ao clã Yarbrough quando percorreu a nave da igreja e se casou com nossa filha mais velha, Kayla. Essa relação agora é permanente e, por isso, digna de ser comunicada por escrito – e estamos superfelizes!
Ser ao mesmo tempo pai da noiva e oficiante do casamento deixou o dia muito especial. Como pai, meus olhos estavam úmidos e eu me sentia nostálgico. Como oficiante, eu era o sargento de armas, conferindo a ordem do culto e cuidando de todos os detalhes que poderiam dar errado. Depois de já ter realizado o que pareciam centenas de casamentos, aprendi que sempre tem algo dando errado. Assim, na manhã do casamento de Kayla, eu disse à minha família e aos padrinhos que não se preocupassem com os contratempos; afinal, “tudo isso vira lembrança”.
No dia do casamento, tudo estava perfeito. Várias horas antes da contagem regressiva, dei uma volta pela igreja e pelo salão da recepção para checar tudo. Uma hora antes, ensaiei minha pregação. Trinta minutos antes da cerimônia, os padrinhos estavam todos alinhados, ajeitando gravatas e polindo sapatos. Quinze minutos antes da hora, ensaiamos os votos e o processional. Dez minutos antes de acomodar os pais e avós, contei uma piada para aliviar a tensão.
Então, surgiu aquela pergunta cinco minutos antes da cerimônia. Garrett olhou para Jacob, nosso filho mais velho e principal padrinho do noivo, e perguntou: “Onde está a aliança?”. Jacob olhou para mim. Olhei para Garrett. Infelizmente, todos nós tínhamos o mesmo olhar: pânico puro.
Nenhum de nós estava com a aliança. Decidido a resolver o problema, corri escada acima para a sala da noiva a fim de perguntar a Kayla. Ao irromper na sala… as meninas estavam orando. Tentando respeitar aquele momento sagrado, comecei a brincar de mímica com uma das cerimonialistas, que tinha aberto os olhos na hora que entrei. Depois do fim da oração, enquanto as mulheres se dirigiam à escada, ficou claro que Kayla também não sabia onde estava a aliança de Garret. No entanto, concluímos que ela estava na caminhonete de Garrett, estacionada a três quilômetros da igreja. Assim, agarramos dois bons amigos e empurramos ambos porta afora para procurar a aliança. Lá se foram eles em sua picape, levantando uma nuvem de poeira, para procurar o item mais importante do casamento. Nunca vou me esquecer de como, no momento em que os padrinhos já estavam entrando na igreja, os amigos entraram cantando pneu no estacionamento com a aliança em mãos. Jogando-a para um dos padrinhos, eles então caminharam calmamente para o santuário, a fim de tomar seus lugares. E, em um momento lindo de reflexão, Garrett olhou para mim, deu uma piscadinha e disse: “Lembrança número 1”. Rimos muito.
Por mais engraçado que tenha sido o que aconteceu conosco, nem sempre esses contratempos são frívolos. Quero perguntar novamente. Você já deixou de ver o óbvio? Já lhe aconteceu de se concentrar na coisa errada, deixando de ver algo mais importante? Jonas sim. E sua falta de priorização estratégica é trágica. Ah, sim, ele também guardou a sua lembrança, mas esta certamente foi triste, dando-nos um vislumbre de seu coração endurecido e irado.

O exemplo de Jonas
“Deus viu o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus mudou de ideia quanto ao mal que tinha dito que lhes faria e não o fez. Mas Jonas ficou muito aborrecido e com raiva.” (Jonas 3.10–4.1)
Ao concluir o capítulo 3 de Jonas e entrar no final desolador e penoso dessa história, deparamos com informações chocantes. O profeta renegado, depois de sua rebelião inicial, do passeio marítimo, do transporte via peixe e da relutante obediência, prega uma breve mensagem aos ninivitas, que leva a arrependimento. O povo, representado por seu rei, busca graça junto ao Deus de Israel. Afastam-se de seus caminhos maus e da sua violência (3.8) e apelam à compaixão de Javé para que não pereçam (3.9).
O texto bíblico deixa claro que Deus viu essa mudança. Mais precisamente, o texto diz que “se converteram do seu mau caminho”. Com certeza, essa mudança exterior era fruto da decisão íntima e sincera de mudar de ideia em relação ao Deus de Israel. Arrependimento é isto: mudar de ideia a respeito de algo específico. Nesse caso, os ninivitas confiaram em Deus e de alguma forma perceberam que a sua maldade não agradava a ele. Não mudaram simplesmente por mudar. Foi uma mudança em nome do que era certo.
Como Deus respondeu ao arrependimento deles?
Deus teve compaixão e não enviou a destruição certa que Jonas anunciara. Deus respondeu ao arrependimento do povo. Ele sempre faz isso. Deus sempre responde a um coração quebrantado. Nesse caso, isso resultou em libertação para Nínive. Douglas Stuart observa:
O fato de Deus optar por agir na dependência – ao menos parcial – das ações humanas não representa limitação de sua soberania. Tendo decidido primeiro dar às nações a escolha entre obediência e desobediência, o fato de ele responsabilizar cada um por seus atos automaticamente envolve algum tipo de contingência. Ele promete bênçãos caso se arrependam, e punição em caso negativo. Mas dificilmente isso torna Deus dependente das nações; antes, elas que passam a depender dele. […] Deus detém todo o direito, todo o poder, toda a autoridade.[1]
Que aspecto encorajador dessa história! A compaixão de Deus era grande e agora se estendia aos ninivitas, à nação assíria. Fez diferença? Fez para aquela geração. Embora Nínive tenha caído cerca de 150 anos depois, em 612 a.C., a geração sobre a qual lemos aqui foi beneficiada pelos corações arrependidos que levaram à demonstração da bondade de Deus. Ele tem prazer em demonstrar favor imerecido. Ele é o Deus da graça. Amém? Amém.
Amigos, esse momento é destacado no texto porque os ninivitas creram em Deus e se arrependeram de seu pecado, e Deus estendeu misericórdia. Para ser mais exato, observe o texto com atenção na transição entre 3.10 e 4.1.
Não quero que você passe por cima disso; não deixe de ver o óbvio.
Eis o texto:
[3.10] Deus viu o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus mudou de ideia quanto ao mal que tinha dito que lhes faria e não o fez. [4.1] E o profeta de Deus foi para casa regozijando-se porque os ninivitas se arrependeram de seu pecado e entraram em um relacionamento vivo e salvífico com o Deus de Israel; e aquela geração foi poupada da tragédia de sofrer as consequências de seu pecado.
Que belo fim para um livro fascinante! Jonas finalmente entendeu o que estava em jogo e se alegrou com a misericórdia e a graça de Deus!
O quê? A sua versão não diz isso?
É claro que não.
Por quê? Porque Jonas deixou de ver o óbvio. Como seu coração não tinha a postura correta, ele deixou de perceber que esse era um momento de alegria. Na realidade, o autor quer que vejamos que Jonas tinha um problema importante. Observe o que o verdadeiro texto diz: “Mas Jonas ficou muito aborrecido e com raiva” (4.1). Uma tradução literal do versículo sugere que a salvação dos ninivitas “era má aos olhos de Jonas, uma grande perversidade, e isso o queimou por dentro”. Até aqui, “mau” (ra‘) é usado para descrever os ninivitas. Agora, passa a ser aplicado ao profeta.
Jonas tornou-se mau aos olhos do Senhor. Era ele quem precisava de castigo, não os ninivitas. John Hannah explica: “A palavra ‘mas’ aponta para o contraste entre a compaixão de Deus (3.10) e o desagrado de Jonas, entre o fato de Deus se afastar da sua ira (3.9-10) e Jonas voltar-se para ela”.[2]
Jonas estava ali para testemunhar o arrependimento do rei, mas de alguma forma sabia que Deus havia desistido do juízo iminente para derramar compaixão sobre Nínive (3.10). Isso o queimou por dentro. Ele sentiu ira e desagrado. É simplesmente atordoante que o candidato mais improvável na história (o rei pagão) recebeu a misericórdia de Deus, enquanto o candidato mais provável (um profeta israelita) a rejeita. Quem deveria estar se alegrando estava fumegando.
Jona
Neste comentário expositivo, Mark M. Yarbrough revela que o livro de Jonas é muito mais do que um conto para crianças, pois contém muitas lições para o crescimento espiritual.
De muitas formas, o autor usa uma sátira mordaz para chamar nossa atenção para o que aconteceu. Ele está se certificando de que o leitor não deixará de ver o óbvio. Para deixar claro, sátira é a tentativa de produzir uma mudança por meio da ridicularização de uma ideia, pessoa ou tipo de pessoa. Ela recorre a muita ironia, como vemos nessa frase de transição final. O simples fato de Jonas se irar não faz sentido.
De repente, aquele que esperaríamos que fosse o herói não é heroico. Sim, depois de ser vomitado pelo peixe, Jonas foi pregar a Nínive – com relutância. Mas nós sabemos que a obediência relutante não é uma obediência de coração. Obediência é mais do que uma simples função. O profeta de Deus podia receber a graça divina, mas não conseguia estendê-la a outros.
Até hoje, não há tragédia maior do que quando pessoas da graça, exatamente aquelas que receberam a graça e a bênção de Deus, não conseguem estendê-la a outros.
Notas
- Douglas K. Stuart, Hosea-Jonah, Word Biblical Commentary (Waco: Word Books, 1987), p. 496.
- John D. Hannah, “Jonah”, The Bible Knowledge Commentary: Old Testament, ed. John F. Walvoord e Roy B. Zuck (Wheaton, IL: Victor, 1985), p. 1470.
Este artigo foi extraído e adaptado do comentário bíblico de Jonas, escrito por Mark M. Yarbrough.
Autor
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Mark M. Yarbrough (Ph.D., Dallas Theological Seminary) é presidente do Dallas Theological Seminary desde 2020 e professor de exposição bíblica na mesma instituição. Também serve como presbítero na Centerpoint Church Mesquite, no Texas (EUA). Casado com Jennifer há trinta anos, tem quatro filhos adultos.
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