Na tentativa de consolar, algumas pessoas podem acabar piorando a situação. De que formas podemos trazer consolo àqueles ao nosso redor?
Minha esposa e eu passamos por uma experiência muito frustrante anos atrás. Nós entramos em um processo de adoção, recebemos a guarda temporária de um bebê de dois meses, mas, infelizmente, a mãe natural desistiu de dar seu filho para adoção – optando por deixá-lo ser cuidado pelos pais idosos dela.
Depois de semanas cuidando dele, fomos obrigados a entregá-lo para uma assistente social e nunca mais tivemos notícias. A experiência em si foi extremamente traumática para nós e para nossas filhas (na época com 4 e 6 anos de idade). Anos depois, adotamos mais dois meninos que hoje já são adultos.
Tentativas erradas de consolar
Houve um elemento nesta experiência, no entanto, que tornou o processo muito pior.
Vários amigos cristãos vieram nos oferecer consolo, e as expressões mais comuns eram: “Quem sabe Deus não livrou vocês de algo muito pior?”, ou: “Deus nunca erra, isso foi uma bênção disfarçada”, ou ainda: “Deus escreve certo por linhas tortas…”. Tenho certeza de que aquelas pessoas nos amavam e queriam nos ajudar; não estavam tentando causar mais sofrimento, mas suas palavras eram tão carregadas de erros teológicos, além de insensibilidade, que tiveram um efeito pior.
No meio evangélico, quando nos deparamos com algum evento triste na vida de um cristão, é comum tentarmos “defender” Deus. Tentamos explicar o acontecido como se não fosse algo realmente ruim, mas sim um evento positivo que ainda não entendemos. É possível que por trás disso esteja o desejo de evitar a ideia de que, quando permite algo ruim a um de seus filhos, Deus não seja tão bom ou poderoso. Assim, mesmo diante de uma tragédia, procuramos tentar convencer o crente a não se lamentar, a não se entristecer, mas louvar a Deus pela “bênção disfarçada”.
A Bíblia e o consolo
No entanto, o lamento é algo tremendamente comum em toda a Bíblia. Temos inúmeros Salmos de lamento (p. ex., 12–13; 22; 38; 74; 79–80; 86). Alguns estudiosos afirmam que pelo menos um terço dos Salmos são canções de lamento. O lamento não exclui a esperança e, de forma geral, termina com louvor.
Apesar desta estrutura, o lamento não chama o mal de bem nem promove a ideia de “bênção disfarçada”. O mal é mal e traz sofrimento. A injustiça é injustiça. A soberania de Deus está acima dessas tragédias. Ele até mesmo usa atos injustos para disciplinar seus filhos (Isaías 10.5-6). No entanto, isso não torna tragédias em coisas boas.

O apóstolo Paulo fala diretamente sobre o tema quando escreve: “Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram” (Romanos 12.15). Esse versículo se encontra em um trecho no qual o apóstolo está instruindo sobre o amor e os relacionamentos. Ele não qualifica ou afirma que devemos chorar um pouco e logo depois exortar o irmão ou a irmã a ver a bênção na tragédia.
Repare, por exemplo, o salmo 13:
“Até quando, Senhor? Para sempre te esquecerás de mim? Até quando esconderás de mim o teu rosto? Até quando terei inquietações e tristeza no coração dia após dia? Até quando o meu inimigo triunfará sobre mim? Olha para mim e responde, Senhor, meu Deus. Ilumina os meus olhos, ou do contrário dormirei o sono da morte; os meus inimigos dirão: ‘Eu o venci’, e os meus adversários festejarão o meu fracasso. Eu, porém, confio em teu amor; o meu coração exulta em tua salvação. Quero cantar ao Senhor pelo bem que me tem feito.”
Os primeiros dois versículos apresentam a profunda emoção de Davi. Ele está frustrado com Deus.
Não é pecado expressar seus sentimentos a Deus. Este se alegra com nossa sinceridade – inclusive, se tentarmos ocultar nossos sentimentos dele, estamos bloqueando a cura que o Espírito pode trazer. Veja o exemplo de Ana, mãe de Samuel (1Samuel 1.15), ou a recomendação de Pedro em 1Pedro 5.7 (“Lancem sobre ele toda a sua ansiedade”). Derramar o coração diante de Deus é o primeiro passo da cura. No entanto, não podemos parar aí.
Os versículos 3-4 apresentam o clamor, o pedido de Davi com respeito à sua situação trágica. Após expressar sua frustração, ele pede. Esse gesto encontra eco em Filipenses 4.6-7, onde Paulo nos exorta a apresentarmos nossos pedidos a Deus.
Por fim, naquilo que provavelmente foi uma resposta de fé por algo ainda não recebido, nos versículos 5-6 Davi firma sua confiança na salvação que Deus trará. Essa declaração de esperança não muda o fato de que o que ocorreu foi ruim, mas enche seu coração com o que Deus vai fazer apesar ou mesmo por meio da tragédia.
Conclusão
Minha oração é nós sejamos portadores de consolo e esperança em nome de Deus (2Coríntios 1.3-4). E que, em momentos de tristeza, tenhamos irmãos que nos amem o suficiente para chorar conosco!
Autor
-
Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.
Ver todos os posts