A Bíblia e o Justo Juiz

O que a Palavra afirma sobre as características que um juiz deve ter? E como devemos nos comportar diante da atual situação em nosso país e no mundo com juízes injustos?

Entre as profissões mais difíceis, creio que ser juiz está lá no topo.

Tenho tido contato com juízes ao longo da vida, e eles, sem ultrapassar os limites de sua função, compartilharam comigo decisões difíceis. Entre as mais complexas estão decisões na área da família. Nesses casos, confidenciou-me um amigo, o juiz frequentemente precisa tomar uma decisão que não está de acordo com o melhor interesse da criança, mas sim com o requisito legal. Como eu sou alguém muito passional, acredito que seria um péssimo juiz!

A ruptura do pacto social

Nos últimos tempos, o Brasil tem assistido ao que já foi chamado de “circo de horrores” no judiciário. Estou falando de decisões claramente interesseiras e partidárias, ataques típicos de bate-boca de boteco, manobras e distorções que ultrapassam o senso comum.

Ao invés de ser o fiel da balança, o último reduto da moralidade, o equilibro da vida política, nosso judiciário tem se tornado um espaço de disputas mesquinhas e evidentemente servido a interesses escusos.

O efeito dessa “implosão” da credibilidade do judiciário é a crescente sensação de impunidade e, ainda mais grave, a ameaça de ruptura do pacto social. “Pacto social” refere-se ao acordo informal em uma sociedade de que manteremos as leis para que haja condições de convivência. Sem o pacto social, segundo o filósofo inglês Thomas Hobbes, o ser humano viveria em um estado de “cada um contra todos”.[1]

Voltando à Palavra

O que nos importa como cristãos é voltarmos à nossa base de fé e ouvirmos o que a Palavra afirma sobre juízes e sua função. Alistei algumas observações, que, embora não sejam exaustivas, podem servir para orientar a nossa vida cotidiana ao avaliarmos juízes e seu impacto sobre a vida e a política.

  1. Imparcialidade. Justiça exige uma avaliação sem preferências, sem tomar lados ou partidos. Repare neste texto de Levíticos 19.15: “Não cometam injustiça num julgamento; não favoreçam os pobres, nem procurem agradar os grandes, mas julguem o seu próximo com justiça”. Repare que a orientação não é favorecer nemo pobre nem o rico. Ou seja, julgue sem tomar partido!
  2. Incorruptibilidade. Qualquer vantagem que um juiz ganhe de uma decisão que favoreça um ou outro lado torna sua decisão corrompida. Êxodo 23.8 afirma: “Não aceite suborno, pois o suborno cega até os que têm discernimento e prejudica a causa do justo”. O suborno, em qualquer forma, “cega” mesmo os juízes que têm discernimento. Assim, ao aceitar qualquer vantagem, o juiz perde sua capacidade de realizar um julgamento justo.
  3. Proteção do vulnerável. O juiz é o recurso daquele que não tem força de se defender. De modo geral, o poderoso consegue fazer valer seus direitos ou interesses. O vulnerável, no entanto, está sempre dependente de proteção. Em Salmos 82.3-4, lemos: “Garantam justiça para os fracos e para os órfãos; mantenham os direitos dos necessitados e dos oprimidos. Livrem os fracos e os pobres; libertem-nos das mãos dos ímpios”. Toda vez que um juiz deixa de defender o fraco, ele está agradando o poderoso. Repare que, como vimos acima, o princípio não é favorecer o pobre, mas proteger o direito do vulnerável. Logo, a Palavra não afirma que não devemos dar preferência ao pobre, mas garantir que seus direitos sejam preservados. Hoje em dia, infelizmente, há uma grande confusão entre direitos e anseios.
  4. Prestação de contas. Em última análise, Deus é quem garante a justiça no tempo dele. Mesmo quando somos injustiçados nesta vida, podemos contar com a justiça daquele que é justo juiz (Salmos 7.11). Lemos no salmo 82: “É Deus quem preside à assembleia divina; no meio dos deuses, ele é o juiz… Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois todas as nações te pertencem” (v. 1,8). Usando a expressão “deuses”, o salmista destaca a autoridade da função de um juiz legítimo. Ao mesmo tempo destaca também que há sobre todos os juízes um Justo Juiz, o Senhor Deus.

Conclusão

Estaremos sujeitos à injustiça neste mundo, muitas vezes debaixo de juízes injustos. Na verdade, esta é mais uma razão para não colocarmos toda a nossa esperança em um juiz ou outro, ou mesmo em um governante ou outro, mas sim naquele que é infinitamente justo e bom.

Minha oração – por você, por mim e por nossa nação – é que Deus tenha misericórdia de nós e nos poupe de juízes corruptos.

Nota

  1. Thomas Hobbes, Leviathan (reimpr. Oxford: Oxford University Press, 1909), cap. 14, p. 105.

Autor

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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