A Maravilhosa Atuação da Trindade em Nossa Salvação

O que a Bíblia revela sobre a relação entre nossa salvação, desde antes mesmo de nossa conversão até a eternidade, e a ação do Deus triúno?

Pouco antes de ascender aos céus, o Jesus ressurreto deixou uma missão aos seus seguidores: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês. E eis que estou com vocês todos os dias até o fim dos tempos” (Mateus 28.18-20).

Conhecida como a Grande Comissão, esse mandamento do Senhor continha uma fórmula trinitária muito importante – “batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” –, isto é, num só nome (singular), não nos nomes do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Embora esta seja uma questão gramatical, ela adquire extrema importância quando lembramos que quem a pronunciou (Jesus) e quem a registrou (Mateus) eram judeus. Como o professor J. Scott Horrell escreve: “Para um judeu como Jesus (e o escritor Mateus), incluir três pessoas no ‘Nome’ singular (muito provavelmente referindo-se ao nome sagrado de Deus) equivaleria a uma blasfêmia – se não fosse absolutamente verdade!”.[1]

Dito isso, podemos concluir que o plano desenhado por Cristo na Grande Comissão envolvia a evangelização por toda a terra e o batismo daqueles que se converteriam. Logo, os novos cristãos eram familiarizados desde cedo com o Deus triúno e sua ação na salvação deles. Mas como isso de fato se deu? E a atuação do Pai, do Filho e do Espírito Santo está reservada apenas a um momento de nossa salvação?

Neste artigo, desejo mostrar como a Trindade atuou no passado, continua atuando no presente e ainda atuará no futuro em prol de nossa salvação. Esse estudo só aumentará nossa admiração pelo grandioso e amoroso Deus.

Passado

O plano de Deus para nos salvar claramente não começou há dois mil anos, quando Jesus encarnou e viveu na terra de Israel. Escrevendo aos cristãos em Éfeso, o apóstolo Paulo diz que, “antes da fundação do mundo, Deus nos escolheu” (1.4).

Já encontramos uma pista do maravilhoso plano salvador de Deus nos primeiros capítulos da Bíblia. Em Gênesis 3.15, depois do pecado de Adão e Eva, Deus fala à serpente: “Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela. Este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar”. E, ao longo de todo o Antigo Testamento, podemos ler as promessas quanto à libertação futura através de um indivíduo especial. Aquele profeta que seria semelhante a Moisés (Deuteronômio 18.15,18), “em cuja boca porei as minhas palavras” – lembremos das várias afirmações de Jesus sobre agir segundo a vontade do Pai (p. ex., João 5.19; 6.38; 10.30).

Jesus não poderia ter realizado toda a obra aqui na terra sem a operação do Pai e do Espírito Santo através de Maria e, depois, durante todo o seu ministério.

Chegando no período do Novo Testamento, encontramos muitas evidências da ação de todas as três pessoas da Trindade durante o ministério terreno de Jesus. De forma breve, vemos a ação trinitária na própria encarnação de Jesus, pois a concepção da virgem Maria só foi possível pela ação do “Espírito Santo” e pelo envolvimento do “poder do Altíssimo”, conforme lemos em Lucas 1.35: “O anjo respondeu: ‘O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus’”.

Jesus não poderia ter realizado toda a obra aqui na terra sem a operação do Pai e do Espírito Santo através de Maria e, depois, durante todo o seu ministério. Por exemplo, eles aparecem novamente no batismo de Jesus: “Naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi batizado por João no rio Jordão. Logo ao sair da água, Jesus viu os céus se abrindo e o Espírito descendo como pomba sobre ele. Então veio uma voz dos céus, que dizia: ‘Você é o meu Filho amado; em você me agrado’” (Marcos 1.9-11).

Refletindo sobre a morte de Cristo na cruz, Tim Chester escreve que “a expiação é inescapavelmente trinitariana, porque só é compreensível se Deus for uma Trindade de pessoas. Se Deus não fosse Trindade, quem ofereceria o sacrifício a Deus? Se Deus o fosse oferecer, quem o receberia?”.[2] Em outro ponto, ele também escreve: “Mas em seu cerne, a salvação é uma transação dentro da Trindade. O Filho oferece a si mesmo ao Pai como nosso substituto. Deus julga e também é julgado. O Espírito aplica essa transação a nossas vidas”.[3]

Presente

Vimos que a Trindade se envolveu ativamente para nos proporcionar a salvação, isto é, a reconciliação com Deus. Agora, como entender a atuação divina em nossa salvação no presente? Depois de depositarmos nossa fé no sacrifício de Cristo na cruz por nós, como o Deus triúno continua agindo em e por meio de nós?

Uma passagem central que responde a essa questão é João 10.27-30, na qual Jesus afirma: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo, e da mão do Pai ninguém pode arrebatar. Eu e o Pai somos um”.

Em primeiro lugar, Jesus afirma que conhece todas as suas ovelhas – aqueles que lhe pertencem – e que ninguém pode arrebatá-las de sua mão; afinal, ele é o bom Pastor (veja João 10.11-16). Depois, declara que ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Ou seja, vemos aqui que tanto Deus Pai quanto Deus Filho atuam como “pastores” nos protegendo das garras dos lobos selvagens que procuram nos atacar e atacar as demais ovelhas.

Por fim, em Efésios 4.30, Paulo escreve que nós também fomos “selados” no Espírito “para o dia da redenção”. No começo da carta, o apóstolo já havia mencionado o selo do Espírito ao dizer que “nele [Cristo] também vocês, depois que ouviram a palavra da verdade, o evangelho da salvação, tendo nele também crido, receberam o selo do Espírito Santo da promessa. O Espírito é o penhor da nossa herança, até o resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (1.13-14).

O que vemos em todas essas passagens, mas de um modo especial em Efésios, é que nossa salvação está assegurada pelo Deus triúno.

O que significa ser selado pelo Espírito Santo? O teólogo William Hendriksen explica que, antigamente, um selo “não era estampado, porém fixado ou atado a um objeto” por três motivos: (1) garantir o caráter autêntico de um documento etc. ou, figuradamente, de uma pessoa; (2) marcar uma propriedade; e/ou (3) proteger contra violação e dano.[4] Em seu comentário sobre essa carta, o reformador João Calvino explica que Paulo fez uso dessa metáfora comercial para que ficasse claro que não seria possível haver uma mudança de intenção da parte de Deus, nosso comprador/proprietário.[5]

O que vemos em todas essas passagens, mas de um modo especial em Efésios, é que nossa salvação está assegurada pelo Deus triúno. Lewis Sperry Chafer chegou a afirmar que “nada poderia ser mais seguro do que o crente ser ‘selado [pelo Espírito] para o dia da redenção’ (Efésios 4.30)”.[6]

Além disso, Paulo ainda define que o selo é do “Espírito Santo da promessa”. Uma vez que a vinda do Espírito já havia sido prometida no Antigo Testamento (p. ex., Joel 2.28-29) e também por Jesus (João 14.16-17; 15.26; 16.13; veja esp. Atos 1.4, onde ele é descrito apenas como “a promessa”), Hendriksen escreve que, “ao pensar no próprio fato de como em sua vinda e obra as promessas divinas se cumpriram gloriosamente, porventura não é para nós sinal inconfundível de que também as promessas de bênçãos futuras para os crentes alcançarão também um agradável cumprimento?”.[7]

Como é maravilhoso poder viver o presente com a certeza de que Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo agem ativamente em nossa vida, assegurando-nos um futuro maravilhoso! E como fica a ação divina nesse futuro?

Futuro

Dentre os três tempos da história – passado, presente e futuro –, acredito que este último é o menos associado especificamente com a Trindade quando pensamos na salvação do crente. E escrevo “especificamente” porque, de uma forma geral, é comum se falar sobre a vida eterna na presença de Deus.

Contudo, a Bíblia tem mais a revelar sobre o papel da Trindade na consumação futura de nossa salvação, por exemplo na ressurreição.

Em João 5.21, vemos que “o Pai ressuscita e vivifica os mortos, assim também o Filho vivifica aqueles a quem quer”. Que a ressurreição era uma prerrogativa do Pai estava claro para os judeus, mas aqui Jesus fala que ele também detinha esse poder, pois existia em perfeita harmonia com o Pai (veja os v. 19-20). Lembremos das palavras de Jesus a Marta, logo antes de ressuscitar seu irmão Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (João 11.25).

Assim como no ponto anterior, sobre o presente, temos aqui uma afirmação de Cristo falando sobre o seu papel e o papel do Pai. Já em Romanos 8.11, Paulo completa falando do Espírito Santo: “Se em vocês habita o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou Cristo dentre os mortos vivificará também o corpo mortal de vocês, por meio do seu Espírito, que habita em vocês”.

Quão incrível é saber que a futura ressurreição – o momento em que nossos corpos corruptíveis, desonrosos e fracos se tornarão incorruptíveis, gloriosos e poderosos (para usar as palavras de Paulo em 1Coríntios 15; veja tb. Filipenses 3.21) – jaz na participação ativa de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo!

Conclusão

Neste breve estudo, pudemos ver que nosso Deus triúno agiu para que a salvação fosse possível, age na vida de todo aquele que crê e agirá em prol de nossa futura ressurreição. Que Deus seja louvado!

Notas

  1. Nathan D. Holsteen e Michael J. Svigel, eds., Explorando a Teologia Cristã, vol. 1: Revelação, Escritura e Trindade, trad. Doris Körber (Porto Alegre: Chamada, 2025), p. 221, ênfase no original.
  2. Tim Chester, Conhecendo o Deus Trino: Porque Pai, Filho e Espírito Santo São Boas Novas, trad. Elizabeth Gomes (São José dos Campos, SP: Fiel, 2016), p. 144-145.
  3. Ibid., p. 133.
  4. William Hendriksen, Efésios e Filipenses, trad. Valter Graciano Martins, 3. ed. (São Paulo: Cultura Cristã, 1992), p. 109.
  5. João Calvino, Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses, trad. Valter Graciano Martins (São José dos Campos, SP: Fiel, 2010), p. 221-222.
  6. Lewis Sperry Chafer, Teologia Sistemática, trad. Heber Carlos de Campos, 3. ed., vol. 1 (São Paulo: Hagnos, 2013), p. 324.
  7. Hendriksen, Efésios e Filipenses, p. 110.

Autor

  • Sebastian Steiger (B.Th., Staatsunabhängige Theologische Hochschule Basel) é editor do Ministério Chamada no Brasil. Também formado em administração, sua paixão tem sido estudar tudo o que envolve o Antigo Testamento. Casado com Débora, tem uma filha.

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