A Violência Nossa de Cada Dia

Diante de uma triste situação de violência na final do Campeonato Mineiro, podemos refletir sobre a questão da culpa, do pecado e da violência neste mundo.

Todo brasileiro já testemunhou brigas em jogos profissionais de futebol. Geralmente envolvendo poucos jogadores, tais ocasiões parecem sem importância.

Na final do Campeonato Mineiro deste ano, no entanto, o futebol brasileiro alcançou um vergonhoso recorde: 23 jogadores expulsos no final da partida! Este número superou o antigo campeão em expulsões, uma partida entre Portuguesa e Botafogo em 1954.[1]

A briga começou quando um atacante fez uma entrada violenta sobre o goleiro do time oposto. Logo, tanto os jogadores em campo como os reservas se envolveram no que pode ser comparado a uma batalha campal.

Uma questão de culpa

Até aí, poderíamos anotar isso como mais um exemplo triste de falta de espírito esportivo. No entanto, um dos jogadores que se envolveu agredindo outros em campo, ao ser entrevistado logo após, alegou: “Não queríamos ter terminado em briga, mas eu não podia deixar meus companheiros ali sozinhos…”. Um outro jogador concordou que foi errado, mas lançou a culpa sobre o árbitro, que não soube controlar a partida. Outros ainda alegaram motivos adicionais e poucos, se algum, assumiu sua culpa.

Paralelamente, lembro-me do final de uma partida em um esporte bem mais violento, no qual um jogador de futebol americano desferiu um tapa no capacete de um adversário após o término do jogo. O resultado é que, mesmo com o fim da temporada, este jogador foi penalizado em cerca de 20 mil dólares por sua atitude. Algum tempo depois, ele pediu desculpas publicamente e reconheceu que sua atitude foi infantil. Ele foi criticado por seu técnico e por vários outros do time. Sua punição final ainda não foi definida.

Uma questão de pecado

Ouvi alguns dizendo que o futebol latino-americano é mais “raiz” ou mais emoção, que jogador brasileiro tem mais “garra”. E isso tem me feito pensar: por que essa violência em eventos esportivos é tão comum em nosso país? O que, em nossos valores, dá embasamento para atitudes assim? O futebol americano é bem mais violento e a própria cultura norte-americana faz uma defesa clara de seu poderio bélico e do uso da força para resolver questões mundiais. No entanto, nós, brasileiros, teoricamente amantes da paz, temos violência dentro e fora dos campos.

Toda cultura, tendo se desviado de Deus, justifica e defende pecados que são culturalmente “aceitáveis”.

Não acredito que somos mais pecadores que outros povos. Acredito que toda cultura, tendo se desviado de Deus, justifica e defende pecados que são culturalmente “aceitáveis”. Apesar de apresentar uma aparência de cultura de paz, somos um país de violência extrema. Segundo dados da ACLED, somos o 7º país mais violento do mundo e o 3º mais violento da América Latina.[2] Nossa média de homicídios é três vezes maior que a média mundial. Temos inclusive um número maior de homicídios do que países com guerras declaradas, como Rússia e Ucrânia, por exemplo.

Refletindo sobre a violência

Deixe-me alistar algumas verdades fundamentais nesta reflexão sobre a violência, seja diante de organizações criminosas, na sociedade em geral, em eventos esportivos ou dentro das famílias:

  • Somos pecadores (Romanos 3.23), portanto não deve nos espantar que a nossa reação seja pecaminosa diante de determinadas circunstâncias. Caim demonstrou logo no início da humanidade que o homem tende à violência quando contrariado.
  • Como sociedade, rejeitamos a autoridade divina (1Samuel 8). Assim como Israel rejeitou a teocracia e pediu um rei “à semelhança das outras nações”, nós também escolhemos ser dirigidos por homens que dominam sobre nós com suas ideologias humanistas.
  • De modo geral, somos governados por pessoas que não temem a Deus em todas as instâncias (Provérbios 29.2), por isso não deveria nos surpreender que nosso povo, igualmente corrupto, sofra com aspectos caóticos.
  • Impunidade (Provérbios 17.15). Como sociedade, temos inocentado o culpado ao longo dos anos. Seja por ideologia – que alega que o homem é vítima da sociedade –, seja por corporativismo – em que defendo os que me são mais próximos –, o fato é que não somos um povo que exerce justiça.

Qual é a solução? Vamos nos armar e nos preparar para a violência? Certamente é nosso papel nos defendermos e às nossas famílias. No entanto, Jesus nos confronta quando afirma: “Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão” (Mateus 26.52).

Ao mesmo tempo, vemos repetidas vezes a promessa de que Deus é nosso refúgio (Salmos 18.2; 46.1; 91.2; etc.). Isso não significa um pacifismo ingênuo, mas sim uma confiança determinada no agir e na proteção de nosso Deus. Ele é nosso refúgio em última análise. Ele é nosso defensor e protetor. É Jesus quem nos ensina a dar a outra face.

Isso não significa um pacifismo ingênuo, mas sim uma confiança determinada no agir e na proteção de nosso Deus.

Este tema é muito amplo e de implicações tremendas. O triste espetáculo na final do campeonato apenas nos alerta de que somos uma humanidade caída em desesperada necessidade de um Salvador.

Oro para que, em sua misericórdia, Deus nos livre da violência, mas, caso ele entenda que de alguma forma sofrermos violência contribui para seu plano, oro por graça para reagirmos como nosso Senhor reagiu.

Notas

  1. Roberto Maleson, “Briga em Cruzeiro x Atlético-MG tem recorde de expulsões no Brasil, mas fica atrás de marca mundial”, Globo, 9 mar. 2026. Disponível em: https://ge.globo.com/mg/futebol/noticia/2026/03/09/briga-em-cruzeiro-x-atletico-mg-tem-recorde-de-expulsoes-no-brasil-mas-fica-atras-de-marca-mundial.ghtml.
  2. Equipe do UOL, “Brasil entra no top 10 dos países mais perigosos do mundo; veja a lista”, UOL, 12 dez. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2025/12/12/brasil-supera-zonas-de-guerra-e-entra-no-top-10-da-violencia-global.htm.

Autor

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

    Ver todos os posts

Produtos relacionados

de R$ 49,90 por R$ 39,90

Artigos relacionados

O apóstolo Pedro nos fornece pelo menos quatro conselhos para que consigamos resistir às tentações do Diabo. Saiba quais são...