Cansado da Sua Igreja?

Diante do atual cenário da igreja em nossa sociedade, o fenômeno dos desigrejados é cada vez mais normal. Contudo, como devemos enxergar a igreja a fim de que isso não se torne a nova realidade?

Mais um conhecido líder e autor evangélico confessa uma vida dupla.

No Brasil, é apresentada uma lista de igrejas e pastores suspeitos de envolvimento em fraudes milionárias no INSS. Um destes líderes abriu em 2025 um banco digital, declarando-a como a “primeira instituição financeira cristã”.

Políticos de ambos os lados organizam eventos e fazem discursos acolhendo eleitores evangélicos.

Sem sombra de dúvida, a igreja evangélica está perdendo mais e mais sua credibilidade como instituição.

Uma triste consequência

Parcialmente em resposta à realidade acima, temos visto um nítido crescimento no grupo dos cristãos “desigrejados”. O censo do IBGE de 2022 aponta para cerca de 8% da população brasileira que se identifica como desigrejado.

São pessoas que ainda afirmam uma fé cristã e declaram que desejam uma relação significativa com Deus, mas abandonaram todas as instituições. As razões apresentadas são várias:

  • Decepções pessoais com líderes e decisões;
  • Críticas às estruturas e políticas internas;
  • Individualismo;
  • Desgaste diante do debate político-partidário;
  • Facilidade do acesso virtual a conteúdos cristãos.

Não resta dúvida que a institucionalização da fé eventualmente se torna um problema. Qualquer grupo cristão começa de forma orgânica; no entanto, para poder continuar, começam a surgir acordos que se transformam em costumes e finalmente em regras. Com o tempo, tais regras se tornam tão rígidas que o caráter orgânico e relacional de uma comunidade corre o sério risco de ser sufocado.

Com a forte ênfase no individualismo e no que chamamos de modernidade líquida, há uma mentalidade de consumismo atual no Ocidente. Sendo assim, quando uma comunidade, igreja ou clube deixa de me servir, eu simplesmente mudo de comunidade. É como se igrejas fossem restaurantes em uma praça de alimentação: se não gosto de um, vou comprar em outro!

Uma perspectiva solucionadora

Estou estudando nestes últimos meses para escrever um livro que Deus tem colocado em meu coração. O tema é sobre a igreja como família de Deus. Estou impressionado como essa verdade é evidente nas Escrituras e no pensamento teológico da igreja primitiva – ao mesmo tempo que é secundária no pensamento evangélico moderno.

Comecemos pensando na resposta de Jesus ao chamado de sua mãe e irmãos, encontrada em Mateus 12.46-50:

“‘Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?’, perguntou ele. E, estendendo a mão para os discípulos, disse: ‘Aqui estão minha mãe e meus irmãos! Pois quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe’.”

Vemos o mesmo conceito de igreja como família de Deus quando Pedro declara que deixaram tudo para seguir a Jesus e o Mestre responde:

“Respondeu Jesus: ‘Digo-lhes a verdade: Ninguém que tenha deixado casa, mulher, irmãos, pai ou filhos por causa do Reino de Deus deixará de receber, na presente era, muitas vezes mais, e, na era futura, a vida eterna’.” (Lucas 18.29-30)

Paulo é quem mais desenvolve a revelação de Deus sobre a igreja. Entre muitos outros textos, deixe-me destacar Efésios 2.19: “Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus”. A evidência de que seguir a Jesus é uma jornada comunitária está costurada em praticamente todos os livros do Novo Testamento.

A evidência de que seguir a Jesus é uma jornada comunitária está costurada em praticamente todos os livros do Novo Testamento.

Quanto a pensadores teológicos, deixe-me destacar apenas dois. Primeiramente, Cipriano de Cartago, bispo de Cartago no século 3, que foi morto na perseguição promovida por Roma. Ele escreveu em 250 d.C.: “Antes de tudo, o Mestre da paz e da unidade não desejava que a oração fosse oferecida individualmente e em particular, como se cada um orasse apenas por si mesmo. Não dizemos: ‘Meu Pai, que estás nos céus’, nem ‘Dá-me hoje o meu pão’, nem cada um pede apenas que sua dívida seja perdoada, que não seja levado à tentação e que seja livrado do mal por si só. Nossa oração é pública e comum, e quando oramos, não oramos por um só, mas por todo o povo, porque nós, todo o povo, somos um”.

Outro teólogo cristão de quem ouvimos um discurso semelhante é Dietrich Bonhoeffer: “Aqueles que amam o sonho que têm de uma comunidade cristã mais do que amam a própria comunidade cristã tornam-se destruidores dessa comunidade”.

Reparem que estes dois pensadores não estão afirmando que nossas comunidades são perfeitas, o que seria uma hipocrisia tremenda.

O que estão destacando é que a igreja visível é imperfeita, posto que formada por homens. No entanto, ela é a expressão visível da igreja real por quem Jesus morreu. Não temos outra.

Logo, minha oração é que aprendamos a conviver com a igreja que temos em direção à igreja que queremos.

Autor

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

    Ver todos os posts

Artigos relacionados