Há uma relação entre o casamento e o reino de Deus? E como viver de acordo com a justiça do reino pode impactar o relacionamento com nossos cônjuges?
Assim como eu, você talvez já tenha ouvido o casamento ser descrito por cristãos como a maior bênção após a conversão, o que condena aqueles fiéis que permanecem solteiros e íntegros a uma vida de serviço e santidade como “cristãos de segunda classe”.
Por outro lado, também já ouvi o casamento – como o conhecemos – ser descrito por pessoas que se dizem cristãs como uma instituição que visa oprimir e controlar mulheres.
Como tantas outras análises, tudo depende do seu “ponto de vista”, ou seja, sob qual lente ou ótica você analisa algo. Em uma perspectiva bíblico-cristã, o casamento foi criado por Deus para a glória dele. O conhecido autor e professor cristão David Merkh descreve assim:
Existem pelo menos três propósitos específicos em Gênesis 1.26-28 voltados não somente para a humanidade, mas para a família também: refletir a imagem de Deus, reproduzir a imagem de Deus e representar a imagem de Deus.[1]
O casamento e o reino
Recentemente fui convidado para falar em um encontro de casais no qual a proposta central era analisar o casamento sob a ótica do reino de Deus. Meu entendimento a respeito do reino de Deus é que este está próximo, mas ainda não plenamente implantado.
Por um lado, Deus tem toda a autoridade sobre a terra (Salmos 24.1); por outro, o mundo jaz no Maligno, pois nossos antepassados Adão e Eva entregaram a mordomia que lhes foi confiada (1João 5.19). A pregação de João Batista, e mesmo a de Jesus no início de seu ministério, era: “Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo” (Mateus 4.17). Nesta perspectiva, o reino é uma realidade experimentada por aqueles que seguem a Jesus, ainda que não em sua plenitude.
O reino é uma realidade experimentada por aqueles que seguem a Jesus, ainda que não em sua plenitude.
Assim, busquei olhar o casamento a partir dessa ótica e o versículo que me orientou foi justamente Romanos 14.17: “Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo”. Em um contexto em que o apóstolo Paulo estava ajudando uma igreja dividida a lidar com suas opiniões diferentes, ele aponta para a essência do reino. Reino não trata de coisas externas, não se trata de religiosidade e rituais, não se trata nem sequer de moralismo, mas de uma relação de submissão ao Rei (Mateus 6.9-13).
O casamento e a justiça
Dentre as três características descritas, a primeira é justiça. De que forma um casamento pode ser orientado pela justiça do reino de Deus? Em primeiro lugar, é óbvio que precisamos de uma definição do que é a justiça do reino. Neste breve texto, gostaria de propor que justiça do reino se refere à ação salvífica e santificadora de Deus que restaura nossa comunhão com ele. Sendo assim, um casamento visto sob a ótica da justiça do reino destaca justamente a graça e a transformação dentro do próprio casamento.

Para começar a compreender a justiça do reino, vamos examinar a graça. Para tanto, há três verdades fundamentais que precisamos tocar:
Primeira, ruptura, pois todos pecaram e estão separados de Deus (Romanos 3.23). Essa verdade destaca que ambos em um casamento são pecadores, e tal condição faz com que ambos estejam separados de Deus e também um do outro. Enquanto um casal não assume essa condição, o casamento será sempre uma disputa onde um lado se julga certo e o outro, errado.
Somente diante do perdão podemos ter paz com Deus e, por implicação, somente por meio do perdão podemos ter paz em um casamento.
Segunda, perdão. Devido à nossa condição de ruptura com Deus, precisamos de perdão para voltarmos à comunhão com Deus (Romanos 3.24). O perdão restaura nossa comunhão com Deus e é elemento fundamental em um casamento. Assim como na oração ensinada por Jesus (Mateus 6.9-13), também no casamento precisamos estar dispostos a perdoar como fomos perdoados. Um casamento sem perdão tem poucas chances de sobreviver.
Terceira, reconciliação. Devido ao perdão podemos ter nossa relação com Deusa restaurada (Romanos 5.1). Não há reconciliação sem perdão, pois nosso pecado faz separação entre nós e Deus. Somente diante do perdão podemos ter paz com Deus e, por implicação, somente por meio do perdão podemos ter paz em um casamento. Quando o casamento cultiva um ambiente em que (1) ambos reconhecem sua falibilidade e (2) ambos concedem livremente o perdão, é possível haver (3) a possibilidade de uma reconciliação contínua.
Se você é casado, reflita em como a graça de Deus tem influenciado o seu casamento. Minha oração é que, por meio de um ambiente de graça, nossos casamentos e famílias reflitam a imagem de Deus em nós, aproximando dele todos os que vierem a nos conhecer.
Nota
- David Merkh, Comentário Bíblico Lar, Família e Casamento: Fundamentos, Desafios e Estudo Bíblico Teológico Prático para Líderes, Conselheiros e Casais (São Paulo: Hagnos, 2019), p. 30.
Autor
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Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.
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