Romanos 12.18 nos exorta a vivermos em paz com todos. Como isso é possível? Quais são algumas das ações que devemos tomar para amarmos o nosso “mundo”?
Fique recentemente um mês com minha esposa na Tailândia, a fim de visitar nossa filha e família. Foram dias de muito tempo investido nos netos, na filha e no genro. Viajamos, visitamos locais lindos e aproveitamos praias incríveis.
Sou muito grato por esse tempo e por conhecer, ainda que superficialmente, este país. Digo superficialmente, pois há muito que não conheci ou entendi. Vi muita coisa e me surpreendi com aspectos como segurança, respeito e gentileza, mas não posso dizer que compreendo a cultura tailandesa.
Nesses dias, meu “mundo” resumiu-se à minha família e a alguns amigos da igreja que eles frequentam. A grande maioria dos tailandeses não fala inglês – e certamente nenhum que eu encontrei falava português. Com essa limitação de idiomas, toda vez que eu precisava interagir de alguma forma com os tailandeses, nossa comunicação se resumia a poucas palavras em inglês, gestos e, quando disponível, o Google Tradutor.
Os significados e níveis de “mundo”
Na Bíblia, a palavra “mundo” é usada de formas diferentes. Existe o “mundo” como criação de Deus (Salmos 19.4), existe o “mundo” como sistema maligno que governa o coração daqueles que se rebelam contra Deus (Tiago 4.4) e há, por fim, o “mundo” como pessoas amadas por Deus (João 3.16).
Quando falamos do “mundo” como pessoas, ainda podemos pensar em pessoas que conhecemos pelo nome, por quem temos afeto e que, de alguma forma, são parte integral de nossas vidas.
Existe também um segundo nível de relacionamento com pessoas. São aquelas com quem mantemos contato regular, mas sem, necessariamente, haver compromisso de afeto. São colegas de trabalho, clientes, pessoas que nos prestam serviços – aquelas, enfim, que fazem parte do nosso dia apenas em função de tarefas e atividades compartilhadas.
Existem, finalmente, as pessoas “paisagem”. Estas são pessoas que percebemos como seres humanos e, por isso, intrinsecamente valiosos (Tiago 3.9). No entanto, são pessoas com quem não temos mais do que um contato circunstancial, seja um frentista de posto de gasolina, alguém que vemos andando na rua, alguém com quem cruzamos em um corredor no shopping ou até mesmo pessoas que vemos em algum noticiário.

Vivendo em paz com o “mundo”
Pensando nisso e em minha experiência na Tailândia, parei para refletir sobre as palavras de Paulo em Romanos 12.18: “No que depender de vocês, vivam em paz com todos”. Gosto muito da forma como esse texto expressa a exortação.
Primeiramente, Paulo deixa claro que nem tudo depende de nós. Infelizmente, há momentos em que viver em paz não depende somente do nosso esforço. Existem situações em que, mesmo após muito trabalho de nossa parte, o outro decide não nos perdoar ou não viver em paz conosco. Não podemos obrigar ninguém a viver em paz conosco, mas podemos nos comprometer a buscar a paz com todos os nossos recursos e em todas as nossas atitudes.
A segunda informação preciosa é justamente o fato de que nosso objetivo deve ser viver em paz com todos. Nesse caso, é óbvio que “todos” são aqueles que fazem parte do nosso “mundo”. Posso dizer que vivi em paz com os tailandeses com quem tive contato; no entanto, meu contato foi tão superficial que viver em paz com eles era fácil e natural. Não é difícil viver em paz com pessoas “paisagem”.
Viver em paz com pessoas com quem temos contatos regulares pode ser bem mais desafiador. No entanto, esse é o nosso chamado.
Viver em paz com pessoas com quem temos contatos regulares pode ser bem mais desafiador. São aqueles colegas que passam a ter opiniões, atitudes e até comportamentos que podem se alinhar com os nossos ou serem diretamente opostos. Conviver com pessoas e, especialmente, viver em paz com elas pode ser muito difícil. No entanto, esse é o nosso chamado.
Penso aqui nas palavras de João em sua primeira epístola: “Anunciamos-lhes aquilo que nós mesmos vimos e ouvimos, para que tenham comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo” (1João 1.3). Repare que o propósito da nossa proclamação deve ser levar outros à comunhão que temos com Deus.
Isso nos conduz ao terceiro e mais íntimo nível de relacionamento. Trata-se de vivermos em paz com as pessoas com quem temos laços afetivos. São familiares, cônjuge e amigos. Aqui, é particularmente difícil viver em paz. A dificuldade se apresenta não apenas em opiniões e comportamentos, mas principalmente em expectativas frustradas. Afetos geram expectativas. Assim, criamos expectativas sobre como o outro vai se comportar, pensar e, especialmente, nos tratar. Fazemos isso com pessoas dentro e fora da igreja. Criamos, em nossa mente, um futuro idealizado e nos frustramos quando essas expectativas não são cumpridas.
Creio que, nesse contexto, a palavra de Romanos 12.18 se torna ainda mais relevante. A própria passagem de Romanos 12.9-21 nos traz várias sugestões de princípios que devem nortear nossa vida – se buscamos viver em paz. Permita-me listar rapidamente aqui algumas das exortações do texto:
- Amar sinceramente;
- Dedicar-se ao outro;
- Preferir o outro em honra;
- Compartilhar o que se tem;
- Abençoar;
- Chorar com os que choram;
- Não ser orgulhoso;
- Não retribuir o mal com o mal;
- Fazer o que é correto;
- Não se vingar.
Este é apenas um resumo das exortações da passagem. Minha oração é que, qualquer que seja o tamanho do nosso “mundo”, nós sejamos caracterizados por essas atitudes.
Autor
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Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.
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