Graça e Autodefesa

Como reagimos quando confrontados com um pecado cometido? E qual é a importância de reconhecermos nossas folhas para o processo gracioso de Deus para restaurar nossa comunhão com ele?

Tenho o privilégio de mentorear líderes ao longo dos últimos anos. Meu papel é procurar ajudar cada um a compreender qual é seu chamado, como está seu coração, qual a próxima etapa de vida e ministério e quais passos podem ser dados para se chegar até lá.

De forma geral, é muito encorajador ver um líder descobrindo para o que Deus o chamou, fazendo ajustes de curso e visualizando os próximos passos! No entanto, nem tudo é alegria. Por vezes, caminho com algum líder que está enfrentando uma fase difícil. Alguns estão passando por problemas pessoais, outros por tensões no ministério ou ainda na família. Nesses casos o privilégio é enorme, mas a tensão e a tristeza são igualmente maiores.

O quadro mais difícil nessas situações é quando a pessoa a quem busco ajudar não consegue identificar sua parcela de responsabilidade no problema. Recentemente, ao tentar ajudar um líder, relatei várias situações em que ele havia deixado pessoas desconfortáveis. Ele então passou a explicar cada uma das situações e alegar que, na verdade, em nenhuma delas ele tinha qualquer parcela de culpa. É bem possível que em várias situações ele não seja o único e talvez nem o principal culpado, mas em cada uma delas ele tinha sua responsabilidade em criar o conflito. Ele tem cedido e aceitado sua contribuição para os problemas nesse meio-tempo, mas era impossível ajudá-lo a crescer até que isso ocorresse.

O exemplo de Adão

A primeira coisa que me vem à mente ao me deparar com alguém que não enxerga sua própria culpa é a imagem mental que faço do evento em que Adão, após pecar, se esconde de Deus. Veja o relato bíblico em Gênesis 3.8-12:

Ouvindo o homem e sua mulher os passos do Senhor Deus que andava pelo jardim quando soprava a brisa do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim. Mas o Senhor Deus chamou o homem, perguntando: ‘Onde está você?’ E ele respondeu: ‘Ouvi teus passos no jardim e fiquei com medo, porque estava nu; por isso me escondi’. E Deus perguntou: ‘Quem lhe disse que você estava nu? Você comeu do fruto da árvore da qual lhe proibi comer?’ Disse o homem: ‘Foi a mulher que me deste por companheira que me deu do fruto da árvore, e eu comi’.”

A primeira reação de Adão diante de Deus é se esconder.

Esconder-se de Deus? O que passou pela sua cabeça? Será que ele pensou: “Quem sabe o Todo-poderoso, que fez os céus e a terra, que me criou do pó da terra, não me encontrará e assim não terei de enfrentar a minha culpa…”.

Quando se dá conta de que não consegue se esconder, ele transfere a culpa para outro. “Sim, eu pequei, mas a culpa foi de Eva e, indiretamente, do Senhor, pois me deu uma esposa pecadora…”. A cena seria engraçada se não fosse trágica e comum a todos os seres humanos. Na verdade, você e eu temos a mesma tendência. Quando nos damos conta de nossa culpa, nossa primeira reação costuma ser a de se esconder, depois de transferir a culpa.

A graça de Deus

O triste dessa cena é que não temos acesso à graça de Deus enquanto não assumimos nossa culpa. A graça só pode ser acessada por aqueles que admitem sua culpa. É por isso que Jesus nos ensina em Lucas 9.23-24: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa, este a salvará”. O ato de tomar a cruz significa carregar publicamente seu atestado de culpa. É assumir diante de todos que você é culpado e por isso mesmo precisa do perdão do Salvador. Infelizmente, aqueles que se mantém na defensiva, não negam a si mesmos e não tomam a sua própria cruz não podem seguir o Mestre.

Aquele que oculta sua culpa fica no pior dos mundos. Por um lado, não sofre as acusações e não consegue apagar essa mancha em sua reputação; por outro, perde a comunhão com o Senhor juntamente com o consolo que a acompanha.

Minha oração, meu irmão ou irmã, é que tanto você como eu sigamos o exemplo de Davi, que, ao ser confrontado pelo profeta Natã devido ao seu pecado de adultério e assassinato, respondeu imediatamente: “Então Davi disse a Natã: ‘Pequei contra o Senhor!’” (2Samuel 12.13).

Autor

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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