Gramática das Disciplinas Espirituais: Incorporação

Esta série apresenta cinco termos que caracterizam a vida devocional demonstrada ou recomendada na Bíblia. O terceiro é “incorporação”.

Uma das ameaças mais perniciosas nos primeiros dias do cristianismo ortodoxo era a heresia do docetismo. O nome dessa heresia em particular vem da palavra grega dokeo, que significa “aparentar”. Os docetistas insistiam que Jesus só aparentava ter um corpo. Do ponto de vista deles, a divindade de Jesus tornava impossível a ele ter um corpo de carne e sangue. Ser encarnado era uma imperfeição, uma limitação, uma fraqueza que significaria que ele poderia sofrer. Certamente o divino não poderia ter um corpo, não poderia realmente habitar entre nós na carne, não poderia de fato sofrer conosco e em nosso lugar.

O docetismo foi explicitamente rejeitado no Concílio de Niceia no ano 325. Desde então, essa doutrina é considerada como estando fora dos limites da ortodoxia cristã. Hoje em dia, a forma histórica do docetismo não parece representar uma grande ameaça ao cristianismo. Porém, estou começando a pensar se não estamos correndo o risco de enfrentar um tipo diferente de docetismo na igreja de hoje, uma espiritualidade docética na qual nós seres humanos apenas parecemos ter um corpo. Em outras palavras, será que estamos desenvolvendo modos de pensar a respeito da vida espiritual e das formas de vida no mundo que tornam o nosso corpo algo meramente acessório?

Meu escritório no seminário fica na esquina das ruas Live Oak e St. Joseph, praticamente no centro de Dallas. Todos os dias, quando pego o carro para voltar para casa, sigo para oeste pela rua Live Oak, em direção ao coração da cidade. Alguns meses atrás, um novo marco na paisagem urbana interrompeu a monotonia da minha viagem diária. Um dos altos prédios no centro tinha sido transformado em outdoor. A fachada cinzenta sem graça tinha sido coberta por um anúncio gigantesco.

Estamos desenvolvendo modos de pensar a respeito da vida espiritual e das formas de vida no mundo que tornam o nosso corpo algo meramente acessório?

O tamanho e o destaque dele no contorno dos prédios naturalmente chamaram minha atenção. Mas fiquei ainda mais impactado por sua mensagem. Em enormes letras vermelhas centralizadas no espaço publicitário, lia-se a mensagem “proximidade não tem nada que ver com distância”. A declaração estava cercada por imagens de celulares. Era um anúncio publicitário colossal da Blackberry, declarando as boas novas de que, graças à tecnologia, a proximidade física agora se tornara irrelevante nos relacionamentos pessoais. Com uma tecnologia tão eficaz, nosso corpo realmente não importa mais.

Continuando meu caminho, fiquei pensando sobre o evangelho segundo Blackberry. Meus pensamentos voltaram para uma conversa que tinha tido com uma amiga poucas semanas antes. Ela havia passado pela dor de perder o pai, mas as lágrimas nos olhos dela naquela ocasião não eram por causa do seu luto pela morte. Ela estava sofrendo por causa da dolorosa ficção de que “proximidade não tem nada que ver com distância”. Secando a lágrima que corria pelo rosto, ela me disse: “Recebi mensagens lindas por e-mail, e recados lindos por Facebook, e áudios lindos por correio de voz, e palavras lindas por mensagem de texto. Mas ninguém apareceu simplesmente para se sentar ao meu lado e chorar comigo”. Ao refletir sobre essa conversa, percebi que, apesar das proclamações evangelísticas contrárias da tecnologia moderna, a tecnologia nunca poderá substituir plenamente o poder da presença. O corpo importa.

Não estamos apenas esperando ser libertos do nosso corpo, mas esperamos pela ressurreição do nosso corpo e pela renovação de toda a criação.

No primeiro capítulo, sugeri que a espiritualidade cristã aceita o corpo. Nosso corpo é um aspecto crucial da nossa humanidade. Ele é parte da boa criação de Deus. Carregamos a imagem e semelhança de Deus no mundo como criaturas com corpo. E nossa esperança como cristãos é uma esperança que tem corpo. Não estamos apenas esperando ser libertos do nosso corpo, mas esperamos pela ressurreição do nosso corpo e pela renovação de toda a criação. Do jardim à cidade, o nosso corpo tem importância. E, entre o jardim e a cidade, encontramos a vida espiritual do povo de Deus – tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos – moldada por sua participação em práticas palpáveis. O que fazemos com nosso corpo importa para nossa alma. Posturas físicas como ficar em pé, ajoelhar-se e curvar-se não são arbitrárias. Rituais físicos como jejuar e cear são parte regular da formação do povo de Deus. É verdade que a Bíblia enfatiza a disposição interior do coração quando se trata da “prática da justiça” (veja Mateus 6.1-18), mas isso não anula a importância do nosso corpo.

Habitar com Deus

por Barry D. Jones

Neste livro, o pastor Barry Jones compartilha sua visão de uma espiritualidade cristã autêntica, que transforma a forma como vivemos no contexto específico no qual Deus nos inseriu.

Ter uma espiritualidade profundamente influenciada pela lógica da encarnação significa tratar nosso corpo com a mesma seriedade que dedicamos à nossa alma. James K. A. Smith foi muito perceptivo ao escrever:

Levar a encarnação a sério significa levar o corpo a sério, o que significa aceitar o espaço que ele ocupa como uma arena de revelação e graça. A imaginação sacramental começa pelo pressuposto de que o nosso discipulado não depende apenas – nem mesmo primariamente – da transmissão de ideias à nossa mente, mas da nossa imersão em práticas e rituais encarnados que fazem de nós o tipo de pessoa que Deus nos chamou a ser. […] Para nós, criaturas encarnadas, quer antigas, quer pós-modernas, os ritmos de rituais e liturgias são práticas graciosas que permitem o discipulado e a formação.[1]

Nosso corpo não é um acessório quando se trata de espiritualidade cristã. Ter um corpo é a essência do que significa ser humano. O que fazemos com nosso corpo importa à nossa alma.

Nota

  1. James K. A. Smith, Who’s Afraid of Postmodernism: Taking Derrida, Lyotard, and Foucault to Church (Grand Rapids: Baker Academic, 2006), p. 140.

Este artigo foi extraído e adaptado do livro Habitar com Deus: Um testemunho para o mundo, escrito por Barry D. Jones.

Autor

  • Barry D. Jones (Ph.D., Wheaton College) atualmente serve como pastor sênior da Irving Bible Church, no Texas (EUA). Além disso, passou três anos como professor no programa de formação espiritual do Dallas Theological Seminary. Suas paixões são ensinar as Escrituras, fazer discípulos e treinar futuros líderes que estejam profundamente enraizados em sua fé e vitalmente engajados no mundo ao seu redor. Casado com Kim, tem três filhos.

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