Idolatria: Evidente ou Sutil

A idolatria pode ser evidente ou sutil, dependendo da cultura e do contexto. Contudo, a Bíblia afirma que o ser humano é idólatra.

Gostaria de, mais uma vez, escrever sobre a experiência que minha esposa e eu tivemos durante nossa estadia na Tailândia. 

Em um dos passeios que fizemos, fomos até a ilha de Ko Samet. A ilha é um parque nacional e intensamente explorada pelo turismo devido às suas praias belíssimas. Já tínhamos visto fotos e a expectativa era grande de experimentarmos as belezas do local. 

Para chegar lá, tivemos de fazer uma travessia de 40 minutos em uma balsa. Tudo era novidade e a vista era impressionante, a começar pela transparência impressionante da água.

Logo ao chegarmos no cais, no entanto, em meio a toda a beleza, fui surpreendido por uma imagem de mais de dez metros de um ser que parecia com uma sereia, mas tinha um rosto assustador. Não só seu semblante era de raiva, mas tinha presas que saíam de sua boca. Pelo que entendi, trata-se de Phisuea Samut, uma ogra do mar, personagem de um poema mitológico tailandês que se apaixona por um príncipe, o herói da história. Transformando-se em uma linda mulher, ela seduz o herói e se casa com ele. Na história, ele finalmente descobre quem ela é e foge da ilha.

Embora seja uma referência literária, exemplifica a presença de mitos e seres mágicos na cultura e também da profusão de ídolos e estátuas. Praticamente todo local (comércio, escolas, instituições e mesmo lares) tem um espaço dedicado aos espíritos locais. Nestes são colocadas oferendas e dádivas para agradar os espíritos e manter a harmonia – e, claro, em muitos casos tal gesto é visto mais como uma questão de respeito e tradição, não adoração.

Todo cristão minimamente instruído já foi alertado do pecado da idolatria. Conhecemos o texto de Êxodo 20.3-5:

“Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor, o teu Deus, sou Deus zeloso, que castigo os filhos pelos pecados dos pais até a terceira e quarta geração daqueles que me desprezam, mas trato com bondade até mil gerações aos que me amam e obedecem meus mandamentos.”

Achei muito fácil ver esses símbolos como uma forma de idolatria. As estátuas, as oferendas, o incenso e as dádivas geraram um certo incômodo em mim. A idolatria evidente é muito fácil de identificar e denunciar.

No entanto, logo fui levado a refletir o quanto isso também ocorre em nosso país. Não só nos cultos e sacrifícios oferecidos em tantas esquinas de nossas cidades, mas de forma mais sutil, mas não menos importante, no coração de nosso povo. Somos um povo idólatra tanto na prática como no coração. De forma mais profunda, todo ser humano é idólatra.

O famoso teólogo João Calvino escreveu “O coração humano e uma fábrica de ídolos”. É provável que ele tenha escrito isso usando como referência a passagem de Romanos 1.22-23: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis”.

Quando o homem rejeita o Deus verdadeiro, fatalmente cairá na idolatria.

Quando o homem rejeita o Deus verdadeiro, revelado pela criação (Romanos 1.19-21), fatalmente cairá na idolatria. Como somos essencialmente idólatras, vamos transformar algo em nosso deus. E o pior é que será um deus à nossa imagem e semelhança. Em outras palavras, uma vez que o homem rejeita a Deus, ele cria um deus que concorde com ele e com suas preferências.

Na Tailândia vimos sinais muito evidentes desta idolatria. No Brasil, mesmo que a idolatria não seja tão evidente, basta olhar um pouco abaixo da superfície para identificar o quanto as pessoas substituem o verdadeiro Deus por dinheiro, poder, popularidade, fama, sensualidade, prazer e assim por diante.

Minha oração é que, seja diante da grotesca imagem de Phisuea Samut, seja diante de oferendas nas esquinas de nossas cidades, ou seja diante dos desvios morais tão evidentes em nossa cultura, nosso coração sinta um incômodo que o leve a glorificar a Deus tanto em palavras como em ações.

Autor

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

    Ver todos os posts

Artigos relacionados

Os líderes políticos de nosso tempo estão quase sempre envolvidos em esquemas de corrupção. Como um cristão lida com esse...

Analisando Romanos 1.7, podemos aprender três características dos cristãos: eles foram amados, chamados e santificados. Acho interessante como a nossa...