Qual é a natureza e o propósito da igreja local? Como Efésios 4.16 pode nos ajudar a entender melhor a forma pela qual deve haver crescimento no corpo de Cristo diante do fracasso atual de muitos modelos modernos?
Pode ser uma catedral com vitrais e órgão de tubo. Pode ser uma pequena igreja em uma garagem com cadeiras de plástico. Pode ser um grupo que se encontra secretamente em algum país onde a fé cristã é perseguida.
O que é uma igreja local?
Ao longo dos anos, tenho usado a seguinte definição elaborada pelo dr. Scott Horrell: “Igreja Local é composta de crentes batizados que professam Jesus Cristo, praticam a ceia do Senhor e que se organizam para fazer a vontade de Deus”.[1]
Muito pode ser – e tem sido – discutido sobre o conceito de igreja local. Há aqueles que questionam se o modelo de uma igreja local é bíblico, até aqueles que discordam da necessidade de uma definição precisa.
O fracasso de modelos recentes
Ao longo das últimas décadas, no entanto, temos assistido com tristeza o surgimento de modelos de igrejas que tiveram resultados catastróficos. Estou me referindo especialmente ao modelo das megaigrejas.
Modelos populares como Willow Creek, Saddleback Church ou Hillsong são apenas três exemplos de projetos que alcançaram números impressionantes, mas têm sofrido efeitos de desvios profundos e debilitantes.
Parece haver um consenso entre estudiosos de que cada uma delas passou por um crescente culto à personalidade de seu pastor ou pastores mais proeminentes, uma diluição da pregação (para tornar a mensagem mais aceitável ao homem moderno) e uma mudança na própria essência da igreja – de uma comunidade de fé para um projeto ou empreendimento religioso. Uma análise dos escândalos e declínios dessas igrejas ultrapassam o propósito desta coluna.

A natureza e o propósito da igreja
No entanto, creio que podemos ser edificados ao examinarmos o que a Bíblia aponta como a natureza e o propósito da igreja no Novo Testamento. Anteriormente, já escrevi uma série de artigos na revista da Chamada, com o nome “Cinco Marcas de uma Igreja Cristocêntrica”. Hoje, gostaria de examinar apenas um versículo: “De quem todo o corpo, bem-ajustado e consolidado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio crescimento para a edificação de si mesmo em amor” (Efésios 4.16).
Esse trecho está inserido naquela que é talvez a principal passagem sobre a igreja nos escritos de Paulo. Vamos analisá-lo agora buscando destacar aqueles indícios fundamentais que trazem ao conceito da igreja local sua identidade:
- “De quem (Cristo) todo o corpo.” A imagem usada destaca que não somos um exército (imagem muito comum naquela época) com hierarquia e funções rígidas. Outro ponto fundamental é que o corpo é de Cristo, portanto ele é quem deve capacitar, dirigir e orientar esse corpo.
- “Bem ajustado e unido por todas as juntas.” Destaca não apenas o conceito de que há um “encaixe” entre os membros, mas que estes estão unidos. E o meio pelo qual isso acontece é pelas juntas. “Juntas” não são os membros em um corpo, mas aquilo que os une. No caso da igreja, isso significa os relacionamentos. Nosso entrosamento e união não é algo em massa, mas fruto dos relacionamentos que temos.
- “Segundo a justa cooperação de cada parte.” Cada parte (membros) da igreja tem um papel a desempenhar. Em megaigrejas, é comum que apenas os líderes pagos tenham um papel, enquanto os membros atuam mais como voluntários ou mão de obra.
- “Efetua o seu próprio crescimento para a edificação de si mesmo em amor.” O propósito dessa estrutura orgânica é que o próprio corpo, não membros contratados, cause a edificação do corpo em amor. Uma vez mais, é o aspecto comunitário, não organizacional, que gera esse crescimento em amor. O amor não pode ser um programa ou sistema; ele precisa necessariamente fluir entre as pessoas.
Conclusão
É óbvio que muita coisa boa ocorreu e ainda ocorre em grandes igrejas. Ninguém pode dizer que megaigrejas são contrárias ao mandato bíblico. Ao mesmo tempo, igrejas menores não são por si só mais virtuosas. Números não indicam fidelidade ou sequer fidelidade espiritual. O que toda igreja deve se perguntar é se estão conseguindo promover uma vida em família, uma vida comunitária. Oro para que essas questões estejam em seu coração e no coração da liderança de sua igreja.
Nota
- J. Scott Horrell, A Essência da Igreja: fundamentos do Novo Testamento para a Igreja Contemporânea (São Paulo: Hagnos, 2006).
Autor
-
Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.
Ver todos os posts