Como devemos entender as afirmações de Cristo sobre ter cumprido a Lei? Isso significa que ele as tornou supérfluas? Ou que ele as reinterpretou? Este artigo traz uma resposta diferente.
Um Jesus fiel à Torá?
Para muitos cristãos, a ideia de um Jesus que observa as leis judaicas ainda é muito incomum. Durante muito tempo, parecia óbvio, na mente deles e naturalmente também na pesquisa bíblica, que superar a Lei era uma parte importante da mensagem de Jesus.
Muitas biografias de Jesus transformam isso até no ponto central de seu ministério, que lança sombra sobre todo o resto, como as curas, os milagres, os ensinos e até sua morte na cruz e ressurreição.
Tanto para os teólogos iluministas quanto para os pós-modernos, esse é um traço muito bem-vindo em Jesus; afinal, não requer fé no sobrenatural ou em Deus. Era mais fácil tomar como exemplo um Jesus reformador e revolucionário do que um Jesus Messias ou Filho de Deus. A mensagem de que Jesus veio para nos libertar dos sistemas religiosos restritivos e das normas sociais era muito mais atraente para muitas pessoas do que a mensagem de que Jesus veio para dar sua vida pelos pecados do mundo.

Em tempos mais recentes, porém, esse quadro está mudando novamente, ao menos na crítica bíblica. Cada vez mais pesquisadores descobrem que, se lermos os textos do Novo Testamento de forma mais sóbria – e olharmos de modo mais atento para o ambiente judaico em torno de Jesus – resta pouco espaço para dúvidas.
A mensagem de que Jesus veio para nos libertar dos sistemas religiosos restritivos e das normas sociais era muito mais atraente para muitas pessoas do que a mensagem de que Jesus veio para dar sua vida pelos pecados do mundo.
Jesus não buscava transgredir, anular ou alterar a lei judaica. Não há relatos em que ele faça ou ensine isso. Sim, ele divergia de outros mestres de sua época na interpretação de questões específicas. Entre elas, por exemplo, se era permitido carregar uma cama no sábado ou se era necessário lavar as mãos antes de comer. Contudo, as leis judaicas naquela época de qualquer forma não estavam consolidadas. A Mishná ainda não havia sido redigida, as leis ainda não eram padronizadas. Dessa forma, é natural que houvesse discussões entre os mestres a respeito de questões específicas de interpretação. Jesus participou desses debates. Penso que ele não desejava que, por isso, seus seguidores fariam dele o protótipo do transgressor da Lei.
Portanto, está na hora de permitir que o judeu Jesus volte a ser o que sempre foi segundo tudo o que sabemos hoje: um judeu fiel à Torá.
Cumprindo a Lei
Diante de todo esse cenário, então, o que significa que Jesus veio para “cumprir a Lei”? A resposta judaica também seria direta nesse ponto: uma lei é cumprida quando é praticada.
É nessa simplicidade que também Paulo, aliás, usa a palavra (Romanos 13.8; de forma bem semelhante, tb. Gálatas 6.2). Assim, “cumprir” não significa nem “tornar supérflua”, nem “reinterpretar”. Antes, significa simplesmente “seguir”.
Jesus, o judeu, e os equívocos dos cristãos
Este livro leva o leitor a uma viagem pelo contexto judaico da vida e do ministério de Jesus, na qual muitas interpretações populares, espalhadas até mesmo nos púlpitos das igrejas, serão corrigidas, para que haja uma compreensão melhor do judeu Jesus.
Por outro lado, seria reducionista demais aplicar a palavra de Jesus apenas à sua fidelidade à Lei. Com certeza há outros significados por trás disso. O sentido mais profundo da expressão só se mostra quando substituímos o termo português “lei” pela palavra hebraica “Torá”. Afinal, essa palavra designa não somente as leis em si, mas todos os primeiros cinco livros da Bíblia, escritos por Moisés, que não contêm apenas leis, mas também relatos históricos, poesia e anúncios proféticos.
No Novo Testamento, aliás, o termo Torá às vezes se refere até mesmo à Escritura completa, isto é, ao Pentateuco, aos Livros Proféticos e aos demais Escritos. Jesus diz até mesmo, de forma expressa, que quer cumprir “a Lei [e] os Profetas” (Mateus 5.17). Mas como cumprir os Profetas? Como cumprir as promessas que aparecem também na Lei?
O foco está muito mais no cumprimento das promessas que Deus deu ao povo na Torá: que ele mesmo, Deus, um dia restabeleceria a ordem correta no mundo.
Aqui está a chave para uma compreensão mais profunda dessa frase: Jesus não veio apenas para confirmar a lei de Deus. Ele também fez isso, como vimos. Porém, esse não é o ponto principal de sua mensagem.
O foco está muito mais no cumprimento das promessas que Deus deu ao povo na Torá: que ele mesmo, Deus, um dia restabeleceria a ordem correta no mundo.
Ele viria buscar o que estava perdido e curar os enfermos (Ezequiel 34.16; Isaías 53.5).
Viria para tirar o pecado do povo e derramar seu Espírito (Isaías 1.18; 53.5; Joel 3.1-2; Zacarias 12.10; Ezequiel 37.1-14).
Viria para estabelecer um reino eterno (2Samuel 7.12-16).
E naturalmente viria para celebrar uma nova aliança, na qual a Lei (sim, a Lei mesmo!) seria gravada no coração das pessoas (Jeremias 31.31-33).
Conclusão
Ao dizer que veio para cumprir a Torá e os Profetas, Jesus não está se referindo, então, apenas à obediência à Lei. Ele pensa principalmente nas promessas de Deus, que se cumprem agora, por intermédio da sua vinda.
Este artigo foi extraído e adaptado do livro Jesus, o judeu, e os equívocos dos cristãos, escrito por Guido Baltes.
Autor
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Guido Baltes (Dr. habil., Philipps-Universität Marburg) é pastor da Igreja Evangélica de Kurhessen-Waldeck, Alemanha. Entre 2003 e 2009, ele e sua esposa serviram no atendimento pastoral de um hospício joanino em Jerusalém. Baltes é professor de Novo Testamento na MBS Akademie desde 2009 e na Philipps-Universität Marburg desde 2019. Além da teologia, sua outra paixão é a música, e vive com sua esposa, Steffi, em Marburgo.
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