A habitação do Espírito Santo transforma e guia a vida dos cristãos. É por isso que devemos cuidar no que estamos colocando o nosso foco – se é nas coisas do alto, ou em nossos próprios desejos.
Imagine que você nasceu cego. Por toda a sua vida, sua experiência do mundo foi por sons e toques. Você conhece a água pela sensação de estar molhado e pela flutuação quando está em uma piscina. Você conhece um cachorro pelo toque e pelo latido. É claro que você sabe que algo está faltando, pois todos ao seu redor falam de “ver” cores, paisagens, rostos e movimentos. Você acredita neles, mas nunca experimentou isso de “ver”. Assim, além de suas limitações, você não sente falta de “ver” além daquele anseio por algo a mais…
Continue imaginando comigo que certo dia surge uma cirurgia que pode fazê-lo ver. Após todos os procedimentos, você acorda e é impactado por luzes e imagens. Tudo é diferente agora. Você se dá conta de coisas que nem imaginava. Algumas cores são atraentes, outras parecem estar “gritando” para você. Sair ao sol é quase doloroso e, de repente, você se dá conta de sua própria aparência. Toda uma “nova” realidade surge e seu mundo literalmente se transforma.
A habitação do Espírito
Este é só um exercício de imaginação, mas é uma metáfora para o que ocorre quando passamos a ser habitados pelo Espírito Santo. De repente, de um momento para outro, passamos a ver o mundo de modo diferente. Sensações, percepções e mesmo realidades que não eram comuns a nós, passam a existir.

Repare como Lucas descreve a conversão de Paulo em Atos 9. O capítulo começa informando que ele “respirava ameaças de morte contra os discípulos do Senhor”. No versículo 22, após seu encontro com Jesus, sua cegueira e sua cura por meio de Ananias, lemos: “Todavia, Saulo se fortalecia cada vez mais e confundia os judeus que viviam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo”.
Veja também como o carcereiro em Filipos se transforma. Carcereiros no mundo romano eram, em sua maioria, ex-soldados e conhecidos por sua brutalidade. (Inclusive, uma regra comum era que o carcereiro que permitisse a fuga de um prisioneiro deveria sofrer a pena deste.) Assim, é natural que, ao ver as celas abertas, aquele homem tenha decidido tirar sua própria vida: “O carcereiro acordou e, vendo abertas as portas da prisão, desembainhou sua espada para se matar, porque pensava que os presos tivessem fugido” (Atos 16.27). Este mesmo homem, alguns versículos adiante, traz para sua casa Paulo e Silas e lhes serve uma refeição!
Repare ainda a descrição de Simeão, que estava no templo quando Jesus foi levado para ser circuncidado:
“Havia em Jerusalém um homem chamado Simeão, que era justo e piedoso, e que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que ele não morreria antes de ver o Cristo do Senhor. Movido pelo Espírito, ele foi ao templo.” (Lucas 2.25-27a)
Em três versículos Lucas usa três vezes o nome do Espírito Santo. Primeiramente, o Espírito Santo estava sobre Simeão (v. 25). Depois, ele havia recebido uma revelação de que veria o Messias antes de morrer (v. 26). Por fim, foi “movido” pelo Espírito até o templo, onde encontraria o bebê Jesus (v. 27). Podemos dizer com segurança que este homem tinha uma comunhão profunda com o Espírito Santo, e esta comunhão lhe deu o privilégio de conhecer a Jesus antes de sua morte.
Uma autorreflexão
Aqui, passo a refletir sobre minha própria vida. Como cristão, tenho a promessa de ser habitado pelo Espírito Santo (João 14.15-21). Paulo afirma ainda que: “Entretanto, vocês não estão sob o domínio da carne, mas do Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo.” (Romanos 8.9).
Toda vez que deixo minha mente ou atenção se fixar em algo que não seja o Senhor, estou optando por não “ver” ou não ouvir aquilo que o Espírito deseja me mostrar.
Sendo assim, posso dizer que o Espírito Santo está sobre mim. No entanto, poucas vezes me senti movido pelo Espírito para ir a algum lugar. Eu entendo, é claro, que a experiência de Simeão foi única, não algo que todo cristão deva passar o tempo todo. No entanto, temo que por vezes, apesar de ter o sentido da visão, eu escolho ignorá-lo e caminhar de olhos fechados.
Toda vez que deixo minha mente ou atenção se fixar em algo que não seja o Senhor, estou optando por não “ver” ou não ouvir aquilo que o Espírito deseja me mostrar. Temo que tenhamos muitos cristãos que fecham seus olhos para a direção do Espírito e vivem suas vidas como cegos espirituais. Paulo nos exorta em Colossenses 3.2: “Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas”.
Minha oração é que tanto você como eu possamos cultivar a “visão espiritual”, ouvindo e seguindo a direção do Espírito mesmo em meio às inúmeras atividades de nossa vida.
Autor
-
Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.
Ver todos os posts