Quando a Pessoa Desiste de Viver

Qual resposta os cristãos podem oferecer a pessoas que sofrem neste mundo e perdem o desejo de viver?

O leitor atento aos dramas da humanidade talvez tenha ficado por dentro de um evento no final do mês passado que, embora pequeno em números, é grande em significado, pois aponta para desafios culturais e espirituais.

Uma história triste

No dia 26 de março de 2026, a jovem Noelia Castillo Ramos, aos 25 anos de idade, finalmente obteve seu desejo de passar por um suicídio assistido na Espanha. A história de Noelia é uma sequência de tragédias. Aos 13 anos, foi encaminhada para o serviço social espanhol, poucos anos depois diagnosticada com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e com personalidade borderline.

Ao longo da vida, relatou três situações de abuso sexual, da última vez por um grupo de rapazes. Esse último a levou a saltar de um prédio na tentativa de tirar a própria vida. Ela sobreviveu; no entanto, ficou paraplégica e com dores crônicas irreparáveis. Em 2024, ela entrou com um pedido oficial de eutanásia de acordo com a lei espanhola. Após quase dois anos de batalhas judiciais, finalmente conseguiu a liberação e morreu após ser anestesiada.

Algumas considerações iniciais

Algumas considerações são necessárias para sabermos quais perguntas levarmos diante da Bíblia.

Em primeiro lugar, há um equilíbrio delicado entre não interromper a vida prematuramente, por um lado, e prolongar a morte, por outro.

Em segundo lugar, sofrimento é algo real, seja físico, seja mental. O fato é que algumas pessoas passam por tamanho sofrimento que simplesmente desistem da vida.

Nestes momentos, a pergunta sempre subjacente (“qual o propósito da vida?”) ganha relevância. À medida que nos distraímos com pequenas alegrias, nossa tendência é deixar de lado essa pergunta. Contudo, na falta delas, é possível se perder, inclusive perder a própria vontade de viver.

Como responder biblicamente?

O que a Bíblia tem a dizer sobre isso? E, talvez mais importante, o que nós, como seguidores de Jesus, teríamos a dizer para uma jovem como Noelia? Creio que nossa primeira reação deveria ser sentar-se e chorar com quem sofreu de modo tão cruel. Depois, eu dividiria minha resposta em três partes.

1. Deus é quem dá e tira a vida. A partir de Adão e Eva, o ser humano decidiu chamar para si a responsabilidade de definir o que é certo e errado e a viver de acordo com suas “descobertas”, o que explica a nossa distância de Deus e o sofrimento consequente. No entanto, em Deuteronômio 32.39 lemos: “Vejam agora que eu sou o único, eu mesmo. Não há Deus além de mim. Faço morrer e faço viver, feri e curarei, e ninguém é capaz de livrar-se da minha mão”. Qualquer ação no sentido de terminar uma vida significa usurpar uma autoridade que Deus reservou para si. Isso é claramente expresso em Êxodo 20.13.

2. A vida humana é preciosa. Enquanto escrevo, meu coração está dolorido por essa jovem. Eu sei que não é nem de longe a única ou sequer a história mais trágica, mas eu choro por uma vida amada por Deus que foi desperdiçada e que não vai encontrar a paz que buscava ao tomar essa decisão. Deus alertou ao homem em Gênesis que não comesse da árvore proibida ou então morreria. Este alerta é repetido muitas vezes na Bíblia. Veja, por exemplo, Deuteronômio 30.19-20:

“Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida, para que vocês e os seus filhos vivam, e para que vocês amem o Senhor, o seu Deus, ouçam a sua voz e se apeguem firmemente a ele. Pois o Senhor é a sua vida, e ele lhes dará muitos anos na terra que jurou dar aos seus antepassados, Abraão, Isaque e Jacó.”

3. Deus está presente mesmo no sofrimento. Não consigo vivenciar o desespero dessa jovem, posto que não conseguimos “entrar” na dor do outro. No entanto, posso imaginar a desesperança, a falta de razão de viver, a dor constante e irreparável. O que eu gostaria de ter dito a ela é que Deus está conosco mesmo no vale da sombra da morte (Salmos 23.4). Ele é suficiente – não nos tirando do vale, mas caminhando através deste conosco e nos prometendo uma vida abundante. Na verdade, o próprio sofrimento é que nos faz acordar de nossa letargia e pretensão para que nos voltemos a Ele como nossa única esperança.

Conclusão

Minha oração, por você e por mim, é que sejamos testemunhas vivas para as muitas “Noelias” e “Noelios” que viermos a encontrar. Testemunhas de que há uma vida melhor à nossa espera. Até lá, buscamos nosso significado e descanso naquele que é a própria vida: Jesus.

“Aguardo ansiosamente e espero que em nada serei envergonhado. Ao contrário, com toda a determinação de sempre, também agora Cristo será engrandecido em meu corpo, quer pela vida, quer pela morte; porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. Caso continue vivendo no corpo, terei fruto do meu trabalho. E já não sei o que escolher! Estou pressionado dos dois lados: desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor; contudo, é mais necessário, por causa de vocês, que eu permaneça no corpo.” (Filipenses 1.20-24)

Autor

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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