De que forma Jesus relaciona a vontade humana com o ato de segui-lo?
“Mas eu não quero, vovô!” Essa foi a resposta de meu neto de três anos quando lhe dei alguma instrução cruel, tal como: “Precisa lavar as mãos para almoçar”, ou então: “Deixa o chocolate para depois do jantar”, ou mesmo: “Vamos guardar os brinquedos”.
Sendo um avô apaixonado, meu instinto foi achar engraçadinho, mas logo veio à minha mente a terrível condição humana que se manifestava na vida dele.
A primazia da vontade
A principal marca de nossa humanidade caída talvez seja a primazia da vontade. Queremos o que queremos na hora que queremos e do jeito que queremos – ou então não queremos.
A própria tentação de Satanás sobre Eva trazia em seu íntimo um apelo à vontade autônoma dela. A serpente não distorceu a ordem de Deus, nem sequer disse que seria correto obedecer. Sua estratégia foi apresentar um cenário mais desejável do que a obediência.
Repare em Gênesis 3.6 o efeito desta apresentação sobre a vontade de Eva: “Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também”.
A própria tentação de Satanás sobre Eva trazia em seu íntimo um apelo à vontade autônoma dela.
As três palavras destacadas descrevem o domínio da vontade: algo agradável nos traz uma sensação boa, e quem não quer uma sensação boa? Atraente significa que nossa atenção se volta para o objeto ou pessoa; literalmente, significa que somos levados a nos aproximar. Por fim, desejável é algo que estimula a nossa vontade. Algo desejável é algo que queremos antes mesmo de obter.

O que fazer com a vontade?
Fomos criados com a capacidade de desejar. De uma forma mais sofisticada que qualquer animal, somos capazes de imaginar algo que desejamos e de fazer sacrifícios incríveis por algo que nunca experimentamos…
O problema humano, então, não é a vontade em si, mas nossa relação com ela. Isso porque não somos reféns de nossas vontades. Ou seja, podemos exercer controle sobre elas. Diante de um prato particularmente atraente oferecido em uma refeição, a pessoa pode (e com frequência o faz) rejeitá-lo por questões de dieta ou saúde.
Não somos escravos de nossos desejos, de nossa vontade. Somos, sim, frequentemente vítimas destes, pois mesmo a rejeição de realizar um desejo traz em si um custo emocional. Por exemplo, alguém que compreende que tem problemas com álcool precisa se disciplinar a rejeitar o “primeiro gole”, mesmo que isso lhe cause tristeza.
É nesse sentido que Jesus aponta para a necessidade de subjugarmos os nossos próprios desejos. Em Lucas 9.23, lemos: “Jesus dizia a todos: ‘Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me’”.
1. Quiser acompanhar-me
Repare como a questão da vontade é central neste texto. Jesus coloca o segui-lo como alguém que depende da vontade: “Se alguém quiser acompanhar-me”. Com muita frequência encontramos indivíduos que não querem seguir a Jesus. Na verdade, esta é a condição básica do ser humano (Romanos 3.10-18).
2. Negue-se a si mesmo
A partir desta vontade inicial de seguir a Jesus, ele apresenta outra condição, a meu ver também ligada à vontade: “Negue-se a si mesmo”. Negar-se a si mesmo é uma decisão de rejeitar sua própria vontade como soberano em sua vida.
Negar-se a si mesmo é uma decisão de rejeitar sua própria vontade como soberano em sua vida.
Ao negar-me a mim mesmo, reconheço que em várias circunstâncias terei de dizer “não” para minhas vontades. Este é um critério fundamental para a vida em sociedade. Não é possível viver em grupo sem compreender que sua vontade não é soberana. Na verdade, apesar da famosa frase “querer é poder”, mesmo vivendo isolado somos obrigados a compreender nossas limitações e o poder relativamente pequeno de nossa vontade.
3. Tome a sua cruz
Por isso, o versículo continua com a terceira condição para segui-lo: “Tome diariamente a sua cruz”. Tomar a cruz significava demonstrar diante de todos que você era um condenado à morte. O propósito do prisioneiro carregar sua cruz até o local da crucificação era tornar público sua sentença. Essa condição é essencial para seguir a Jesus. Eu preciso querer, preciso negar-me e preciso deixar claro que morri para meu antigo modo de viver.
Conclusão
Meu neto, assim como você e eu, precisa ser lembrado que sua vontade, ainda que dada por Deus, precisa ser subjugada à vontade daquele que determina a realidade. Na verdade, somente em sua vontade, temos nossos desejos realizados (Salmos 37.4).
Autor
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Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.
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