Vivendo na “Babilônia”

Quais lições podemos retirar das instruções contidas em Jeremias 29.5-14 acerca do modo de viver em meio ao exílio de Judá?

Assim com muitos brasileiros, passei as últimas semanas acompanhando e orando pelas eleições em nosso país. No domingo à noite, já em casa, acompanhei a divulgação dos resultados.

Fiquei, como muitos, bastante triste com o resultado. Eu realmente esperava uma mudança para a direção de nosso país. E, refletindo sobre isso, veio-me à mente o texto de Jeremias 29.5-14.

O contexto de Jeremias

O contexto é totalmente diferente. Após muito tempo de idolatria e rebeldia, incluindo a rejeição de vários profetas enviados para trazer o povo de volta à Deus, o Senhor determina o exílio ao reino de Judá para a Babilônia durante 70 anos.

O povo estava decepcionado, frustrado, com a sensação de que Deus os havia abandonado. Afinal, eles confiavam que as palavras de seus líderes e falsos profetas seriam atendidas. O choque do exílio incluía algumas lições para o povo de Deus.

A aplicação atual

O paralelo e a aplicação para a nossa situação tem me levado a refletir. De muitas formas, somos chamados a “viver no exílio”. A palavra revela que o mundo jaz no Maligno (1João 5.19). Ao orar por nós, Jesus também comenta que vivemos em um mundo hostil (João 17.6-19) e nos chama a não sair do mundo, mas a sermos livres do Maligno.

Diante disso, minha pergunta principal é: como devemos viver enquanto na Babilônia? Como devemos viver quando o governo sob o qual estamos é iníquo? E, antes que me julguem, não acho que teríamos um governo santo caso o resultado da eleição fosse diferente. Nossa esperança de um governo verdadeiramente justo neste mundo não ocorrerá antes do milênio.

Nossa esperança de um governo verdadeiramente justo neste mundo não ocorrerá antes do milênio.

Deixe-me destacar algumas lições que podemos tirar dessa exortação à nação exilada de Judá:

  1. Sigam suas vidas, construindo, fazendo negócios, formando famílias (v. 5-6). O fato de termos um governo iníquo não significa que nossa vida acabou. Pode significar tempos difíceis e provações; no entanto, Jesus já havia nos falado que teríamos provações no mundo (João 16.33).
  2. Trabalhem a favor do seu país (v. 7). Sim, eu sei que a continuidade do presente governo desanima muitos. No entanto, somos chamados a ser bênção, mesmo quando estamos em desacordo com a ideologia vigente. Isso não significa concordarmos ou nos “acomodarmos” ao padrão deste mundo. Lembrem-se das palavras de Colossenses 3.23-24: “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, não para os homens, sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança, pois é a Cristo, o Senhor, a quem vocês servem”.
  3. Cuidado com falsos profetas (v. 8-9). Nestes últimos tempos, houve muita gente prometendo e “profetizando” coisas que iriam acontecer. Reconheço que algumas profecias eram muito atraentes. O problema é que… elas não eram promessas do Senhor, mas de falsos profetas tentando, em geral, conseguir alguma vantagem para si. Uma vez mais lembremos das palavras de Paulo em 1Timóteo 2.1-2: “Antes de tudo, peço que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade”. Veja que somos chamados a orar pelos nossos governantes (difícil, eu sei) e o resultado é que tenhamos vidas tranquilas.
  4. Mantenham em Deus sua esperança (v. 10-11). A promessa ao povo de Judá era de que eles voltariam à terra prometida depois de 70 anos. No entanto, muito mais que o retorno a uma terra, a promessa era de um futuro de esperança! A promessa é de uma época em que a relação com Deus seria resgatada (v. 12-14).

Conclusão

Uma notícia que tem sido veiculada nesses últimos dias, após o resultado da eleição, é de que empresas estão encerrando programas sociais que mantinham, talvez em protesto ou desacordo com a linha do governo eleito. Entendo a posição destas – afinal, o que faziam era voluntário.

Contudo, minha oração é que igrejas e nós, cristãos, continuemos a fazer o bem, pois nossos olhos não estão neste país ou neste governo, mas no nosso lar celestial. É dali que recebemos nossas ordens.

Autor

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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