Escatologia: Tudo Gira em Torno da Esperança

Por que os cristãos devem possuir uma esperança concreta nas promessas do retorno de Cristo, da ressurreição futura e do reino eterno de Deus?

Certa feita, Shakespeare escreveu: “Os miseráveis não têm outro remédio, a não ser a esperança”.[1] Caso vivesse no século 21, ele não teria escrito essas palavras. Existem, hoje em dia, inúmeros tratamentos, remédios e programas para tratar a miséria. Em muitos aspectos, o “tratamento” do desespero humano tem sido inserido quase totalmente no reino da ciência secular. Como observa Janet Soskice: “A falta de fé e de caridade pode ser tratada com oração, mas a ausência de esperança é tratada com antidepressivos”.[2]

Enquanto os cristãos negligenciarem a esperança futura como um tema principal de sua história de fé, eles também perdem o seu poder curador. Expressando de forma simples, a esperança no futuro possui um grande valor para o presente. Não uma noção de que “as coisas irão melhorar em um futuro próximo”, ou uma vaga sensação de que “Jesus voltará e consertará todas as coisas”. Uma expectativa difusa em um amanhã mais brilhante pode funcionar para políticos tentando angariar apoio ou para poetas que buscam explorar o sentimentalismo. A esperança em Cristo possui um valor terapêutico porque ela é concreta. Promessas específicas. Expectativas particulares. Descrições detalhadas. Essas facetas apresentam um quadro para a nossa mente que se assemelha mais a uma pintura de Rembrandt do que a uma de Monet.

Uma expectativa difusa em um amanhã mais brilhante pode funcionar para políticos tentando angariar apoio ou para poetas que buscam explorar o sentimentalismo.

O conhecimento e a confiança no que Deus afirma que está por vir possuem hoje um poder curativo e motivador para nós, porque a esperança eleva o nosso coração e a nossa mente acima das circunstâncias da nossa vida. Ela nos fornece vislumbres de um futuro glorioso; nos inspira a olhar para fora e para cima, para uma vida infinitamente melhor, em vez de nos arrastar para baixo e para dentro, deixando-nos obcecados com nossos cenários e situações. A consciência sobre o que nos aguarda à frente retira os nossos olhos das coisas que parecem importantes, focando-os naquilo que é vitalmente significante. Quanto mais reconhecermos, aqui e agora, a brevidade e a incerteza do tempo presente em comparação com o “eterno peso de glória” (2Coríntios 4.17), mais as nossas atitudes e ações serão permanentemente influenciadas para melhor – na verdade, para o que é melhor acima de todas as coisas.

John Polkinghorne assim expressou:

Essa atitude humana [de esperança] é de significância religiosa porque ela aponta para além dos limites do presente e deve buscar o seu fundamento além dos indivíduos humanos. A esperança envolve apegar-se firmemente à promessa em um contexto de aparente contradição. O oposto de esperança é desespero, uma rejeição niilista da confiança na significância da vida.[3]

Relembre os seus breves dias no ensino fundamental. Pense nas coisas com as quais você se preocupava e queria muito – as brigas frívolas com amigos inconstantes, os problemas que pareciam, de alguma forma, intransponíveis e os medos que provariam ser infundados. Se você conhecesse, então, o que conhece agora – que a maioria dos “problemas” que consumiam tanta energia emocional era brincadeira de criança –, como os seus pensamentos, sentimentos e ações teriam sido impactados? O mesmo é verdadeiro quando comparamos a nossa presente vida terrena com a realidade do que está por vir. A grande notícia é que Deus nos informa sobre os futuros acontecimentos de uma maneira que pode transformar a nossa mente, elevar a nossa cabeça acima da escuridão temporal e nos permitir captar vislumbres da luz infindável da eternidade.

FONTES FALSAS DE ESPERANÇA
1. Meios de sucesso humanos (Salmos 33.17). 
2. Força pessoal (Provérbios 11.7).
3. A incerteza das riquezas (1Timóteo 6.17). 
4. Revelações falsas (Ezequiel 13.6).
5. Interpretações equivocadas (João 5.45).
FONTES VERDADEIRAS DE ESPERANÇA
1. Deus Pai (Salmos 62.5).
2. Deus filho (1Timóteo 1.1).
3. Deus Espírito (Romanos 5.5).
4. Lembrança da fidelidade de Deus (Lamentações 3.21-23). 
5. Perseverança no sofrimento (Romanos 5.3-4).
6. O encorajamento da Escritura (Romanos 15.4).

Quando falamos do poder transformador que resulta da compreensão dos detalhes do futuro vindouro, não estamos especulando sobre as origens do Anticristo, ou a sede de seu reino, ou como calcular o seu “número”. Não estamos nos referindo a acompanhar obsessivamente o que acontece, quando e como, durante os dias que conduzem ao retorno de Cristo. E não estamos nos fixando no significado exato de certos símbolos proféticos, presentes em Daniel, Zacarias ou no apóstolo João. Queremos dizer o conteúdo central, direto e inequívoco da esperança cristã. A Escritura contém promessas divinas às quais os cristãos têm aguardado desde as primeiras gerações.

A promessa do retorno de Cristo

Pedro, pescador transformado em pescador de homens, estava entre os discípulos, olhando para as nuvens quando Cristo ascendeu à destra do Pai após dar um curso intensivo de quarenta dias sobre o reino de Deus. Quando desapareceu de vista entre as nuvens, dois anjos apareceram e disseram: “Homens da Galileia, por que vocês estão olhando para as alturas? Esse Jesus que foi levado do meio de vocês para o céu virá do modo como vocês o viram subir” (Atos 1.11). A partir de então, imagino eu, não houve um dia sem que Pedro olhasse, pelo menos de relance, para o céu, ponderando se o seu Senhor, Salvador, Deus e Amigo estaria prestes a pôr os pés de novo neste mundo.

Próximo ao seu fim, trinta anos depois, Pedro ainda se apegava àquela promessa do retorno do Messias, observando que zombadores arrogantes e ignorantes provocavam frequente e sarcasticamente a sua fé (2Pedro 3.4). A mente do apóstolo, no entanto, permanecia firme, com o foco correto e os seus sentidos em alerta, enquanto ele conclamava seus próprios seguidores: “Por isso, preparando o seu entendimento, sejam sóbrios e esperem inteiramente na graça que lhes está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo” (1Pedro 1.13). Da mesma forma, Paulo exortou Tito, seu cooperador, a investir a vida “aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo” (Tito 2.13).

O futuro retorno corpóreo de Jesus é o ponto central de inúmeras promessas que estão interconectadas na trama do tecido da vinda do Rei. Embora elas estejam relacionadas a eventos que abalarão o mundo e a experiências revolucionárias envolvendo o povo de Deus, não devemos nos esquecer de que, sem a certeza fundamental da volta de Cristo, nada disso seria possível. Assim como água fresca nutre uma terra ressequida quando as comportas de uma barragem são abertas, a segunda vinda irá desencadear um dilúvio de bênçãos asseguradas que transformarão este mundo e tudo o que nele houver.

Assim, vamos examinar esse rio de certezas mais detalhadamente: ressurreição, reino, justiça, glória e vida eterna.

A promessa da ressurreição

O anseio pela ressurreição do corpo tremula como uma bandeira sobre o exuberante reino da esperança cristã. Pela promessa de que seremos elevados quando Cristo retornar, os cristãos, ao enfrentarem a morte daqueles que amam, não precisam prantear e lamentar da mesma maneira que os descrentes (1Tessalonicenses 4.13). Entristecemo-nos, sim, porém é um luto baseado em uma esperança segura. Do mesmo modo que o próprio Jesus foi ressuscitado dentre os mortos, um dia ele ressuscitará todos os seus filhos para a vida eterna, revestidos de um novo e glorificado corpo. Veremos os nossos amados novamente se eles pertencerem Àquele que venceu a morte!

Explorando a Teologia Cristã: Igreja, Santificação e Escatologia

editado por Nathan D. Holsteen e Michael J. Svigel

O terceiro volume da trilogia traz os fundamentos das doutrinas da igreja, da vida cristã e do fim dos tempos de uma forma concisa e acessível, revelando perigos a evitar, fornecendo um panorama histórico das doutrinas, aplicações práticas e mais.

A esperança e o foco na futura ressurreição corporal têm se esvanecido ao longo das eras, com frequência substituídos pela noção de chegada em um lugar etéreo de grande luz e nuvens brancas, dedilhando harpas e entoando cânticos junto a um coro celestial, ou vagando por intermináveis ruas douradas, alinhadas com edifícios feitos de pedras preciosas. A esperança bíblica envolve a ressurreição física, não apenas uma libertação espiritual rumo ao céu. Isso é tão crucial para a nossa fé que Paulo apresentou esse fato como o motivo de ele estar sendo perseguido por seus opositores (Atos 26.6-8). Mesmo a própria criação anseia pela ressurreição dos santos, pois isso acarretará a “ressurreição” da criação, libertando-a do cativeiro da corrupção (Romanos 8.20-25). Assim como nosso corpo mortal atual está algemado a essa deterioração e degeneração do mundo físico, da mesma forma a restauração deste mundo corrompido está vinculada à transformação do nosso corpo ao seu estado de glória incorruptível e imortal (1Coríntios 15.53-54).

A promessa do reino

O retorno de Cristo, a ressurreição do corpo e a transformação da criação coincidirão com o advento da plenitude do reino eterno de Deus. O reino de Deus sempre foi um tema presente na oração dos cristãos (Mateus 6.10). Embora o pecado, a injustiça e o sofrimento do mundo possam ser, de algum modo, um pouco aliviados quando os cristãos vivem os valores e as virtudes do reino, o supremo triunfo do bem sobre o mal, a paz sobre a calamidade e a justiça sobre a injustiça aguardam a vinda do prometido Messias e Rei (Isaías 9.7; Daniel 6.26). Ao pregar o reino de Deus, a igreja proclama não apenas o seu próprio testemunho de vidas dignas do nosso Rei na presente era, mas também a nossa esperança no fato seguro do reino universal e eterno de Deus por meio de Jesus (Atos 28.20-31).

Que ousada esperança em meio à atrofia, entropia, tirania e instabilidade! Um reino que não é deste mundo transforma este mundo. Não por poder ou raciocínio humanos, nem por avanços científicos, proezas militares ou econômicas. Nenhum desses instrumentos é capaz de satisfazer os mais profundos anseios de todas as nações e povos: paz, justiça, segurança e prosperidade. Somente o reino divino entrando neste mundo pode promover o estabelecimento das virtudes e valores do céu aqui. Então

“o reino, o domínio e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo. O seu reino será um reino eterno e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão.” (Daniel 7.27)

Notas

  1. William Shakespeare, Measure for Measure, ato III, cena 1.
  2. Janet M. Soskice, “The Ends of Man and the Future of God”, Postmodern Theology (Oxford: Basil Blackwells, 2001), p. 78.
  3. John Polkinghorne, The God of Hope and the End of the World (New Haven, CT: Yale, 2002), p. 47.

Este artigo foi extraído e adaptado do livro Explorando a Teologia Cristã: Volume 3, editado por Nathan D. Holsteen e Michael J. Svigel.

Autor

  • Michael J. Svigel (Th.M., Ph.D., Dallas Theological Seminary) é professor de teologia sistemática e teologia histórica no Dallas Theological Seminary. Sua paixão por uma teologia e vida cristocêntricas é acompanhada por humor, música e escrita. Seus livros e artigos abrangem desde estudos crítico-textuais até ficção juvenil. Ele e sua esposa, Stephanie, têm três filhos: Sophie, Lucas e Nathan.

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