Esta série apresenta cinco termos que caracterizam a vida devocional demonstrada ou recomendada na Bíblia. O primeiro é “atenção”.
Depois de tomarem a última ceia juntos, Jesus e seus amigos percorreram o trajeto do cenáculo até o Getsêmani descendo pelo vale do Cedrom e subindo a encosta do monte das Oliveiras. Em algum ponto ao longo desse antigo caminho, Jesus apresentou a seus discípulos aquela que se tornou uma metáfora famosa para a vida espiritual: “Eu sou a videira, vocês são os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim vocês não podem fazer nada” (João 15.5). Talvez sua caminhada passou pelo acesso a um vinhedo. Ou talvez o luar tenha levado Jesus a contemplar a videira de ouro com seus frutos que enfeitava os portões do templo. Qualquer que tenha sido a inspiração, Jesus aproveitou uma imagem importante para a vida em conexão vital com ele. Reforçando a metáfora ao longo de sua breve aula, Jesus repetiu vez após vez – onze vezes no espaço de 17 versículos – o chamado para permanecer nele. A metáfora implica um senso de relacionamento íntimo e dependência vivificante que é a essência da vida espiritual. Mas, como todas as metáforas, essa esconde ao mesmo tempo que revela. O que significa permanecer em Cristo? Como isso funciona na nossa vida tão complicada no século 21? Quero propor que ao menos um dos aspectos cruciais do que significa permanecer em Cristo – um aspecto que é fundamental para a prática apropriada de todas as disciplinas espirituais – é prestar atenção.
Uma das capacidades espirituais mais importantes que podemos desenvolver em um mundo como o nosso é a capacidade de prestar atenção. No ambiente cultural contemporâneo, podemos sofrer de uma espécie de síndrome de déficit de atenção coletivo. A habilidade de prestar atenção permanente a pessoas, ideias e ao estado da nossa própria alma é absolutamente indispensável ao cultivo de relacionamentos íntimos, profundidade de entendimento e sabedoria para a vida. Sendo assim, a erosão da nossa capacidade de prestar atenção não é coisa insignificante. Estamos nos tornando cada vez mais um povo fácil de distrair, que vive em um mundo cada vez mais distrativo. A ubiquidade da tecnologia, a correria louca da vida e a invasão da “produtividade” em cada esfera da nossa existência demoliram nossos antigos conceitos de lugar, tempo e espaço e desmontaram nossa capacidade de obter foco sustentado, consciência profunda, reflexão atenta e memória vibrante. No entanto, essas habilidades são indispensáveis para qualquer coisa que vá além de uma espiritualidade superficial (sem falar da vida familiar, das amizades, da comunidade política etc.). Em seu livro Distracted: The Erosion of Attention and the Coming Dark Age [Distraídos: A erosão da atenção e a futura idade das trevas], Maggie Jackson chega ao ponto de argumentar que “a diminuição da nossa capacidade de atenção está ocorrendo a uma velocidade tal e em tantas áreas da vida que a erosão está atingindo massa crítica. Estamos à beira de perder nossa capacidade, como sociedade, de nos concentrar de forma profunda e sustentada. Em resumo, estamos deslizando em direção a uma nova idade das trevas”.[1] As consequências culturais da nossa perda coletiva da atenção poderão ser realmente significativas.
A habilidade de prestar atenção permanente a pessoas, ideias e ao estado da nossa própria alma é absolutamente indispensável ao cultivo de relacionamentos íntimos, profundidade de entendimento e sabedoria para a vida.
Leighton Ford observou: “Desde crianças, recebemos ordens de ‘preste atenção’, como se isso fosse a coisa mais simples do mundo. Na realidade, porém, estar atento é um dos conceitos mais difíceis de entender e uma das disciplinas mais árduas de aprender”.[2] A atenção é um dos elementos constitutivos essenciais das disciplinas espirituais. As disciplinas espirituais são, em seu sentido mais básico, recursos por meio dos quais prestamos atenção. São práticas intencionais de concentração sustentada – em Deus, em sua história, em nosso próximo e na condição de nossa alma. Elas envolvem abrir espaço no meio da nossa vida cotidiana para chamar a alma à atenção, para levantar nossos olhos das inúmeras distrações que lutam por nossa lealdade e afeições.
Primeiro, precisamos aprender a prestar atenção em Deus, à realidade da sua presença e da nossa necessidade dele. Um dos aspectos mais importantes de uma disciplina espiritual é que ela nos desperta para a realidade tantas vezes negligenciada de que o Espírito está presente junto a nós, que ele deseja fazer sua obra em nós, que ele anseia que experimentemos seu poder formador e sustentador em nossa alma. Andar pelo Espírito – permanecer em Cristo – começa com um reconhecimento: “Deus, neste momento tu estás comigo e eu, contigo”. As disciplinas espirituais são os recursos pelos quais abrimos espaço em nossa vida hiperocupada e facilmente preocupada para praticar a presença de Deus.

Segundo, precisamos de práticas que nos ajudem a prestar atenção à história, à visão de Deus. As práticas específicas que quero explorar nos capítulos subsequentes são, todas elas, recursos que nos ajudam a voltar para a visão de Deus – a presença pessoal de Deus, seu reino justo e sua paz perfeita –, vez após vez. Permanecer nessa história requer imersão nela. Vivemos em um ambiente repleto de histórias concorrentes, que apresentam sua própria visão da boa vida. Por exemplo: cada comercial de TV é uma “bem-aventurança” de trinta segundos, uma descrição do que é uma “vida feliz” – e inevitavelmente está amarrado a um produto de consumo. Estamos cercados por histórias. Precisamos de práticas que atraiam nossa atenção de volta para aquela história que, para nós, supera as demais.
Precisamos de práticas que atraiam nossa atenção de volta para aquela história que, para nós, supera as demais.
Terceiro, precisamos de práticas que nos ajudem a prestar atenção no que está acontecendo no mundo à nossa volta. Muitas vezes, nossas disciplinas espirituais são práticas que nos levam a curvar a cabeça com a atenção concentrada em Deus e na alma. Por mais crucial que isso seja, também precisamos de práticas que nos ajudem a levantar nossa cabeça para ver a realidade em torno de nós. Em seu livro The Inward Journey [A jornada interior], o teólogo e pioneiro dos direitos civis Howard Thurman afirma que é atribuição da espiritualidade cristã “manter uma vigília preocupada junto ao leito do mundo”.[3]
Habitar com Deus
Neste livro, o pastor Barry Jones compartilha sua visão de uma espiritualidade cristã autêntica, que transforma a forma como vivemos no contexto específico no qual Deus nos inseriu.
Por fim, precisamos daquelas práticas que nos ajudem a prestar atenção à realidade e às condições da nossa própria alma. A espiritualidade leva a alma a sério. A alma é “a invisibilidade que pertence a cada visibilidade […] o interior que dá contexto a todo o exterior”.[4] Mas, dada a nossa propensão de viver de modo cada vez mais distraído em uma cultura cada vez mais distraidora, é possível conseguir passar pela vida sem notar que temos uma alma, que esta precisa ser nutrida, cuidada. As disciplinas espirituais abrem espaço para dar atenção à alma.
Notas
- Maggie Jackson, Distracted: The Erosion of Attention and the Coming Dark Age (Amherst, NY: Prometheus Books, 2009), p. 14.
- Leighton Ford, The Attentive Life: Discerning God’s Presence in All Things (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2008), p. 23.
- Howard Thurman, The Inward Journey (Richmond, IN: Friends United Press, 2007), p. 128.
- Eugene Peterson, Subversive Spirituality (Grand Rapids: Eerdmans, 1997), p. 6-7.
Este artigo foi extraído e adaptado do livro Habitar com Deus: Um testemunho para o mundo, escrito por Barry D. Jones.
Autor
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Barry D. Jones (Ph.D., Wheaton College) atualmente serve como pastor sênior da Irving Bible Church, no Texas (EUA). Além disso, passou três anos como professor no programa de formação espiritual do Dallas Theological Seminary. Suas paixões são ensinar as Escrituras, fazer discípulos e treinar futuros líderes que estejam profundamente enraizados em sua fé e vitalmente engajados no mundo ao seu redor. Casado com Kim, tem três filhos.
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