A Morte de Henry Borel e o Perdão de Deus

Como o perdão concedido pela juíza no caso do julgamento da mãe de Henry Borel pode nos levar a refletir sobre o perdão que Deus nos concede e sobre a diferença entre o perdão divino e a falta de punição para o crime cometido.

Muitos de nós assistimos estarrecidos ao veredito (e, pior ainda, à argumentação usada) no caso da mãe do menino Henry Borel. Para quem não acompanhou o caso, o menino Henry Borel, de quatro anos, foi levado pela mãe para o hospital, aonde chegou sem vida. Ela alegou que encontrou o menino já sem vida no apartamento onde morava com sua mãe e o namorado. A babá testemunhou e alertou a mãe de cenas de tortura e maus tratos realizados pelo namorado da mãe. Além de ruptura do fígado e hemorragia na cabeça, no hospital foram verificadas 23 lesões corporais compatíveis com tortura.

O crime é horrível, trazendo à tona a trágica realidade da violência doméstica em nosso país. Segundo um documentário da CNN:

O Brasil registra 673 casos de violência contra crianças de até 6 anos por dia ou 28 a cada hora, e 84% dessas agressões têm pais, padrastos, madrastas ou avós como suspeitos, segundo dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, analisados em estudo produzido pelo comitê científico do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI).[1]

O perdão da juíza

O namorado foi condenado a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão. A mãe de Henry foi condenada por homicídio culposo (quando não há intenção de matar) e pelo crime de tortura por omissão. No entanto, a juíza do caso concedeu à ré um perdão judicial, medida usada no caso em que o réu comete um crime, em geral sem intenção, mas as consequências do crime já são tão dolorosas que não é necessária qualquer outra punição. Ela é usada, por exemplo, em casos em que um motorista dirige de modo irresponsável e causa a morte de um ente querido e danos a si mesmo.

Ao usar tal medida para com a mãe do menino, a juíza ainda alegou que ela já havia sofrido o suficiente pelo massacre nas redes sociais e perseguição implacável contra sua honra. Desta forma, criticou a “reação desproporcionalda sociedade, classificando-a como discriminatória e fruto de uma cultura que exige que a mulher seja uma mãe perfeita”.

Como seguidor de Jesus, eu afirmo um compromisso com o perdão. Jesus nos ensina sem deixar nenhuma dúvida em Mateus 6.14-15:

“Pois se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial também lhes perdoará. Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará as ofensas.”

Contudo, o que ocorreu, além do discurso ser usado como uma oportunidade de defender o feminismo radical e atacar uma cultura de patriarcado, foi deixar um crime sem punição. O argumento de que a mãe tenha sofrido ataques contra sua honra por não ser “uma mãe perfeita” abre espaço para todo tipo de abuso, negligência e maus tratos por parte de adultos, que também poderão alegar não serem mães ou pais perfeitos.

O perdão de Deus

O perdão de Deus é algo totalmente diferente. O perdão de Deus não ignora a culpa ou deixa um pecado sem punição. A passagem de Romanos 3.21-26 é riquíssima com respeito à justiça de Deus. Quero destacar aqui os versículos 25-26:

“Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; mas, no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.”

Primeiramente, Deus não anulou a culpa ou deixou o pecado sem punição, mas, como o versículo 25 deixa claro, ele ofereceu Jesus para o pagamento da pena. A pena foi paga, sua justa ira foi desviada daquele que pecou. Repare agora no versículo 26, quando Paulo destaca que dessa forma Deus demonstra sua justiça tornando-se ao mesmo tempo justo (não há nele qualquer vestígio de impunidade, parcialidade ou relativismo). Por ele ser justo, todo pecado deve ser punido, toda pena deve ser cumprida.

Ao mesmo tempo, ele é também justificador, ou seja, Deus sabe que precisa providenciar o pagamento da pena para que sua justiça seja cumprida, pois quem pecou (eu e você) é incapaz de fazê-lo. Assim, ele enviou Jesus para que todo o que nele crê não pague a pena (morte), mas seja plenamente perdoado.

Não sei como será a vida dessa mãe ou como o julgamento vai seguir. O pai da criança (divorciado da mãe) já afirmou que vai recorrer da decisão. Há um clamor público contra a decisão e o argumento da juíza feminista está tendo o efeito contrário na opinião pública. No entanto, para mim, para você e mesmo para essa mãe e seu ex-namorado, só existe uma hipótese de perdão verdadeiro: o perdão oferecido a todo aquele que, reconhecendo seu pecado, se rende a Jesus pela fé!

Nota

  1. Thais Carrança, “Parente próximo comete 8 em cada 10 casos de violência contra crianças de até 6 anos no Brasil, diz pesquisa”, BBC News Brasil, 28 mar. 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cw8d5xl8p4eo.

Autor

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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