No Mundo Vocês Terão Medo

Na tradução de Martinho Lutero, Jesus Cristo diz: “No mundo vocês terão medo; mas fiquem tranquilos, eu venci o mundo” (João 16.33). Uma palavra de encorajamento.

O medo tem muitas faces. Existe o medo de perder o emprego ou de não corresponder mais às exigências de desempenho da sociedade moderna. O medo de que no futuro as aposentadorias não possam mais ser asseguradas. Ou o medo de doenças e de uma velhice incapacitada. A situação política mundial está cada vez mais caótica…

Isso alimenta medos. É o medo das condições a que tudo isso levará, o medo da incerteza e da crescente corrupção, com todas as consequências que já se fazem sentir hoje.

Até certo ponto, o medo faz parte da nossa vida, tal como Jesus disse: “No mundo vocês terão medo”. No entanto, ele não para por aí e acrescenta: “Mas fiquem tranquilos, eu venci o mundo” (veja João 16.33). Jesus está presente. Ele não só conhece os nossos temores, como mantém à mão a ajuda para eles. De fato, ele conhece a saída deles.

O exemplo de Davi

O rei Davi também conhecia o medo. Como jovem pastor de ovelhas, ele era desprezado – sua esposa zombou dele publicamente. Quando era rei, foi expulso do trono pelo próprio filho e sofreu ameaça de morte.

Contudo, Davi nos mostra o caminho da solução no seu “diário”, o livro de Salmos, onde ele escreve: “Ouve a minha voz quando clamo, ó Senhor; tem misericórdia de mim e responde-me. A teu respeito diz o meu coração: Busque a minha face!” (Salmos 27.7-8).

No meio do seu medo, Davi dirige-se a Deus, buscando deliberadamente sua proximidade e seu consolo: “A tua face, Senhor, buscarei. Não escondas de mim a tua face, não rejeites com ira o teu servo; tu tens sido o meu ajudador” (27.8-9 ). Ao fazer isso, ele experimenta o que ele mesmo diz: “Esta certeza eu tenho: viverei até ver a bondade do Senhor na terra. Espere no Senhor. Seja forte! Coragem! Espere no Senhor” (27.13-14). Que consolo, mesmo se todos nos abandonarem: Deus está presente. Ele não nos abandona. Nele podemos refugiar-nos e ele nos conduz pelo bom caminho.

No meio do seu medo, Davi dirige-se a Deus, buscando deliberadamente sua proximidade e seu consolo.

É isso que podemos praticar: voltar o nosso olhar para Jesus, o Autor e Consumador da nossa fé! Ao fazer isso, precisamos aprender a mudar o nosso modo de pensar. “Transformem-se pela renovação da sua mente” (Romanos 12.2). Por isso, é preciso cuidar o que e como nós pensamos, porque isso, afinal, determina nosso modo de pensar e agir.

Considerado de forma realista, o futuro pode não parecer propriamente róseo, mas, com Jesus Cristo ao nosso lado, temos sua maravilhosa promessa: “‘Eu sou o Alfa e o Ômega’, diz o Senhor Deus, ‘o que é, o que era e o que há de vir, o Todo-Poderoso’” (Apocalipse 1.8). Como filhos de Deus, não estamos à mercê do destino nem somos um joguete da natureza. Não, a nossa vida está nas mãos de Deus. Ele é o início e o fim, também da nossa vida. Ele é o Senhor – também sobre as nossas aflições e os nossos medos, e ele voltará.

É como diz um antigo verso: “Busque Jesus e sua luz, outra coisa não ajudará”. Como cristãos, temos um maravilhoso consolo e uma grandiosa esperança.

A promessa de Cristo

Em sua última celebração de Páscoa, antes de ser traído e negado e antes da terrível morte na cruz e do abandono por Deus, seu Pai, Jesus disse aos seus discípulos: “Eu disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições [medo]; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo” (João 16.33). Com isso, Cristo lembrou aos seus discípulos explicitamente os eventos e suas palavras que acompanharam aquela última ceia de Páscoa com eles. Jesus quer que sempre mantenhamos diante da nossa vista espiritual essas últimas horas antes da sua Paixão (cf. João 13–17).

Como o nosso Senhor sabe que somos seres humanos com medos, aflições, dúvidas e limitações, ele fez o seguinte com os seus discípulos: “Levantou-se da mesa, tirou sua capa e colocou uma toalha em volta da cintura. Depois disso, derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos seus discípulos, enxugando-os com a toalha que estava em sua cintura” (João 13.4-5).

O Senhor prestou aqui o serviço do escravo de última linha. Com isso, ele quer nos dizer: “Ainda que eu saiba quem você é e conheça sua debilidade, estou disposto a servi-lo, disposto a lavar os seus pés como o último dos escravos, dia após dia. Estou disposto a lavar dos seus pés a sujeira das ruas e a perdoar os seus erros e pecados”.

Ele manda nos dizer: “Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu teria dito a vocês. Vou preparar lugar para vocês. E, quando eu for e preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver” (João 14.2-3). Cristo deseja que olhemos para ele, em direção ao céu, que não fiquemos emperrados em nossos problemas, mas olhemos para cima, para o alvo, onde verdadeiramente estaremos em casa, sim, que permaneçamos na expectativa da sua vinda, contando com ela. Poderia ser hoje!

Cristo deseja que olhemos para ele, em direção ao céu, que não fiquemos emperrados em nossos problemas, mas olhemos para cima, para o alvo, onde verdadeiramente estaremos em casa.

Jesus Cristo habita em toda pessoa renascida por meio do seu Santo Espírito. Ele está presente e nunca mais irá embora: “E eu pedirei ao Pai, e ele dará a vocês outro Conselheiro para estar com vocês para sempre” (João 14.16; cf. v. 18). Só Deus mesmo pode proporcionar paz aos seus discípulos em meio ao medo: “Deixo a paz a vocês, a minha paz dou a vocês” (João 14.27).

Esta é uma paz dupla. Por um lado, paz com Deus porque a culpa está perdoada, o passado foi liquidado e o futuro repousa em sua mão. É a paz da qual lemos que “tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5.1).

Por outro lado, é a paz que Deus nos oferece vez após outra, mesmo nas situações mais difíceis da nossa vida. É a paz da qual Paulo diz: “Que a paz de Cristo seja o juiz em seu coração” (Cl 3.15). Foi essa a paz que Estêvão pôde experimentar ao enfrentar a morte (Atos 7), que permitiu a Pedro dormir tranquilamente na prisão (Atos 12) e que fez Paulo cantar na prisão (Atos 16).

Além disso, Jesus disse aos seus discípulos em meio ao medo: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda. Vocês já estão limpos, pela palavra que tenho falado. Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto se não permanecerem em mim. Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma” (João 15.1-5).

Conclusão

Podemos viver com ele. Ele cuida de nós. Ele assumiu a responsabilidade. O Pai é responsável pelo cuidado e a frutificação, e nós mesmos simplesmente podemos viver com Jesus.

Ao mesmo tempo, ele oferece a garantia de que chegaremos ao alvo se formos realmente filhos de Deus: “Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça” (João 15.16).

A permanência nele nada tem a ver com esforço. Trata-se antes de viver com ele ao longo do dia, de viver para ele, de contar com ele e de dirigir-se a ele – inclusive se levarmos algum tombo. É como Paulo diz: “Para mim o viver é Cristo” (Filipenses 1.21). É a vida que provém dele, da sua palavra na Bíblia, do contato com ele por meio da oração, da vida na força do Espírito Santo, que habita em nós (eu não consigo, mas ele, sim!).

Desejo a você tudo isso de coração. Ainda que vivamos neste mundo decaído, que você possa experimentar em meio a todo medo aquilo que o Senhor Jesus promete: “Tenham ânimo! Eu venci o mundo” (João 16.33).

Autor

  • Samuel Rindlisbacher nasceu em 1961 na Suíça e fez sua formação teológica na Internationale Bibelschule des Missionswerk Mitternachtsruf (IBMM) em Montevidéu, Uruguai. É colaborador da Chamada da Meia-Noite e ancião de sua igreja na Suíça, sendo fundamental no desenvolvimento do grande ministério de jovens dela. Casado com Eva, tem três filhos e uma filha.

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