Coração Contente

O ser humano costuma sempre desejar mais, possuindo um coração insatisfeito. É por isso que Paulo nos alerta quanto ao contentamento em Deus, sobre o qual podemos extrair três lições.

Há uma antiga fábula de um pescador que morava com sua esposa em um casebre na praia quando, certo dia, ele capturou um peixe mágico. O peixe falou com ele e prometeu que lhe daria o que quisesse se fosse liberto. Ele então desejou morar em um pequeno sítio no mesmo local.

Ao retornar, seu casebre se havia transformado em uma pequena mas confortável casa de campo. Sua esposa estava maravilhada; no entanto, quando o pescador lhe contou a razão daquele milagre, ela reclamou e disse: “Você deveria ter pedido mais! Eu quero uma mansão à beira-mar”.

Constrangido, o pescador voltou a falar com o peixe, que lhe concedeu a mansão. O conto continua com a esposa sempre desejando mais. Por fim, ela exige que o pescador peça ao peixe que ela controle o nascer e o pôr do sol. Desta vez, no entanto, o peixe não lhe concedeu o pedido, mas fez com que a morada do pescador voltasse a ser o pequeno casebre.

Um coração insatisfeito

O conto é simples, mas ilustra uma característica do coração humano: nossa constante insatisfação. Creio que todos nós já passamos pela experiência de se alegrar com um presente ou conquista e algum tempo depois desejar mais, talvez até desprezando a conquista anterior. 

A ganância é irmã gêmea da insatisfação. Ouvi certa vez uma entrevista com um dos homens mais ricos do Brasil, dono de um império industrial. Ao ser perguntado se ele era rico, ele sorriu e disse que ainda não. O repórter insistiu e perguntou quando ele se consideraria rico. Sua resposta ilustra essa realidade da insatisfação humana: “Quando eu tiver um pouco mais, sempre um pouco mais…”.

Um coração satisfeito

Lidando com isso, o Espírito Santo inspirou Paulo a escrever o seguinte texto em 1Timóteo 6.6-10:

“De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro,pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos. Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos.”

A passagem é muito preciosa, mas o ponto central é a palavra “contentamento” no versículo 6. O termo no original (autarkeia) é traduzida como “uma condição de vida ideal, em que nenhuma ajuda ou apoio são necessários” (Strong).

Desejo alistar três lições quanto a esse contentamento.

A primeira lição está na ligação que Paulo faz entre piedade e contentamento. Piedade é a devoção prática, é viver cultivando a presença e a comunhão com Deus. Na verdade, piedade é a base do contentamento, pois, sem piedade, o homem nunca está contente, mas sempre buscando mais.

Davi mostra essa postura piedosa em Salmos 16.2: “Ao Senhor declaro: Tu és o meu Senhor; não tenho bem nenhum além de ti”. À medida que Deus é meu único bem, estou contente com o restante que ele me confia, pois meu contentamento está na comunhão com ele!

A segunda lição está no versículo 8. O padrão apresentado por Paulo para o cristão é uma vida simples – embora vida simples possa ter várias interpretações. No entanto, o ensino aqui é que devemos estar satisfeitos tendo o básico. Essa lição é bem exemplifica no texto de Provérbios 30.8-9:

“Mantém longe de mim a falsidade e a mentira; não me dês nem pobreza nem riqueza; dá-me apenas o alimento necessário. Se não, tendo demais, eu te negaria e te deixaria, e diria: ‘Quem é o Senhor?’ Se eu ficasse pobre, poderia vir a roubar, desonrando assim o nome do meu Deus.”

Por fim, a terceira lição vem no versículo 10, na forma de um alerta do apóstolo Paulo. Repare que não é dinheiro, mas o amor pelo dinheiro que tem sido a causa da ruína de muitos. Não apenas a ruína pessoal e familiar, mas até mesmo do desvio da fé.

Conclusão

Não sei qual é a sua situação financeira, mas preciso terminar este texto citando as famosas palavras de Paulo em Filipenses 4.12: “Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade”.

Oro para que você e eu possamos afirmar o mesmo com coração sincero ao atravessarmos as várias fases da vida!

Autor

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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