Nem Todo Cristão É um Missionário

Todos os cristãos estão em uma missão de Deus. Contudo, isso quer dizes que somos todos missionários? Olhando para a igreja antiga, este artigo busca extrair importantes lições para o presente.

Uma das coisas que você frequentemente ouve os cristãos dizerem é que estamos todos em uma missão. Os crentes se juntaram a uma missão para salvar o mundo. Temos que nos envolver em uma vida missionária.

Em um nível básico, isso é verdade. Os cristãos estão, de fato, em uma missão de Deus. A palavra “missão” vem de um verbo em latim que significa “enviar”. E Jesus realmente nos enviou. Em Mateus 28.19-20, ele disse aos seus seguidores: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês”. Nenhum de nós está isento dessa Grande Comissão.

No entanto, isso não significa que somos todos missionários. Para que essa palavra signifique algo, ela não pode ser apenas equivalente a “um cristão”. Embora todos nós evangelizemos, nem todos vamos “por todo o mundo e preg[amos] o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). Alguns cristãos evangelizam permanecendo. Outros evangelizam indo. E nós deixamos de honrar a coragem daqueles que cruzam fronteiras difíceis quando aplicamos a palavra “missão” a todos nós. Nossos missionários que fazem sacrifícios excepcionais merecem ser honrados como um grupo distinto. Vamos dar aos missionários o seu devido valor – não para idolatrá-los, mas para que possamos glorificar ao Deus que os equipou e capacitou para a sua elevada vocação.

A igreja antiga compreendia que cada cristão é chamado para ser testemunha, mas nem todos são chamados para serem missionários. Essas palavras significam duas coisas diferentes, e apenas a segunda tem a conotação de ser enviado a algum outro lugar. Veja como Eusébio, o historiador da igreja, celebrou o trabalho dos missionários que

construíram os fundamentos das igrejas que haviam sido lançados pelos apóstolos em cada lugar, e pregaram o evangelho ainda mais amplamente, e espalharam as sementes salvadoras do reino dos céus por toda parte no mundo inteiro. […] Então, partindo em longas viagens, eles desempenharam o papel de evangelistas, cheios do desejo de pregar Cristo àqueles que ainda não tinham ouvido a palavra da fé, e de lhes entregar os divinos Evangelhos. E, quando haviam lançado os fundamentos da fé em lugares estrangeiros, nomearam outros como pastores, e confiaram-lhes o cuidado daqueles que haviam sido recentemente trazidos, enquanto eles próprios iam novamente para outros países e nações, com a graça e a assistência de Deus. Pois muitas obras maravilhosas foram feitas por eles pelo poder do Espírito divino, de modo que, ao primeiro ouvir [do Evangelho], multidões inteiras de homens abraçaram avidamente a religião do Criador do universo.[1]

Neste artigo, conheceremos alguns missionários como os que Eusébio tão eloquentemente descreveu. Também aprenderemos o que significa ser testemunha de Deus – um dever cristão que, às vezes, tem um custo. No entanto, devemos testemunhar, pois o evangelho é boa notícia para o mundo inteiro.

“Testemunhas oculares da sua majestade”

O apóstolo Pedro testemunhou algumas coisas impressionantes em sua vida. Como o quê? Seus pés se mantiveram firmes sobre a água (pelo menos por um momento). Pescas maravilhosas. Curas de cegos e coxos. A glória resplandecente de Jesus no alto de um monte. O sepulcro vazio com as roupas mortuárias deixadas de lado. O Cristo ressurreto ascendendo aos céus. O Santo Espírito descendo como línguas de fogo. E a salvação de milhares de almas. Pedro estava realmente falando por experiência própria quando disse: “Porque não lhes demos a conhecer o poder e a vinda do nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade” (2Pedro 1.16).

É porque Pedro viu o Senhor ressuscitado que ele pôde ser chamado de apóstolo. Essa palavra se refere àqueles que foram enviados por Jesus para dar testemunho do que tinham visto com seus próprios olhos. Apenas a primeira geração de cristãos poderia ser apóstolos, pois somente eles haviam testemunhado Jesus após a ressurreição. O apóstolo João disse isso nestes termos: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida” (1João 1.1).

Uma das ferramentas evangelísticas mais poderosas da igreja antiga era o martírio.

Com o tempo, a geração dos apóstolos que foram testemunhas oculares faleceu. No entanto, outros crentes fiéis continuaram de onde eles pararam. Esses pais e mães da igreja não tinham visto Jesus com seus próprios olhos. Contudo, eles tinham falado com aqueles que viram. Tinham recebido o testemunho apostólico. E, claro, tinham visto o poder de Jesus em sua vida. Embora não pudessem dar testemunho dos pregos nas mãos do Salvador, eles ainda podiam atestar o que seu Senhor havia feito por eles. Dessa forma, à medida que viajantes cristãos proclamavam seu encontro com Jesus por onde quer que fossem, a igreja começou a crescer.

Lições Esquecidas da Igreja Antiga

por Bryan M. Litfin

Ao longo de 30 lições, as crenças dos primeiros cristãos iluminarão a sua fé de uma maneira totalmente nova.

Além do evangelismo verbal, de que outra forma a igreja crescia? Uma das ferramentas evangelísticas mais poderosas da igreja antiga era o martírio. A palavra “mártir”, no grego, significa “testemunha”. Quando as pessoas morrem pelo que acreditam, elas testemunham que sua fé pode suportar o teste definitivo. As histórias dos mártires estão cheias de exemplos de pagãos que passaram a crer em Jesus por causa da coragem de um cristão – como Pudens, que recebeu o anel de ouro mergulhado no sangue de Saturus depois de este ter sido mutilado por um leopardo. Sempre que o sangue de um mártir é semeado na areia da arena, pode-se ter certeza de que uma abundante colheita de salvação está prestes a acontecer.

De testemunhas a missionários

Os primeiros movimentos missionários, de modo geral, permaneceram dentro do Império Romano. Quando consideramos quão vasto era o império, quão difícil era viajar dentro dele e quão amplamente pagão ele era, do oceano Atlântico ao rio Eufrates, temos uma noção da tarefa assustadora que a antiga igreja enfrentava. Mesmo assim, alguns evangelistas itinerantes assumiram o desafio. Logo, as cidades do império estavam ganhando igrejas como uma série de velas sendo acesas da chama original. Quando as línguas de fogo vieram sobre os discípulos no cenáculo, isso foi um presságio das grandes coisas que estavam por vir.

Muitas lendas antigas dizem que os doze apóstolos foram até os confins da terra. Embora isso não seja verdade – ou, pelo menos, não sabemos ao certo o que todos eles fizeram –, temos boas evidências de que pelo menos alguns deles realmente viajaram para muito longe.[2] Um exemplo é o apóstolo Tomé. Esse discípulo de Jesus é famoso por ter duvidado, mas, na verdade, foi um grande homem de fé que estava disposto a morrer com seu Senhor (João 11.16). Temos sólidas razões para acreditar que Tomé viajou para o leste de Jerusalém, pelo menos até Edessa, que ficava em uma terra estrangeira chamada Osroena. De lá, ele pode ter viajado para a terra que hoje conhecemos como Paquistão, ao longo do rio Indo. Ele também pode ter ido para a costa do Malabar, no sul da Índia, onde muitos cristãos ainda hoje veneram sua memória. Essas lendas plausíveis – embora não absolutamente indiscutíveis – sobre Tomé nos lembram de que, desde o princípio, a igreja antiga possuía um impulso missionário transcultural.

No século 4, as mudanças na estrutura da antiga igreja permitiram que os cristãos realizassem empreendimentos missionários ainda maiores. Um sistema foi implementado no qual todo o império foi dividido em “dioceses”, onde os bispos teriam a responsabilidade de evangelizar sua região local. Um exemplo desse processo é um monge chamado Martinho, que, em 372 d.C., tornou-se bispo de Tours, na França. Martinho percebeu que, embora os habitantes da cidade tivessem a chance de ouvir a palavra do evangelho de igrejas estabelecidas, o povo do campo ainda era resolutamente pagão. Assim, Martinho iniciou a estratégia de estabelecer monastérios como postos evangelísticos no campo e viajar regularmente para se encontrar com as pessoas comuns. Quando os camponeses viram a vida santa de seu bispo e perceberam quanto ele os amava, abandonaram em massa os antigos deuses e se converteram à fé em Cristo. Martinho de Tours foi um evangelista eficaz da igreja antiga.

Às vezes, Deus move as nações para lugares onde podem ouvir o evangelho em vez de enviar missionários a elas. Isso aconteceu com o povo germânico nômade chamado francos, que se estabeleceu na área que agora leva seu nome: França. Nenhum deles era cristão quando chegaram. Eles tinham deuses como Odin e Thor. Mas, então, Deus usou uma pessoa inesperada para converter o rei Clóvis dos francos ao cristianismo: sua esposa piedosa e temente a Deus, a rainha Clotilde.

No início, quando Clotilde testemunhou sobre Jesus, seu marido zombou dela. Essa zombaria continuou por vários anos. Mas, então, chegou o dia, no ano 496, em que Clóvis se viu perdendo uma grande batalha. Desesperado por ajuda divina, ele orou ao Deus de sua esposa com estas palavras: “Jesus Cristo, que Clotilde afirma ser o Filho do Deus vivo, do qual se diz ser capaz de prestar ajuda aos aflitos e conceder a vitória àqueles que esperam em ti, peço a glória de tua ajuda, com a promessa de que, se me concederes a vitória sobre esses inimigos […] crerei em ti e serei batizado em teu nome”.[3] É verdade que esta não é a típica oração de conversão! No entanto, foi assim que antigos guerreiros pagãos vieram a crer em Cristo. Clóvis venceu a batalha, foi batizado e estabeleceu um poderoso reino franco, com Paris como sua capital. Isso foi uma conversão verdadeira? Difícil dizer. Mas pelo menos agora o nome de Jesus estava sendo proclamado por toda a França em vez dos deuses sanguinários da guerra.

Missionário aos irlandeses

Embora muitos dos povos pagãos do norte da Europa tenham se deslocado para o Império Romano e encontrado o cristianismo lá, nem todos o fizeram. Um lugar que permaneceu em grande parte intocado pelo evangelho foi a Irlanda. Enquanto ainda era adolescente, na costa ocidental da Grã-Bretanha, Patrício foi sequestrado por invasores irlandeses e levado como escravo. Naquela ilha verde e solitária ao lado do interminável oceano Atlântico, o jovem cativo redescobriu sua fé em Cristo. Ele começou a fazer centenas de orações todos os dias e todas as noites. E, enquanto orava, o Espírito Santo sussurrava a Patrício que Deus não se havia esquecido dele.

Quer trabalhemos perto, quer longe, um desejo sincero de evangelizar marca cada coração tocado pelo evangelho.

Quando Patrício finalmente escapou de seus opressores, ele retornou à Grã-Bretanha. As coisas pareciam normais novamente. No entanto, Patrício relata que um homem lhe apareceu em sonho e lhe entregou uma carta chamada “O clamor dos irlandeses”. Ao lê-la, Patrício pôde ouvir seus antigos captores dizendo: “Nós te imploramos, santo jovem, vem e anda entre nós novamente”.[4] Ao acordar, ele percebeu que o Senhor o havia chamado para viver entre os irlandeses pelo resto de sua vida.

Retornando ao povo que o havia escravizado, Patrício corajosamente deu testemunho do evangelho. Suas palavras se enraizaram no coração do povo irlandês, e logo muitos haviam se convertido a Deus. Por volta do ano 460, a Irlanda havia sido amplamente cristianizada – tudo porque Deus acendeu a fogueira de seu amor no coração de um escravo adolescente.

Perto e longe

Quer trabalhemos perto, quer longe, um desejo sincero de evangelizar marca cada coração tocado pelo evangelho. Alguns de nós são chamados a fazê-lo localmente, como Martinho evangelizando os camponeses em Tours, ou a rainha Clotilde falando de Jesus para seu marido guerreiro. Outros são chamados a cruzar terras e mares, como Paulo indo para Roma e a Espanha, Tomé indo para a Índia, ou Patrício indo para a Irlanda. Essas pessoas têm uma missio especial, são “enviados” por Deus e pela sua igreja. Seus fardos são maiores do que os que a maioria de nós é chamada a carregar: a perda de relações familiares, a renda escassa, a dificuldade de aprender línguas estrangeiras e o estranhamento de viver em uma terra distante.

A igreja cristã tem uma grande dívida para com seus missionários, desde os tempos antigos até o presente. São esses corajosos atravessadores de fronteira que levam as boas novas de Jesus àqueles que ainda não a ouviram. Outros de nós são chamados a fincar raízes como o carvalho e a deixar cair nossos frutos ao alcance de nossos galhos. Juntos, conforme fazemos cada um a sua parte, as sementes do evangelho cairão na boa terra que Deus preparou, produzindo uma colheita de almas que durará até a eternidade.

“Os confins da terra se lembrarão do Senhor e a ele se converterão; diante dele se prostrarão todas as famílias das nações.” (Salmos 22.27)

Notas

  1. Eusébio, História eclesiástica 3.37.1-3.
  2. Para distinguir entre o que podemos realmente acreditar sobre o trabalho dos apóstolos e o que provavelmente é apenas ficção piedosa, veja meu livro Após Atos: Explorando as vidas e as lendas dos apóstolos (Rio de Janeiro: BV Books, 2018).
  3. Gregório de Tours, History of the Franks 2.30.
  4. Patrício, Confession 23.

Este artigo foi extraído e adaptado do livro Lições Esquecidas da Igreja Antiga, escrito por Bryan M. Litfin.

Autor

  • Bryan M. Litfin (Ph.D., University of Virginia) é professor de Bíblia e teologia na Liberty University. Especializado na história do cristianismo antigo, já escreveu diversos livros e artigos acadêmicos sobre o período patrístico. Litfin gosta de ensinar, fazer trilhas pelas montanhas e levar seus alunos em excursões às terras da história da igreja. Casado com Carolyn, tem dois filhos.

    Ver todos os posts

Artigos relacionados

Um estudo sobre Jonas 3.10–4.1, no qual o profeta nos mostra que é possível ignorar o óbvio em nossa caminhada...

Megido é uma cidade bastante mencionada no Antigo Testamento e situada na cordilheira do monte Carmelo. O que podemos aprender...

Nenhum tempo ou lugar nos separa da possibilidade de falar com Deus. Para encontrá-lo não há sala de espera em...