Muitos pregadores ou professores cristãos apresentam a mensagem enfatizando a lógica e a argumentação, mas também é preciso ter o cuidado de se conectar com o alvo da mensagem – assim como Cristo e Paulo fizeram.
Não é impressionante como pessoas se convencem de quase qualquer coisa?
Recentemente li sobre um caso real de uma senhora brasileira com aproximadamente 60 anos que emprestou dinheiro a quem ela pensava ser o ator americano Brad Pitt. O plano era que ele viesse para o Brasil, onde eles iriam se casar. É óbvio que quem tomou o dinheiro não era o Brad Pitt (que provavelmente nem precisa de dinheiro emprestado). A senhora então ficou sem dinheiro e sem seu “namorado”. Como uma mulher educada e mentalmente estável acredita em um golpe desses?
Persuasão segundo Aristóteles
Antes de julgarmos com muito rigor, vamos refletir que, embora esse caso seja extremo, muita gente tem caído em outros “golpes” – seja na área financeira, política ou religiosa; sejam políticos fazendo promessas claramente fantasiosas, líderes cristãos coletando ofertas para projetos inexistentes e romances com um homem casado que está “só esperando a hora certa para se divorciar”.
Neste ponto, é interessante pensar no antigo conceito de Aristóteles sobre persuasão. Segundo o filósofo, havia três elementos fundamentais para que uma persuasão fosse eficaz, pois um discurso eficaz não depende apenas de argumentos lógicos, mas sim do equilíbrio entre o caráter do orador (Ethos), a conexão emocional com o público (Pathos) e a razão do argumento (Logos).
Esta observação sobre persuasão não é necessariamente perversa. É simplesmente uma característica da mente humana, a qual pode ser usada para o bem ou para o mal.
O exemplo de Jesus
Ao estudarmos os discursos de Jesus, por exemplo, podemos observar estes mesmos elementos
- Nosso Mestre frequentemente contava histórias e parábolas que o ouvinte entendia e podia se conectar – pensemos na ovelha perdida, na moeda perdida e no filho perdido em Lucas 15.
- Ao mesmo tempo, ele se apresentava como Filho de Deus e operava milagres que lhe traziam credibilidade – relatos como a ressurreição de Lázaro em João 11; a multiplicação dos pães em Mateus 14 ou sua declaração em João 10.30: “Eu e o Pai somos um”.
- Por fim, ele apresentava argumentos lógicos, explicando a Palavra e a verdade com excelência – ao explicar para os discípulos a caminho de Emaús em Lucas 24.13-35.
Um desequilíbrio atual
O que observo com preocupação é que pregadores conservadores, em sua maioria, utilizam muito o elemento da lógica e da argumentação.
Houve um tempo em que pregadores em geral gozavam de boa reputação diante da população (hoje em dia é quase o contrário). As pessoas normalmente desconfiam de pastores e líderes religiosos. Além disso, muitas de nossas pregações não conectam com o mundo ao redor, o que faz com que as verdades logicamente apresentadas caiam em terreno árido que não acredita em quem proclama, não percebe que o conteúdo apresentado tem qualquer relação consigo e, portanto, a argumentação – por melhor que seja – é tacitamente rejeitada.

O exemplo de Paulo
Basta olharmos o exemplo do apóstolo Paulo em Atenas (Atos 17.16-34) para observar como ele procurou se conectar com os ouvintes sem abrir mão de apresentar a verdade. Aliás, seu discurso aparentemente foi rejeitado pela maioria (Atos 17.32-34). Logo, conectar-se com o ouvinte não é garantia de que nosso discurso será aceito. Uma pessoa só aceita a verdade sobre si e sobre Cristo por meio da ação do Espírito Santo (Atos 16.14).
Uma outra passagem que contribui para a necessidade de estabelecer um contato com os ouvintes é a passagem de 1Coríntios 9.21-23:
“Porque, embora seja livre de todos, fiz-me escravo de todos, para ganhar o maior número possível de pessoas. Tornei-me judeu para os judeus, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da Lei, tornei-me como se estivesse sujeito à Lei (embora eu mesmo não esteja debaixo da Lei), a fim de ganhar os que estão debaixo da Lei. Para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei (embora não esteja livre da lei de Deus, e sim sob a lei de Cristo), a fim de ganhar os que não têm a Lei. Para com os fracos tornei-me fraco, para ganhar os fracos. Tornei-me tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns. Faço tudo isso por causa do evangelho, para ser co-participante dele.”
Repare que Paulo não está afirmando que vai adaptar a verdade. Ele, no entanto, se torna como um de seus ouvintes, ou seja, se coloca no lugar deles. Ele procura compartilhar de sua perspectiva e, a partir do momento em que seus ouvintes prestam atenção, lhes apresenta a verdade.
Conclusão
Nosso chamado é para fazer discípulos de Cristo (Mateus 28.19-20). Minha oração é que façamos como Paulo: “Tornei-me tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns”.
Autor
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Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.
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