Daniel e o Fim dos Governantes Perversos

O que podemos aprender com o profeta Daniel acerca do fim dos tempos e quais são os aspectos centrais da sua mensagem?

Jamais vi uma Bíblia infantil que não incluísse a história de “Daniel na cova dos leões”… bem ao lado de “Jonas e o grande peixe”. O livro de Daniel também nos apresenta a visão da “mão escrevendo na parede”, um sinal que adverte sobre uma ruína iminente (veja 5.5). E muitos frequentadores de igreja se lembram dos três amigos de Daniel – Sadraque, Mesaque e Abede-Nego – que sobreviveram à provação de sua fé na fornalha de fogo ardente (3.1-30).

Além dessas histórias muito conhecidas, esse livro contém inúmeros pilares que apoiam uma doutrina bíblica do fim dos tempos; é praticamente impossível não valorizar o papel do livro de Daniel no estudo escatológico. O Novo Testamento lança mão de suas dramáticas visões apocalípticas como cruciais para a compreensão do reino vindouro de Cristo (veja, p. ex., Daniel  7.13; Apocalipse 1.7; tb. Daniel  9.2; 11.31; 12.11; Mateus 24.15-16). E aqueles que estudam a profecia do fim dos tempos debruçam-se, à exaustão, sobre esse livro como uma chave para entender o calendário bíblico da história passada e dos eventos futuros. Tudo isso é o que podemos esperar no que tange à interpretação de visões tão incríveis que assombram e surpreendem até mesmo a sua testemunha original (8.15,27).

A estátua de Nabucodonosor (Daniel  2)

Certa noite, o rei da Babilônia, Nabucodonosor (c. 605-562 a.C.), sonhou com uma estátua gigante cuja cabeça era de ouro, os braços e o peito de prata, o ventre e os quadris de bronze, as pernas de ferro e os pés de ferro misturado com barro (2.31-33). Toda a estátua foi partida em pedaços por uma enorme pedra que a destruiu de uma vez por todas (v. 34-35). Então, a pedra se tornou grande e encheu toda a terra (v. 35).

Daniel interpretou o sonho do rei, indicando a sequência de quatro reinados gentios sucessivos, iniciando com a própria Babilônia – a cabeça de ouro (v. 36-38). O resto do sonho ainda estava por acontecer, após os dias do rei babilônio, embora as quatro partes tenham se cumprido ao longo da história: o Império Medo-Persa sucedeu o Império Babilônico (c. 539-331 a.C.); a seguir, veio o Império Grego sob Alexandre, o Grande (331-63 a.C.); e, então, o Império Romano, durando de 63 a.C. até aproximadamente 476 d.C., já durante o período cristão.

Embora essa identificação tenha sido bem estabelecida entre os intérpretes cristãos, o significado exato da grande pedra que destrói a estátua tem recebido compreensões variadas. Daniel afirmou a respeito desse símbolo:

“Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que jamais será destruído e que não passará a outro povo. Esse reino despedaçará e consumirá todos esses outros reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre.” (v. 44)

Essa passagem certamente é referente ao estabelecimento do reino de Deus, mas será que diz respeito à segunda vinda de Cristo, como Juiz e Rei, para estabelecer um reino terrestre (pré-milenarista)? Ou refere-se ao estabelecimento do reino espiritual e eterno de Cristo, quando ele tomará o seu trono na ascensão e estabelecerá o seu reino por meio da sua igreja (amilenarista)? Ou, talvez, o crescimento de uma pequena pedra até se tornar uma montanha que encha toda a terra (v. 35) indique um cumprimento pós-milenarista, no qual Deus, lenta, porém seguramente, estabelecerá o seu reino na terra quando o evangelho for pregado e as nações forem convertidas?

Que o reino celestial de Deus, um dia, conquistará todos os poderes humanos, ninguém contesta. Como e quando isso ocorrerá é o que tem sido motivo de discussões.

Explorando a Teologia Cristã: Igreja, Santificação e Escatologia

editado por Nathan D. Holsteen e Michael J. Svigel

O terceiro volume da trilogia traz os fundamentos das doutrinas da igreja, da vida cristã e do fim dos tempos de uma forma concisa e acessível, revelando perigos a evitar, fornecendo um panorama histórico das doutrinas, aplicações práticas e mais.

As quatro feras (Daniel  7)

Muitos anos após o sonho de Nabucodonosor, o profeta Daniel teve a sua própria visão noturna sobre uma sucessão dos impérios mundiais que terminaria com o estabelecimento do reino de Deus. Aqueles que compreenderam o sonho da estátua formada de quatro metais (Daniel  2) conforme explanado na seção anterior, quase sempre entendem a visão das quatro feras ou animais (Daniel  7) da mesma maneira:

No entanto, a visão de Daniel acrescenta muito mais detalhes sobre a derrocada final do governo mundial e o estabelecimento do reino divino. Duas figuras, no fim, desenrolam papéis particularmente proeminentes – o “chifre, pequeno” (7.8) e o “filho do homem” (v. 13). O primeiro, simbolicamente representado por um chifre de pequena dimensão na cabeça do quarto animal, possuía “olhos, como olhos de ser humano, e uma boca que falava com arrogância” (v. 8). Interpretado como um governante mundial que surge do império final, esse homem irá guerrear contra os santos por breve período; por fim, o reino de Deus irá destruí-lo (v. 21-22). Esse tipo de ditador ímpio, blasfemo e perseguidor é conhecido como o Anticristo, e seus feitos são descritos em outras passagens da Escritura – talvez no Antigo Testamento (veja Daniel  9.27; 11.36-45) e diretamente no Novo Testamento (veja 2Tessalonicenses 2.3-12; Apocalipse 13.1-10).

A segunda figura, representada como alguém que vem “com as nuvens do céu”, que se dirigiu ao trono de Deus, é chamado “alguém como um filho do homem” (Daniel  7.13). O seu destino revela que trata-se de uma profecia do Antigo Testamento sobre a vinda do Messias (v. 14):

“Foi-lhe dado o domínio, a glória e o reino, para que as pessoas de todos os povos, nações e línguas o servissem. O seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído.”

Durante o seu ministério terreno, Jesus frequentemente identificou-se como o Filho do Homem, que viria e receberia o reino de Deus no fim dos tempos (veja, p. ex., Mateus 8.20; 9.6; 12.32,40; 13.41; 16.27; 19.28; 24.30; 25.31; 26.64). Esse mesmo título e imagem aparecem novamente em Apocalipse 1.13 e 14.14.

Portanto, em Daniel 7 estamos olhando não apenas para o desenrolar do drama das nações em suas fúteis tentativas de manter o domínio global sem Deus, como também vemos o resultado final desse conflito: a derrota do Anticristo pelo poder do Filho do Homem.

O fim dos dias (Daniel  9–12)

Provavelmente, seria possível passar o resto de seus dias estudando os capítulos 9-12 do livro de Daniel e ainda permanecer com incontáveis questões sem resposta. Esses capítulos mesclam visões incríveis, profecias meticulosas, interpretações enigmáticas e detalhes confusos a respeito de coisas que aparentemente chegarão a uma viabilização plena “ao fim dos dias” (12.13). Alguns comentaristas simplesmente interpretam as profecias à luz da estátua, no capítulo 2, e dos animais, no capítulo 7. Outros enxergam a maioria dos elementos no capítulo 11 como um relato, passo a passo, da história de Israel – todavia, ainda uma história futura em relação ao tempo das profecias, escritas séculos antes de Cristo – debaixo de sucessores de Alexandre, o Grande, em especial de Antíoco IV Epifânio (no poder entre 175 e 164 a.C.), que castigou impiedosamente o povo judeu na Palestina.

As designações para períodos como “um tempo, tempos e metade de um tempo” (7.25) estão presentes em discussões do Novo Testamento sobre o fim dos tempos (Apocalipse 11.2; 12.14; 13.5). Da mesma forma, há uma indicação muito precoce e clara a respeito de uma ressurreição corporal, tanto de justos quanto de ímpios, em Daniel 12.2.

Conclusão

Não importa como – ou mesmo se – compreendemos essas visões, o fato é que essas porções proféticas de Daniel apontam para mais verdades centrais. Como meros mortais levados para um lado e para o outro pelos eventos importantes ao longo da história, podemos descansar na verdade de que todos os eventos – passados, presentes e futuros – estão nas mãos de Deus. Talvez, em lugar de se tornarem obsessivas sobre quando e como esses eventos ocorrerão, as pessoas deveriam viver com sabedoria e esperança por causa da promessa da vinda de Cristo e da nossa própria ressurreição futura. Devemos confiar em que Deus cuidará dos detalhes que conduzirão a esses eventos culminantes, em conformidade com seu abrangente e perfeito plano.

Este artigo foi extraído e adaptado do livro Explorando a Teologia Cristã: Igreja, Santificação e Escatologia, editado por Nathan D. Holsteen e Michael J. Svigel.

Autor

  • Michael J. Svigel (Th.M., Ph.D., Dallas Theological Seminary) é professor de teologia sistemática e teologia histórica no Dallas Theological Seminary. Sua paixão por uma teologia e vida cristocêntricas é acompanhada por humor, música e escrita. Seus livros e artigos abrangem desde estudos crítico-textuais até ficção juvenil. Ele e sua esposa, Stephanie, têm três filhos: Sophie, Lucas e Nathan.

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