Gramática das Disciplinas Espirituais: Ritmo

Esta série apresenta cinco termos que caracterizam a vida devocional demonstrada ou recomendada na Bíblia. O quinto é “ritmo”.

O aspecto final da nossa gramática das disciplinas espirituais é o ritmo. Tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos, a vida do povo de Deus era moldada por um conjunto específico de ritmos. Havia para eles um ritmo diário, um ritmo semanal e um ritmo anual. Diariamente, a vida deles era marcada por orações e recitações em horários marcados. Todo israelita piedoso recitava o Shema pelo menos duas vezes por dia, quando o dia começava e quando terminava: “Escute, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Portanto, ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força” (Deuteronômio 6.4-5). Semanalmente, a vida do povo de Deus era marcada por padrões preestabelecidos de trabalho, descanso e adoração. O ritmo de vida semanal de Israel era diferente do mundo em torno deles, uma vez que viviam segundo o relato de trabalho e descanso de Deus na narrativa bíblica da Criação. Anualmente, a vida dos fiéis do Antigo Testamento era moldada pela convivência com as histórias dos poderosos feitos de Deus nas grandes festas que comemoravam sua obra salvadora no êxodo do Egito, na lei do Sinai, na provisão milagrosa no deserto e na provisão contínua demonstrada pelas primícias da colheita anual. Esse calendário litúrgico de Israel era um conjunto de ritmos comunitários e encarnados de lembrança.

Nos primeiros séculos da era cristã, esses ritmos de dia, semana e ano começaram a tomar um caráter distintamente cristão. Com o tempo, a récita diária do Shema foi substituída pela oração diária do Pai-nosso. A jovem igreja acabou mudando o seu dia de descanso e adoração para o primeiro dia da semana, para comemorar a nova criação que começava com a ressurreição de Cristo na primeira Páscoa. As grandes festas do calendário judaico foram substituídas pelas épocas do Advento, da Epifania, da Quaresma, da Páscoa e do Pentecostes – ritmos de lembrança centrados na história da vida de Jesus e dos poderosos feitos salvíficos de Deus por meio dele.

O ritmo de vida semanal de Israel era diferente do mundo em torno deles, uma vez que viviam segundo o relato de trabalho e descanso de Deus na narrativa bíblica da Criação.

Hoje em dia, muitos cristãos sofrem de uma espécie de “arritmia coletiva”.[1] Damos tanto valor à liberdade e à espontaneidade que perdemos a rica importância formativa do ritmo e do ritual. Isso é agravado pelo fato de que muitas pessoas que cresceram em tradições cristãs que mantinham os ritmos eclesiásticos históricos sofreram com a desconexão entre ritual e significado. Conheço muitos cristãos que somente bem mais tarde na vida conseguiram entender e apreciar a riqueza dos rituais dos quais participavam em sua juventude. E sei de muitos outros que agora não querem nem saber de rituais formais justamente porque lhes pareciam sem vida.

Jesus alertou contra o vazio do que a Nova Almeida Atualizada chama de “vãs repetições” (Mateus 6.7). Infelizmente, porém, isso fez que muitos cristãos evangélicos pensem que toda repetição é uma repetição vã. Parte do aprendizado e formação humanos vem da participação em práticas repetidas que formam hábitos profundamente entranhados em nossos ossos. Como disseram Stanley Hauerwas e William Willimon:

A maioria das coisas realmente importantes que fazemos na vida são feitas por hábito. Comemos, dormimos, temos relações sexuais, cumprimentamos, abraçamos nossos filhos por hábito. Algumas coisas na vida são difíceis demais para ficarem por conta do desejo espontâneo – coisas como dizer às pessoas que amamos ou orar a Deus. Assim fazemos essas coisas “por hábito”. Assim, na igreja em geral fazemos sempre as mesmas coisas, semana após semana, contando as mesmas histórias e cantando os mesmos cânticos.[2]

Nem todas as repetições são vãs. O problema a que Jesus se referia era a disposição do coração. No Antigo Testamento, as pessoas deviam participar de ritmos formativos diários, semanais e anuais com um coração cheio de gratidão e expectativa. Esses mesmos ritmos formativos moldaram e sustentaram a vida de Jesus e de seus primeiros seguidores. Com o tempo, ritmos específicos se adaptaram e passaram a centrar-se na pessoa e obra de Jesus. Mas a forma de Deus moldar e sustentar a vida de seu povo sempre foi por meio de formação mediante ritmo.

Habitar com Deus

por Barry D. Jones

Neste livro, o pastor Barry Jones compartilha sua visão de uma espiritualidade cristã autêntica, que transforma a forma como vivemos no contexto específico no qual Deus nos inseriu.

As disciplinas da vida cristã nos foram recomendadas na Escritura e transmitidas a nós ao longo da história da igreja. Elas não são recursos pelos quais realizamos nossa própria obra de transformação, mas meios pelos quais nos colocamos diante do Espírito e permitimos que ele faça sua obra em nós. Os próximos capítulos apontam para um punhado de disciplinas selecionadas que nutrem e sustentam nossa vida com Deus para o mundo. No entanto, vamos começar pelo começo, com a prática que ocupa a posição mais destacada: a prática da oração.

Notas

  1. Devo essa expressão à minha amiga e ex-colega Markene Meyer.
  2. Stanley Hauerwas e William Willimon, Lord, Teach Us: The Lord’s Prayer and the Christian Life (Nashville: Abingdon, 1996), p. 18.

Este artigo foi extraído e adaptado do livro Habitar com Deus: Um testemunho para o mundo, escrito por Barry D. Jones.

Autor

  • Barry D. Jones (Ph.D., Wheaton College) atualmente serve como pastor sênior da Irving Bible Church, no Texas (EUA). Além disso, passou três anos como professor no programa de formação espiritual do Dallas Theological Seminary. Suas paixões são ensinar as Escrituras, fazer discípulos e treinar futuros líderes que estejam profundamente enraizados em sua fé e vitalmente engajados no mundo ao seu redor. Casado com Kim, tem três filhos.

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