O Desafio do Discipulado: Morrer para Viver

O que significa discipulado e como ele é totalmente diferente do que o mundo e sua cultura pregam e incentivam? De que forma devemos entender esse desafio diário na caminhada com Cristo?

Tendo o privilégio de acompanhar de perto o dia a dia de uma maratonista, devo confessar minha admiração por atletas sérios. Um atleta sério não é aquele que joga um futebolzinho uma vez por semana. Não é aquele que só se exercita quando está disposto.

Um atleta sério é que aquele que constrói sua vida em torno de seus exercícios. Ele ou ela não só se esforçam na prática do esporte, mas, talvez mais importante, deixam de lado várias outras coisas que gostariam de fazer, se envolver ou aproveitar. Minha esposa, por exemplo, mantém há anos uma dieta regrada: não ingere refrigerante, limita o consumo de açúcar e come carboidratos somente na hora certa. Isso não significa que ela não goste de refrigerante, doces ou carboidratos. Ela, assim como qualquer atleta minimamente sério, deixa de fazer ou aproveitar algo de que gosta para obter algo que realmente deseja.

A realidade do discipulado

Diante disso, sou imediatamente levado a fazer uma comparação com a realidade do discipulado. Discipulado significa, em seu sentido mais amplo, seguir a Jesus. E o próprio Jesus apresenta aquilo que significa segui-lo: “Então Jesus disse aos seus discípulos: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16.24).

Seguir a Jesus exige que deixemos algo para trás. Para um atleta pode ser descanso, conforto ou algum alimento favorito, mas para nós, cristãos, o desafio é deixar para trás a própria vida. Tal compreensão é diametralmente oposta aos fundamentos do pensamento contemporâneo. Os “gurus” modernos nos desafiam a sermos “fiéis a nós mesmos”. Negar-se a si mesmo é visto como um desvio, uma patologia (quando autoinfligida) ou opressão/abuso (quando proposta por outros).

O desafio do discipulado

Dietrich Bonhoeffer, o conhecido pastor luterano morto durante o regime nazista, escreveu de forma suscinta e direta: “Quando Cristo chama um homem, ele o ordena a vir e morrer”.[1] Este chamado para morrer também é evidenciado pela afirmativa do apóstolo Paulo em Gálatas 2.19-20:

Pois, por meio da Lei eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.

A mesma ideia é descrita no relato de Paulo sobre o significado do batismo em Romanos 6.2-4:

Nós, os que morremos para o pecado, como podemos continuar vivendo nele? Ou vocês não sabem que todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados em sua morte? Portanto, fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova.

Repetidamente o seguir a Jesus, a vida cristã, inicia com uma identificação com a própria morte. Por um lado, isso é devido ao alerta de Deus no Éden, de que todo aquele que comesse do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal morreria (Gênesis 2.17). Por outro lado, o pecado pode ser comparado com uma doença incurável. Uma vez que pecamos, tornamo-nos espiritualmente mortos. A vida verdadeira só é possível por meio da regeneração realizada pelo Espírito (Tito 3.5).

Os textos bíblicos se multiplicam quando se examina esse tema do morrer para ganhar uma nova vida. Trata-se de uma realidade fundamental da nossa salvação. Desta forma, salvação nunca é de graça, sem custo. Ela custa, aos que dela tomam posse, sua vida anterior; e, ao autor da nossa salvação, ela custou todo o seu sofrimento na cruz.

Conclusão

Desta forma, fica diante de você e de mim o desafio do discipulado: negarmos a nós mesmos, nossas preferências, prazeres, estratégias de vida e mesmo perspectivas diante do mundo, para ganharmos uma nova vida por meio da obra de Cristo. Minha oração é que nós possamos diariamente tomar a decisão de morrer para viver!

Nota

  1. Dietrich Bonhoeffer, Discipulado (São Leopoldo, RS: Editora Sinodal, 1984), p. 44.

Autor

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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