Existem boas razões para crermos que Deus reinará durante mil anos na terra após o seu retorno durante o aprisionamento de Satanás, conforme lemos em Apocalipse 20?
A posição pré-milenarista prevê que Jesus retornará à terra por ocasião da sua segunda vinda antes de estabelecer literalmente um reinado milenar sobre a terra. Essa doutrina presume que o reinado milenar de Cristo ocorrerá numa época futura e que Satanás estará preso durante esse período de mil anos, conforme diz Apocalipse 20.1-9.
Assim como os defensores de outras posições escatológicas, os pré-milenaristas creem que Deus é soberano e que reina sobre todas as coisas em todos os momentos – inclusive agora.
O pré-milenarismo foi o ensino predominante entre os primeiros pais da igreja: Inácio, Policarpo, Tertuliano, Clemente de Roma, Barnabé e Justino Mártir. Assim como os defensores de outras posições escatológicas, os pré-milenaristas creem que Deus é soberano e que reina sobre todas as coisas em todos os momentos – inclusive agora (Salmos 115.3). Todavia, a diferença consiste em que o pré-milenarismo diferencia claramente entre o tipo e a extensãodo domínio de Jesus na era presente e o seu domínio durante o futuro reino milenar. Naquele dia, o domínio de Cristo será mundialmente abrangente, justo e claramente visível.
Por que o pré-milenarismo?
Há várias razões, com base na Escritura, que apoiam essa visão. Considere que a forma como você entende e interpreta os mil anos em Apocalipse 20 depende de como você entende e interpreta o restante do livro. Assim como se anda por uma rua que leva a um determinado local, a sua hermenêutica (o método interpretativo) conduzirá a uma determinada compreensão geral da Bíblia. Em outras palavras: o seu ponto inicial determinará onde ou como você terminará.

De minha parte, considero o método interpretativo literal, gramatical, histórico, cultural e contextual como o mais eficaz e preciso. É assim que a Bíblia deveria ser interpretada e entendida, e esta é a forma pela qual os defensores das outras duas posições milenares interpretam as profecias sobre a primeira vinda de Jesus. Com esse método, qualquer crente diligente pode captar o significado da Escritura Sagrada de Gênesis até Apocalipse – o que também inclui o que ela ensina sobre o reino milenar.
Considerando isso, apresento aqui sete motivos pelos quais creio que a segunda vinda de Jesus precederá o reino milenar.
1. O pré-milenarismo combina com as promessas que Deus fez a Abraão e Davi
Deus celebrou uma aliança particular com esses dois homens, incluindo ali promessas concretas:
Abraão recebeu a promessa de que seria o pai de uma grande nação (Gênesis 12.2). Essa promessa se cumpriu de fato, uma vez que ele gerou a nação de Israel.
Deus prometeu a Abraão que o abençoaria e que por meio dele todas as nações seriam abençoadas (Gênesis 12.3). Essa promessa também foi cumprida por Jesus em sua morte sacrifical na cruz.
Abraão e seu descendentes receberam uma terra bem definida (Gênesis 12.1; 15.18-21). O rei Salomão se aproximou do cumprimento dessa profecia, embora nunca tenha chegado a reinar sobre toda aquela terra que Deus prometera a Abraão. Com efeito, Israel ainda não alcançou essas fronteiras da terra prometida. Portanto, essa profecia ainda precisa ser cumprida – e isso ocorrerá durante o milênio.
Deus disse a Davi que o seu “descendente” reinaria para sempre no seu trono (2Samuel 7.12-16). Nesses versículos ocorre três vezes a expressão “para sempre” a fim de enfatizar a realidade da promessa. Essa promessa sobre Cristo, que consta em Mateus 19.28, Lucas 1.31-33 e Atos 1.6-7, também não se cumpriu ainda. Atualmente, Jesus não reina a partir do trono de Davi (Hebreus 12.2). Todavia, quando retornar, ele assumirá seu lugar de direito nesse trono (Atos 15.15-18).
2. O pré-milenarismo é coerente com a ressurreição de Apocalipse 20.1-6 (“e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos”)
A palavra traduzida por “ressurreição” (gr. anastasis) ocorre 41 vezes no Novo Testamento e sempre se refere a uma ressurreição física literal. Não faria sentido uma ressurreição de santos da tribulação para então reinarem com Cristo em uma espécie de reino simbólico e espiritual de duração indeterminada. E por que os descrentes que tivessem morrido durante a tribulação ressuscitariam fisicamente após um período milenar simbólico para serem julgados? Se a ressurreição e os julgamentos forem literais, segue-se que isto também se aplicará ao milênio.
3. O pré-milenarismo foi a opinião predominante da igreja primitiva e também permaneceu assim durante os primeiros 300 anos da história da igreja
Eis alguns dos antigos pais da igreja que defendiam essa opinião:
- Pápias (c. 60-130 d.C.), bispo de Hierápolis, um companheiro de Policarpo e discípulo do apóstolo João, afirmava que os apóstolos André, Pedro, Filipe, Tomé, Tiago e Mateus também defendiam a posição pré-milenarista.
- Inácio (m. 108 d.C.), bispo de Antioquia no século 1.
- Policarpo (69-155 d.C.), discípulo do apóstolo João.
- Justino Mártir (c. 100-165 d.C.) menciona em seu Diálogo com Trifo o reinado milenar de Cristo.
- Ireneu (c. 130-202 d.C.), bispo de Lião, foi discípulo de Policarpo.
A ideia amilenarista somente ganhou importância quando Agostinho (sécs. 4-5 d.C.) espiritualizou o reino. Até aquele momento, essa noção andava ligada a abordagens heréticas e não literais da interpretação da Bíblia.

4. A primeira vinda de Jesus Cristo à terra não foi simbólica ou espiritual, mas concreta
Como as profecias sobre a primeira vinda de Cristo se cumpriram literalmente, não há razão impositiva para as profecias sobre o seu retorno e reinado milenar também não se cumprirem literalmente, já que a Escritura Sagrada parece registrar isso inequivocamente (Isaías 2.3; Daniel 7.14; Zacarias 14.4,9; Apocalipse 19.11-21; 20.2,4).
5. O pré-milenarismo tem o apoio da leitura mais simples e natural das profecias de Apocalipse
Por isso, temos duas possibilidades: ou o retorno de Jesus, seu futuro reinado na terra, o julgamento diante do grande trono branco e a eternidade são literais e reais, ou são simbólicos ou ocorrem em um mundo espiritual invisível. No entanto, é problemático interpretar a profecia de Apocalipse como verdade espiritual abstrata. Segundo diz João em Apocalipse 1.7, “todo olho o verá” quando ele retornar. Olhos físicos verão um retorno físico, e um retorno concreto conduz lógica e naturalmente a um milênio físico e literal. Além disso, Apocalipse 5.10 diz que os santos no céu “reinarão sobre a terra” – literalmente.
6. O pré-milenarismo é coerente com a prisão de Satanás
Em Apocalipse 20.1-3, João fornece detalhes precisos sobre a prisão de Satanás. Se ela fosse apenas metafórica, isso anularia todo o sentido do que se diz ali. Portanto, é preciso que essa prisão seja real. João, que ao redigir a Escritura Sagrada foi inspirado pelo Espírito Santo, escolheu cuidadosamente suas palavras. Ele descreve objetos, ações e locais específicos, e até fornece uma sequência detalhada: “anjo”, “mão”, “chave”, “abismo”, “corrente”, “segurou”, “prendeu”, “mil anos”, “lançou”, “fechou”, “selo”.
A crença de que o Diabo esteja amarrado atualmente durante o chamado reinado milenar espiritual de Jesus é insustentável. Basta observar o mundo. Satanás continua agindo em nosso planeta. Ele ainda é “o deus deste mundo” que “cegou o entendimento” (2Coríntios 4.4), e para os descrentes continua sendo o “príncipe da potestade do ar” (Efésios 2.2). Ele ainda é aquele que “sedu[z] todo o mundo” (Apocalipse 12.9) e que aparece como o nosso maior “inimigo” (1Pedro 5.8). Há, porém, uma condição em que ele definitivamente não está: “preso” ou “amarrado”.
7. O pré-milenarismo aplica uma abordagem simples, literal e gramatical na interpretação de Apocalipse
É verdade que João utiliza expressões que se referem a períodos genéricos e indefinidos em Apocalipse, tais como “ainda por pouco tempo” (Apocalipse 6.11), “pouco tempo” (Apocalipse 12.12) e “um pouco de tempo” (Apocalipse 20.3). Nesses casos, Deus não é concreto.
Todas as visões devem ser comparadas e avaliadas com base nas Escrituras Sagradas, o que ajuda a eliminar confusões, nos mantém informados e nos dá confiança no que acreditamos.
Mas se o número de mil anos, repetido seis vezes em sete versículos (Apocalipse 20.1-7), não deve ser interpretado literalmente, por que então Deus o repete insistentemente? Por que ele não diz simplesmente “um longo período”? Por que o Senhor repete constantemente um determinado número se ele poderia ter utilizado outros termos para indicar um período indefinido? Assumir o número mil literalmente é lógico se considerarmos outros números que João cita com precisão: “cento e quarenta e quatro mil” (Apocalipse 7.4; 14.1), “duas testemunhas” (Apocalipse 11.3), “vinte mil vezes dez milhares” (Apocalipse 9.16), “mil duzentos e sessenta dias” (Apocalipse 11.3; 12.6), “sete mil pessoas” (Apocalipse 11.13), “dez chifres” e “sete cabeças” (Apocalipse 13.1), “o terceiro [anjo]” (Apocalipse 14.9). Por que lançar mão de números definidos para transmitir noções vagas e simbólicas? Por que Deus não teria dito simplesmente o que queria? E por que não creríamos nele? Interpretar esses números simbolicamente só conduz a especulações e confusão.
Conclusão
Para mim, essas são sete razões convincentes pelas quais a visão pré-milenarista é a que melhor se encaixa na doutrina da Bíblia. Com isso, não pretendo menosprezar aqueles que defendem outras visões. Todas as visões devem ser comparadas e avaliadas com base nas Escrituras Sagradas, o que ajuda a eliminar confusões, nos mantém informados e nos dá confiança no que acreditamos. Tanto o Antigo como o Novo Testamentos falam de um futuro reino literal (Salmos 2.9; Isaías 9.6; Zacarias 14.9), embora seja apenas no livro de Apocalipse que ficamos sabendo que ele durará mil anos.
Autor
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Jeff Kinley (Th.M., Dallas Theological Seminary) já escreveu mais de 30 livros e é convidado para falar em diversas igrejas e conferências. Seu ministério equipa igrejas e cristãos a fim de que possam discernir os tempos e viver com confiança. Seu podcast semanal, Vintage Truth, é escutado em mais de 70 países. Também é um dos apresentadores do podcast The Prophecy Pros. Ele e sua esposa vivem em Little Rock, Arkansas, e têm três filhos adultos. Seu site é jeffkinley.com.
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