O Rio Jordão: Sua Importância e Simbologia

O rio Jordão é uma fronteira significativa e uma demonstração do poder de Deus.

O rio Jordão se estende para o sul desde o monte Hermom (na fronteira que separa a Síria e o Líbano), passando pelo norte de Israel até o mar da Galileia (lago Tiberíades). Do mar, o Jordão flui na direção sul e, finalmente, desemboca no mar Morto.

Embora o rio Jordão tenha mais de 350 quilômetros de comprimento, a distância real entre sua nascente principal, na base do monte Hermom (de onde é alimentado pela neve derretida), e o mar Morto é inferior a 200 quilômetros. Margens tempestuosas e inundações podem fazer com que a largura do Jordão em certas áreas aumente em um a três quilômetros.

O nome “Jordão” vem da palavra hebraica yardên, da raiz yārad, que significa “descer”, o que o rio certamente faz. Originalmente, os gregos chamavam o Jordão de “Aulon”, embora o nome árabe, “Nahr Al Sharieat” (local onde se rega) se tornou mais popular depois das cruzadas. O rio Jordão é o curso perene mais longo em Israel. Devido à sua enorme extensão e sua localização primária, ele é mencionado quase duzentas vezes na Bíblia, e tem mais alusões e significados bíblicos do que qualquer outro rio.

[O Jordão] é mencionado quase duzentas vezes na Bíblia, e tem mais alusões e significados bíblicos do que qualquer outro rio.

Nas Escrituras, a primeira menção ao Jordão ocorre em Gênesis 13.10: “Ló ergueu os olhos e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem-regada, como o jardim do Senhor, como a terra do Egito, até a região de Zoar. Isto foi antes de haver o Senhor destruído Sodoma e Gomorra”. Abrão oferecera a Ló terras “para a direita” ou “para a esquerda” (v. 9), o que parece sugerir que ele queria dividir “toda a terra” da promessa, ele ficando com uma parte e Ló com a outra. A palavra hebraica para leste é qedem, que significa “para a frente”, e indica preferência por essa direção, enquanto a palavra para oeste é ’āchôwr, que significa “para trás”. As palavras em hebraico indicam que os israelitas se orientavam pelo leste: essa direção tinha uma conotação positiva, enquanto o oeste era visto de forma negativa. Pode-se perceber essa orientação pelo oriente e a evitação do oeste na descrição de Ezequiel do templo milenar, que será voltado para o leste. O templo de Ezequiel é quadrado, com três portões externos: um no lado norte, outro no leste, e outro no sul. A parte norte do pátio terá portões, assim como a parte sul. Também há um portão oriental, mas nenhum portão ocidental. A profecia de Ezequiel demonstra como os israelitas preferiam o leste, mas evitavam o oeste. Embora o povo de Israel fosse de fato orientado para o oriente, Deus guiaria Abrão para a terra que ele lhe mostraria (12.1; cf. v. 8; 13.14; 15.18).

Provavelmente, Abrão fez sua oferta a Ló enquanto olhavam na direção do leste, uma vez que “Ló ergueu os olhos e viu toda a campina do Jordão” (13.10), que estaria a leste de onde eles se encontravam. O que ele aparentemente ofereceu “para a esquerda” teria sido o norte de Canaã, o território ao redor de Siquém (cf. Gênesis 12.6; 13.3; 33.18-20; 37.12-17). A escolha “para a direita” teria sido o sul de Canaã, que incluiria tanto Hebrom quanto o Neguebe (cf. 13.1,6,9; 18; 20.1; 24.62). Ló, todavia, não escolheu nem a “esquerda” (norte), nem a “direita” (sul), mas o que era “como o jardim do Senhor, como a terra do Egito” (13.10). Essas descrições são positivas dentro do contexto de Gênesis, embora a última possa ser um alerta sutil, considerando a escravidão de Israel nessa terra. Isso parece ser confirmado pelo fato de que a terra escolhida por Ló era “até a região de Zoar”, a cidade para onde fugiu quando Deus decidiu fazer chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra (19.19-24). Até certo ponto, a decisão de Ló parece ter sido tomada com base no desejo de alinhar-se com os habitantes nativos (cf. 13.7,12; 19.1-26), além da abundância natural do vale do Jordão (13.10). O fato de Ló ter escolhido para si “toda a campina do Jordão” e ter partido “para o Oriente” resultou em separação de Abrão (v. 11), e a referência a Zoar (v. 10) antecipa o resultado dessa decisão.

Quando a nova geração de israelitas estava finalmente pronta para entrar na terra prometida, o rio Jordão era o único obstáculo.

É digno de nota que Adão e Eva foram expulsos para “leste do jardim do Éden” (3.24), e “Caim se retirou da presença do Senhor e habitou na terra de Node, a leste do Éden” (4.16). Além disso, as pessoas de Babel partiram “para o Oriente” em sua determinação de rebelarem-se contra Deus (11.2, TB). A decisão de Ló, portanto, deveria ser perturbadora. O rio Jordão era a fronteira oriental de Canaã na época de Ló, e o contraste entre a “terra de Canaã” e as “cidades da campina” (13.12) confirma a intenção de Ló de separar-se de Abrão. Da mesma forma como o povo rebelde que viajou “para o Oriente… na terra de Sinear”, onde buscaram construir a cidade da Babilônia (11.1-2), também Ló empreendeu uma jornada “para o Oriente” da terra prometida, para as “cidades da campina”, quando se separou de Abrão (v. 12).

Anos mais tarde, em vez de buscarem o melhor do Senhor, as tribos de Rúben e Gade, que eram compostas de pastores, solicitaram permissão para não cruzar o rio Jordão, mas estabelecerem-se a leste dele, uma vez que a terra era mais adequada para os seus enormes rebanhos (Números 32.1-5). “A terra de Jazer e a terra de Gileade… eram boas para a criação de gado” (v. 1), contudo, a decisão das tribos de ficarem ali (metade da tribo de Manassés se juntaria a eles mais tarde, v. 33) parece ser mais uma concessão de Deus do que o seu projeto inicial. Embora seja verdade que Deus dera toda aquela terra ao seu povo (Números 21), e tudo o que o seu povo precisava fazer era fortificá-la e ocupá-la, os gaditas e rubenitas estariam se estabelecendo na parte mais periférica da terra, em vez de seu território essencial. Além disso, o Jordão os separaria da nação, afastando-os assim do núcleo vital na terra prometida, e tornando-os propensos à influência estrangeira.

Curso do rio Jordão, com alguns afluentes. Imagem: Wikipedia

O pedido das tribos preocupou Moisés, e ele se referiu a eles como “geração de pecadores” (Números 32.14). Ele temia que sua atitude desencorajaria as outras tribos, “para que não entrem na terra que o Senhor lhes deu” (v. 7). Certamente, havia fundamento para a preocupação de Moisés: a satisfação deles com algo inferior ao melhor de Deus, em vez de herdarem a plenitude de sua bênção, poderia influenciar negativamente as outras tribos. Moisés temia que eles estivessem imitando a incredulidade de seus pais em Cades-Barneia (v. 8-15), e certificou-se de que os gaditas e rubenitas entendiam que havia uma batalha a ser travada. Eles precisavam estar preparados e dispostos a lutar ao lado das outras tribos até que a terra prometida fosse conquistada, e, diante disso, eles prometeram ajudar os “filhos de Israel” até que todas as tribos possuíssem sua “herança” divinamente concedida (v. 16-19). O pecado deles seria o fracasso em cumprir seu voto (v. 23), o qual as tribos cumpriram, contudo, sua localização do outro lado do Jordão era problemática (cf. Josué 22).

O Novo Testamento faz referência à importância do rio Jordão no início do ministério de Jesus.

De acordo com Hebreus 4, reivindicar a herança na terra prometida é uma ilustração de como a igreja se relaciona com a vontade de Deus e suas promessas em Cristo Jesus. Alguns podem ser comparados à geração que pereceu no deserto, sem nunca entrar na terra. Outros são semelhantes aos dez espias, que viram a bênção da terra, mas não conseguiram entrar. As tribos de Gade e Rúben (e metade de Manassés) entraram na terra prometida, mas não ficaram ali, preferindo a terra na fronteira, onde podiam criar o seu gado. Moisés foi impedido de entrar na terra prometida, e só recebeu permissão de vê-la – antes de sua morte – do “monte Abarim”, do outro lado do Jordão (Números 27.12; Deuteronômio 31.2; 32.48-52). No entanto, Deus prometeu a Josué que daria posse da terra, a qual havia prometido a Abraão e seus descendentes (Josué 1.6; cf. Gênesis 12.6-7; 13.14-15; 15.18-21).

Quando a nova geração de israelitas estava finalmente pronta para entrar na terra prometida, o rio Jordão era o único obstáculo. Deus instruiu Josué a fazer com que os sacerdotes carregassem a arca da aliança para dentro do Jordão, e quando eles obedeceram, “as águas que vinham de cima pararam de correr; levantaram-se num montão… os sacerdotes que levavam a arca da aliança do Senhor pararam firmes no meio do Jordão, e todo o Israel passou a pé enxuto, atravessando o Jordão” (Josué 3.16-17).

Dois montes de pedras foram erguidos, servindo, “para sempre, por memorial aos filhos de Israel” (4.7). Doze pedras foram levantadas “no meio do Jordão, no lugar onde ficaram parados os pés dos sacerdotes que levavam a arca da aliança” (v. 9), e outras doze pedras foram tiradas do rio e colocadas “em Gilgal” (v. 1-8,10-24). Os memoriais serviriam como testemunhas perpétuas de como Deus recompensa a fé e trabalha em favor daqueles que confiam nele. Todavia, até mesmo Josué fracassou em conseguir descanso completo para Israel, pelo mesmo motivo que Moisés; a saber, a descrença do povo (Hebreus 4.1-14). A geração que cruzou o Jordão experimentou o descanso de Deus apenas parcialmente, pois falharam em obedecer e confiar inteiramente no Senhor. Os cristãos de hoje precisam ter cuidado para não deixarem de alcançar o descanso do Senhor e “esfor[çarem-se] por entrar naquele descanso” (v. 1,11).

O rio Jordão é mencionado muitas outras vezes no Antigo Testamento, geralmente em referências a batalhas e disputas envolvendo o povo de Deus. O Jordão foi estratégico na grande vitória de Gideão sobre os midianitas (Juízes 7.23-25; 8.4-5). Saul e vários de seus filhos mais tarde morreram em uma batalha próxima ao rio Jordão (1Samuel 31). Outras passagens mencionam como o Jordão era cruzado para enfrentar um inimigo (2Samuel 2.29; 17.22-24; 19.15-40). Elias morou por um tempo “junto ao ribeiro de Querite, nas imediações do Jordão” (1Reis 17.5). Eliseu disse a Naamã, o sírio, para ir e “lav[ar]-se sete vezes no Jordão” para ser curado de sua lepra (2Reis 5.10), e um machado foi recuperado milagrosamente ali (2Reis 6.1-7). Os profetas Elias e Eliseu cruzaram o Jordão antes da trasladação do primeiro (2Reis 2.7-8,13-14).

O Novo Testamento faz referência à importância do rio Jordão no início do ministério de Jesus (Mateus 3.13-17). João batizou na mesma área do Jordão em que Elias foi trasladado (2Reis 2.11). Jesus veio a João no Jordão “a fim de que João o batizasse” (Mateus 3.13). Jesus não precisava ser purificado, nem se arrepender. Ele foi batizado como uma representação de obediência identificável no começo de seu ministério. Jesus entendeu que a vontade de Deus era que João o batizasse como uma indicação de sua submissão (v. 15). Além disso, o batismo do Senhor não apenas autenticou o ministério de João, mas também identificou Jesus com o remanescente piedoso de Israel. No Jordão, o Pai enviou seu Espírito Santo para capacitar Jesus a realizar seu ministério messiânico (v. 16), que logo teria início (4.17).

Autor

  • Ron J. Bigalke (Ph.D., Tyndale Theological Seminary) fundou em 1999 a missão Eternal Ministries junto com sua esposa. Membro da diretoria do Ministério Chamada nos Estados Unidos, Bigalke colabora frequentemente em revistas, livros e artigos para a internet. Além disso, é o editor-geral de quatro obras. Sua ênfase atual está nas áreas de apologética, estudo bíblico, pensamento eclesiástico, historiografia, teoria política e teologia. Casado com Kristin, possui dois filhos.

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