Lidando com Falsos Mestres e Falsos Profetas

O que a Bíblia diz sobre a forma que devemos lidar com falsos mestres e falsos profetas dentro da igreja?

Podemos ler a descrição dos falsos mestres e profetas nas cartas, especialmente em 2Pedro 2, na carta de Judas e na descrição daqueles que “se gloriam segundo a carne” (2Coríntios 11.18), isto é, falsos mestres que tinham orgulho de suas origens judaicas, mas proclamavam um “evangelho diferente” do pregado pelos apóstolos (veja Gálatas 1.9).

Quando lemos essas descrições, imediatamente dizemos: “É claro que essas pessoas precisam ser arrancadas da igreja!”. Mas, então, procu-ramos em vão por instruções e orientações precisas sobre a exclusão e a “limpeza da igreja” correspondentes.

Lembramos que até mesmo o próprio Jesus alerta: “Cuidado com os falsos profetas, que se apresentam a vocês disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Pelos seus frutos vocês os conhecerão” (Mateus 7.15-16).

“Mas, Senhor”, perguntamos, “por que não há instruções sobre o que fazer? Por que o Senhor dá um alerta tão sério sem diretrizes de como eliminar tais obstáculos?”

A resposta é que vivemos na era da disseminação do evangelho, na era da graça. Por isso orientações de “separar”, “arrancar” e “excluir” são tão raras nas Escrituras.

A verdade é que, olhando para a história da igreja cristã, é possível pensar o contrário: podemos encontrar ali infinitos expurgos, separações e perseguições a “hereges” – e, com demasiada frequência, aquele que era morto como “herege” era, na verdade, o cristão nascido de novo que insistia em permanecer fiel à Palavra de Deus.

E é exatamente isso que nós queremos ser – fiéis à Palavra!

Instruções para identificar o pecador

Prosseguindo em nossa análise, gostaria de abordar duas instruções que encontrei sobre a identificação do pecador.

Primeira instrução

“Se alguém está pregando a vocês um evangelho diferente daquele que já receberam, que esse seja anátema” (Gálatas 1.9b). “Um evangelho diferente”, ou “outro evangelho” ou “outro Jesus” (2Coríntios 11.4).

Isso significa que o falso mestre ou profeta dissemina um “evangelho” com alterações e acréscimos – um ensino que vai além das Escrituras Sagradas.

Um “evangelho” com alterações, acréscimos e omissões não salva ninguém. Será, sem dúvida, espalhado com um disfarce cristão e prometerá salvação e vida eterna, mas levará seus seguidores ao inferno.

Sobre alguém que apresenta um “evangelho” mortal desse tipo, a Bíblia diz: “… que esse seja anátema”. Tome cuidado para não pensar imediatamente no anátema bíblico aqui – uma maldição que inevitavelmente leva à morte do amaldiçoado (Deuteronômio 13.12-17; Josué 6.17; 7.15). Os crentes em Cristo deixam a execução da pena da morte para Deus (Atos 5.1-11; 1Coríntios 11.29) e à autoridade judicial do Estado.

Este é um princípio bíblico: um sacerdote não pode ser rei. Deve haver separação de religião e política.

Além disso, se a igreja de Cristo entender corretamente a natureza do reino do céu no presente (isto é, ao longo da “era da igreja”, até a volta de Jesus) e especificamente o significado da parábola do trigo e do joio (Mateus 13.24-30,36-43), ela nunca aspirará o poder político que governa o destino de seus súditos. Este é um princípio bíblico: um sacerdote não pode ser rei. Deve haver separação de religião e política.

Afinal, “o campo é o mundo” (Mateus 13.38), e Cristo não designou seus discípulos para governarem o mundo agora. Isso só acontecerá no reino milenar de Cristo. Lembremos que o reino dos céus, até a volta de Cristo, existe no coração dos crentes salvos.

Cristãos que dizem ter sido chamados por Deus para estabelecer uma teocracia neste mundo não podem estar sendo guiados pelo Espírito Santo – não enquanto suas aspirações contradizem o que está escrito na Palavra de Deus. Uma teologia correta do reino dos céus inclui o princípio da separação entre religião e Estado. Muito derramamento de sangue teria sido evitado se os papas e inquisidores ao longo da história tivessem se submetido a essa verdade bíblica.

Mesmo depois de entendermos que não somos governantes que condenam os pecadores à morte ou à prisão, ainda fica a pergunta: quando identificamos alguém na igreja que proclama um “evangelho diferente”, isto é, alguma doutrina falsa, e a Palavra de Deus diz “que esse seja anátema”, como exatamente entender esse “anátema”? A próxima instrução traz a explicação.

Segunda instrução

“Se alguém for até vocês e não levar esta doutrina [a doutrina de Cristo (v. 9)], não o recebam em casa, nem lhe deem as boas-vindas” (2João 10).

Corte todo o contato com aqueles que insistem em ensinar e espalhar um “evangelho diferente”. Sendo assim, “anátema” aqui é uma instrução para o afastamento.

“Não o recebam em casa, nem lhe deem as boas-vindas.” Onde os crentes em Jesus se reuniam na época em que João escreveu essa orientação? Normalmente, nas casas (Romanos 16.5; 1Coríntios 16.19; Filemom 2). Por isso, se somos instruídos a não receber um comprovado falso mestre em nossa casa, então isso também significa não receber ele na comunhão da igreja.

Até aqui vimos as instruções para identificar o pecador e a ordem para nos afastarmos dele. Agora vamos subir o nível de gravidade e passar para o próximo tópico.

Diretrizes para a exclusão

Neste ponto, chegamos a outro tipo de pessoa (além do falso mestre e do falso profeta), que precisa ser tirado da igreja: o pecador impenitente.

O apóstolo Paulo lembra os coríntios: “Mas, agora, escrevo a vocês que não se associem com alguém que, dizendo-se irmão, for devasso, avarento, idólatra, maldizente, bêbado ou ladrão; nem mesmo comam com alguém assim. … será que vocês não devem julgar os de dentro [da igreja]?… Expulsem o malfeitor do meio de vocês” (1Coríntios 5.11-13).

Isso parece ser bem claro e simples: como crentes, não é nosso papel julgar os pecadores do mundo (v. 10), mas devemos “julgar os de dentro” (v. 12) – isto é, na igreja! Agora, de que forma devemos colocar isso na prática?

Há apenas uma forma pela qual uma pessoa pode ser excluída da igreja. O Senhor Jesus detalha o processo em Mateus 18.15-20.

É o que chamamos de “disciplina eclesiástica”.

Com tudo isso, meu objetivo é esclarecer que arrancar o “joio” é definitivamente a última medida, que só deve ser tomada se todas as outras tentativas de restaurar o pecador fracassarem. Ninguém busca excluir alguém da igreja, quer seja ele um crente salvo, quer deseje participar da comunidade por outros motivos.

Lembre-se que a instrução sobre a disciplina eclesiástica vem imediatamente após a parábola da ovelha perdida, na qual o Senhor Jesus nos ensina: “Assim, não é da vontade do Pai de vocês, que está nos céus, que se perca um só destes pequeninos” (Mateus 18.14).

Portanto, o propósito da disciplina da igreja é levar o irmão em pecado ao arrependimento. No entanto, até que ele se arrependa, ele deve ser mantido afastado da comunhão cristã para não prejudicar os demais filhos de Deus.

O propósito da disciplina da igreja é levar o irmão em pecado ao arrependimento. No entanto, até que ele se arrependa, ele deve ser mantido afastado da comunhão cristã para não prejudicar os demais filhos de Deus.

Vamos ler a passagem de Mateus 18.15-20: “Se o seu irmão pecar contra você, vá e repreenda-o em particular. Se ele ouvir, você ganhou o seu irmão. Mas, se não ouvir, leve ainda com você uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda questão seja decidida. E, se ele se recusar a ouvir essas pessoas, exponha o assunto à igreja; e, se ele se recusar a ouvir também a igreja, considere-o como gentio e publicano. Em verdade lhes digo que tudo o que ligarem na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligarem na terra terá sido desligado nos céus. Em verdade também lhes digo que, se dois de vocês, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que vierem a pedir, isso lhes será concedido por meu Pai, que está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”.

Observe que aqui se diz “se o seu irmão pecar contra você…” – o ofensor é chamado de irmão em Cristo, de irmãona fé. Só com base no pressuposto de que ele seja um crente salvo é que podemos esperar dele submissão à autoridade da Palavra de Deus!

Diante de nós temos diversos princípios que precisam fundamentar a execução do procedimento técnico da disciplina eclesiástica.

1. Não leve para o lado pessoal

Não conclua, a partir das palavras “se o seu irmão pecar contra você”, que qualquer divergência de suas opiniões, qualquer afronta à sua honra, autoridade, orgulho, personalidade, integridade, interesses ou danos à sua propriedade seja um pecado que requeira (ou justifique) o procedimento de Mateus 18.15-20.

Você consegue imaginar quantas pessoas o apóstolo Paulo precisaria ter excluído da igreja se cada discordância pessoal fosse razão para exercitar disciplina eclesiástica?

É verdade que em 2Coríntios Paulo precisou se defender contra aqueles que haviam difamado sua integridade, chamado, apostolado e ministério cristão. Mas os ataques pessoais não foram o que motivou sua advertência – “se eu for outra vez, não os pouparei” (13.2). A carta inteira instrui os coríntios a se separarem daqueles que pregaram “outro Jesus” e um “evangelho diferente” (11.4). A missão do apóstolo era salvar a igreja do veneno mortal dos falsos ensinos.

Por isso, a disciplina da igreja nunca deve ser vingança ou punição por divergências pessoais. O líder, ou outra pessoa na direção da igreja, nunca pode usar esse procedimento para “acertar as contas”. A disciplina eclesiástica destina-se a proteger a saúde espiritual da comunidade e a honra de Cristo – não sua honra ou orgulho pessoais – e, como já dito, levar o pecador ao arrependimento. 

Somente quando você (aquele que foi ofendido!) se submeter a esse primeiro princípio é que conseguirá alinhar-se ao próximo.

2. Tenha uma postura humilde

Em que circunstâncias lemos que “Moisés era um homem muito manso, mais do que qualquer outro sobre a terra” (Nm 12.3)? Isso é dito imediatamente após seu irmão ter pecado contra ele; quando Arão e Miriã falaram mal de Moisés “por causa da mulher cuxita que este havia tomado” (v. 1).

Nesse caso, quem aplicou a “disciplina eclesiástica” e excluiu Miriã, a irmã de Moisés, da comunidade – ela foi “detida fora do arraial” (v. 14)? O próprio Deus (v. 10,14-15)! Moisés ficou em silêncio, de forma que ninguém pudesse acusá-lo de estar se vingando de uma crítica pessoal – um sério ataque à sua honra, ao seu chamado à liderança, à sua posição, autoridade e caráter (v. 1-2).

Diante da repreensão da parte de Deus, Arão e Miriã perceberam seu pecado e se arrependeram (v. 11).

E quais foram as únicas palavras que ouvimos de Moisés durante esse evento? Palavras de intercessão: uma oração pelos pecadores, uma súplica a Deus por perdão, cura e restauração (v. 13).

Que exemplo para nós! Eu gostaria que sempre tratássemos o pecador dessa forma, em vez de imediatamente tentar excluí-lo da igreja. Contudo, o Criador nem sempre intervém de forma tão direta como nesse confronto familiar contra Moisés. É por isso que a instrução diz: “… vá e repreenda-o [o irmão que pecou] em particular (Mateus 18.15).

É necessário falar e às vezes repreender – mas nunca esquecer o princípio: “O servo do Senhor… deve ser… paciente, disciplinando com mansidão os que se opõem a ele” (2Timóteo 2.24-26; Gálatas 6.1).

Não é tarefa nossa executar vingança por causa de divergências pessoais, mas defender a honra de Cristo, a santidade da igreja e a verdade da Palavra de Deus.

Não é tarefa nossa executar vingança por causa de divergências pessoais, mas defender a honra de Cristo, a santidade da igreja e a verdade da Palavra de Deus.

Isso nos leva ao terceiro princípio, que é a base para a exclusão de qualquer pessoa da igreja: 

3. Observe persistência no pecado

A persistência no pecado, ou o agarrarse teimosamente a uma falsa doutrina, é a única razão que justifica levar a disciplina eclesiástica para além do primeiro estágio – a conversa pessoal entre você e o irmão que pecou. Somente quando ele se recusa a abandonar seu pecado, mesmo passando por todas as etapas do processo; somente quando ele continua justificando seu pecado e culpando “o mundo inteiro”, menos a si mesmo, é que ele deve ser tratado “como gentio e publicano” (Mateus 18.17).

Uma exclusão real (excomunhão)

Hoje em dia, quando ouvimos falar em “considere-o como gentio [ou pagão] e publicano”, não fica logo claro o que isso envolve. Afinal, judeu e gentio são iguais dentro da igreja. A discriminação étnica é errada (Gálatas 3.28). E, quando um auditor da Receita Federal chega à fé em Jesus, ele se torna irmão em Cristo. Ele não receberá o tratamento negativo supostamente reservado ao “publicano” (veja Lucas 19.7-10).

Na época de Jesus, “considere-o como gentio e publicano” significava “o lugar dele é lá fora”. 

Isso estava bem claro e evidente para os discípulos que viviam na sociedade judaica de dois mil anos atrás: o gentioestá “fora” por causa da sua fé – não por ser mau, mas por não fazer parte do povo da aliança; e o publicano está “fora” por opção, pois escolheu se excluir da comunidade de Israel ao colaborar com o inimigo.

Isso significa que o pecador que persiste em seu pecado, mesmo depois que a igreja inteira lhe suplicou que se arrependesse, exclui a si mesmo da comunidade (2Tessalonicenses 3.6; 1Coríntios 5.6-7).

Quem estuda a disciplina eclesiástica biblicamente correta entende que essa é uma remoção cirúrgica feita com amor, ao mesmo tempo em que se tenta minimizar os danos colaterais. E, mesmo que o pecador seja removido da igreja, 2Tessalonicenses 3.15 instrui: “Contudo, não o tratem como inimigo, mas admoestem-no como irmão”. Não podemos desistir de tentar encorajá-lo a se arrepender e a voltar à comunhão da igreja.

O joio na igreja

Vamos olhar novamente com cuidado as instruções de Paulo em 1Coríntios 5: “Mas, agora, escrevo a vocês que não se associem com alguém que, dizendo-se irmão, for devasso, avarento, idólatra, maldizente, bêbado ou ladrão; nem mesmo comam com alguém assim. Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Mas será que vocês não devem julgar os de dentro? Os de fora, esses Deus julgará. Expulsem o malfeitor do meio de vocês” (v. 11-13).

A descrição de “alguém que se diz irmão” nos leva a pensar em pessoas que já conhecemos um pouco, que frequentam a igreja há meses ou mesmo anos. Nós as vemos como irmãos em Cristo… mas então vêm à tona alguns problemas que ainda não havíamos notado.

Neste caso, devemos dar ao irmão todas as oportunidades possíveis para corrigir sua vida e se arrepender, passando por todas as etapas da disciplina eclesiástica mencionadas acima – em vez de simplesmente removê-lo da igreja.

Mas também há aqueles que frequentam as atividades da igreja e já começam a causar problemas desde a primeira ou segunda visitas. Quase de saída, fica claro que estão ali com um propósito específico – e não é adorar a Deus e estudar sua Palavra.

Quando aparecem pela primeira vez, normalmente essas pessoas se apresentam como “irmãos”, “cristãos” ou “crentes em Jesus”, mas logo demonstram ser não apenas um incômodo, mas um verdadeiro perigo aos membros da igreja.

Em casos assim, é impossível percorrer pacientemente todas as etapas da disciplina eclesiástica. Seria irresponsabilidade, da parte da liderança da igreja, dar novas chances a esses encrenqueiros e, nesse meio-tempo, permitir que machuquem os membros da igreja, o “rebanho” (João 10.11; 2Pedro 5.2-3).

Estou convicto de que a passagem de 1Coríntios 5 nos dá base para uma solução mais rápida. 

Instruções para um processo expresso

“Expulsem o malfeitor do meio de vocês” (v. 13). Vamos analisar algumas dessas pessoas listadas no versículo 11. (Se você participa de uma igreja há algum tempo, concordará que já encontrou todos eles.)

devasso (ou “sexualmente imoral”) é alguém que vem com o propósito de “caçar” e seduzir irmãs ou irmãos. A casa de Deus e a comunhão dos irmãos deve ser um ambiente em que meninas e moças, por exemplo, se sentem protegidas e seguras contra o constante assédio ao qual são expostas no mundo! É por isso que a liderança da igreja não deve mostrar qualquer tolerância para com assediadores. Além disso, há uma versão ainda mais perigosa do “devasso”: o pedófilo, que é atraído a lugares onde há muitas crianças. Assim que essa horrível perversão for descoberta, o perverso deve ser imediatamente removido. Nenhum pastor ou líder pode ousar, em sã consciência, permitir que ele passe mais um minuto perto das crianças da igreja!

maldizente (blasfemo) não é um crente novo que costumava praguejar antes de ser salvo e agora está com dificuldade para abandonar seu antigo vocabulário. Não, o “maldizente” é alguém que amaldiçoa o nome de Deus, que fala mal dos crentes por causa de sua fé e expressa desprezo pela Palavra de Deus. Ele certamente não entrou na igreja com a intenção primária de amaldiçoar. Talvez tenha ouvido falar que os cristãos estão distribuindo dinheiro. Talvez alguém lhe tenha dito que, se “trocar de religião”, ele poderia receber um salário sem trabalhar. Quando então decepcionamos essas expectativas na primeira ou segunda conversa, ele despeja seu vocabulário podre sobre nós, nossa fé e “nosso Jesus”.

Há também o ladrão, a pessoa que entra na igreja para roubar carteiras, celulares e cartões de crédito e está sempre esticando os olhos para a caixa de ofertas. Não se deve mostrar tolerância para com ele. Afinal, ele claramente apareceu ali com motivos criminosos.

Alguns outros tipos de pessoa não aparecem na lista de 1Coríntios 5, mas sua presença na igreja também é um incômodo e mesmo um perigo para os membros. Por exemplo: um visitante desconhecido que perturba os cultos da congregação, que não respeita a instrução de que “tudo… seja feito com decência e ordem” (1Coríntios 14.40).

Na maioria dos exemplos citados nesse tópico sobre o “processo expresso” não será necessário percorrer as diversas etapas da disciplina eclesiástica. Depois de abordar essas pessoas uma ou duas vezes e então lhes deixar claro que a liderança da igreja já entendeu seus verdadeiros propósitos, normalmente elas vão embora por iniciativa própria.

Mas então temos ainda outro tópico interessante.

Instruções para a autoexclusão

Você leu direito. Existe mais uma ordem para separar, e ela está em 2Coríntios 6.14-17: “Não se ponham em jugo desigual com os descrentes…. Saiam do meio deles e separem-se deles”.

Esses versículos são normalmente ensinados como uma proibição ao cristão de se casar ou começar uma sociedade empresarial com um incrédulo, e eles certamente se aplicam a essas áreas. Mas o contexto imediato em 2Coríntios é a advertência de Paulo contra os falsos mestres (a carta inteira foi escrita para tratar desse assunto doloroso).

De acordo com a definição de Paulo, o tipo de pecador impenitente mais destrutivo e perigoso são os “falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, disfarçando-se em apóstolos de Cristo” (2Coríntios 11.13). Mesmo hoje não faltam pessoas que se apresentam como professores de Bíblia, evangelistas, pastores e líderes de ministérios chamados “cristãos”. Não devemos entrar em “jugo desigual” com eles. Nunca se submeta ao ensino de quem se desvia da Palavra de Deus ou até mesmo a contradiz.

Infelizmente, em alguns casos, não temos como seguir o mandamento de “não receb[er] [essas pessoas] em casa” (2João 10) porque o falso mestre já está dentro. Ele controla as rédeas da igreja e talvez até seja o seu fundador. Seus seguidores são maioria. Nessas igrejas, o que conta não é a Palavra escrita de Deus, mas a palavra do líder – ou os ensinos que ele diz receber diretamente do Espírito Santo.

Será que um crente salvo pode se descobrir numa igreja assim? Com certeza! Afinal, ninguém nasce adulto, e, da mesma forma, ninguém é espiritualmente maduro a partir do momento em que nasce de novo (1Pedro 1.23).

Talvez participemos de uma igreja com falsos ensinos porque é lá que estão nossos pais ou amigos; ou talvez por causa da música boa. Enquanto não investirmos em ler e estudar a Bíblia de forma independente, vamos engolir os falsos ensinos como sendo “palavra de Deus”, pois “o pastor disse isso”. Então, certo dia, quando finalmente lemos as Sagradas Escrituras, ficará claro que o que está escrito ali não é o que o pastor ou mestre proclama no púlpito.

Começamos a fazer perguntas e recebemos respostas dúbias. Eu mesmo, por exemplo, já ouvi: “Você não entende! Estamos vivendo nos ‘tempos do fim’. Há porções no Novo Testamento que foram escritas para o tempo dos apóstolos e hoje não se aplicam mais. Há leis novas para o ‘fim dos tempos’”.

Em situações como essa, ao perceber o que está acontecendo em nossa igreja, naturalmente podemos alertar quem está próximo de nós – mas nunca tente formar um lobby contra o líder, contra seus falsos ensinos e contra a maioria. Se tentar, você se verá envolvido em uma guerra horrível que não beneficiará em nada as pessoas à sua volta, roubará a sua paz em Cristo e talvez até levará você a pecar.

Tenha em mente que a maioria dos membros em igrejas com falsas doutrinas estão ali por escolha própria. Um crente nascido de novo que opta por dar ouvidos aos ensinos de um líder espiritual sem checar por si mesmo “as Escrituras todos os dias para ver se as coisas [são], de fato, assim” (Atos 17.11) provavelmente não tem amor suficiente pela Palavra de Deus.

O apóstolo Paulo advertiu que haveria uma proliferação desse tipo de crente nos tempos do fim: “Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, se rodearão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (2Timóteo 4.3-4).

Se nos descobrirmos nessa situação, a única coisa que podemos fazer é obedecer à ordem de 2Coríntios 6.17: “Saiam do meio deles…”.

No entanto, você não deve, de forma nenhuma, desligar-se de toda comunhão cristã por causa de uma crise desse tipo. Que Deus não permita que você se isole em sua dor e amargura. Não! Dê prioridade máxima à busca por uma igreja bíblica que ensine a Palavra de Deus de forma fiel.

Autor

  • Meno Kalisher (D.Min., The Master's Seminary) é judeu messiânico e pastor da igreja Jerusalem Assembly House of Redemption, localizada em Jerusalém, Israel. Palestrante e professor convidado em seminários ao redor do mundo, também escreveu alguns livros, publicados no Brasil pela Chamada. Casado com Anat, tem quatro filhos adultos.

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