Há duas formas de reagir à vida despedaçada: confessar os pecados e clamar ao Senhor por perdão, ou ficar se lamentando, banhado em autocomiseração. Qual delas nós escolhemos?
“Efraim se mistura com os povos e é um pão que não foi virado na hora de assar. Estrangeiros sugam as suas forças, mas ele não percebe; cabelos brancos se espalham pela cabeça, mas ele não o sabe. A arrogância de Israel abertamente dá testemunho contra eles, mas eles não voltam para o Senhor seu Deus, nem o buscam em tudo isso. Porque Efraim é como uma pomba ingênua, sem entendimento: chamam o Egito e se voltam para a Assíria. Quando forem, estenderei a minha rede sobre eles e farei com que desçam como as aves do céu. Eu os castigarei de acordo com o que ouviram na sua congregação. Ai deles! Porque fugiram de mim. Destruição sobre eles porque se rebelaram contra mim! Eu os remiria, mas eles falam mentiras contra mim. Não clamam a mim de coração, mas dão uivos nas suas camas. Eles se ajuntam para o trigo e para o vinho, mas se rebelam contra mim. Eu treinei e fortaleci os seus braços, mas eles planejam o mal contra mim. Eles voltam, mas não para o Altíssimo. Fizeram-se como um arco defeituoso. Os seus príncipes serão mortos à espada, por causa da insolência da sua língua. Serão motivo de zombaria na terra do Egito” (Oseias 7.8-16).
O livro de Oseias concentra-se em dois temas: a infidelidade de Israel e a fidelidade de Deus, ilustradas pelo relacionamento de Oseias com sua esposa adúltera.
O reino do norte de Israel abandonou sua relação amorosa com Deus. Em vez de encontrar nele sua felicidade, ele busca alegria e paz com outros deuses. Efraim esquece que negou o Criador vivo do Universo. Esquece que, além de sua fidelidade à aliança, Deus também permaneceu fiel no suprimento de trigo e vinho. Em vez de agradecerem a Javé, Efraim crê de repente que ídolos talhados são responsáveis por seu bem-estar físico.
Em Oseias 7, a situação de Efraim avançou mais um estágio. Deus lhe subtraiu o trigo e o vinho, punindo a infidelidade do seu povo.
E qual foi a reação de Efraim? Poderíamos esperar que agora ele desse meia-volta. Que reconhecesse como abandonou o Deus vivo. Que confessasse seu pecado e buscasse sua salvação em Deus.
Mas não: Efraim reage de forma diferente à ruptura da sua vida: “Não clamam a mim de coração, mas dão uivos nas suas camas. Eles se ajuntam para o trigo e para o vinho, mas se rebelam contra mim” (Oseias 7.14).
O povo de Israel se encontra aqui num limiar de grande importância. Ele enfrenta a questão de como reagir à sua vida despedaçada.
Há duas possibilidades: ou ele confessa seus pecados e clama ao Senhor por perdão, ou fica se lamentando, banhado em autocomiseração, atirado como um pobre coitado em seu leito, começando a destruir a si mesmo. É por essa última alternativa que ele opta.
Você ainda uiva ou já está clamando? Essa é uma questão essencial. Eu diria que é até uma das mais importantes em nosso relacionamento com Deus.
Mesmo como filhos de Deus, despertados pelo Espírito Santo para uma nova vida, persiste a triste realidade de pecarmos. Sim, temos um novo coração e sim, queremos servir ao Senhor e guardar os seus mandamentos. Mesmo assim, porém, muitas vezes tropeçamos (Tiago 3.2). Mesmo assim, ainda buscamos realização em outras coisas em lugar de Deus. Mesmo assim, nosso coração repousa tão raramente na paz de Deus. Embora sejamos um templo do Espírito Santo, pecamos também com o nosso corpo.
E é em situações como essa que gostamos de choramingar, sempre que percebemos as consequências do nosso procedimento pecador e que a nossa vida está prestes a desmoronar. Muitas vezes temos então de confessar com Paulo: “Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7.24).

E novamente vem então a pergunta: você ainda uiva ou já está clamando?
O que você faz depois de pecar? O que faz quando sente as consequências dos seus erros? Atira-se sobre o seu leito e uiva como um cão? Passa a ter pena de si mesmo? A queixar-se porque a sua vida se perdeu e tudo se voltou contra você? Talvez fique com raiva de si mesmo e se agrida fisicamente?
Aí você perceberá o que eu também já experimentei. Existem momentos da minha vida nos quais afundo em autocomiseração, e isso é realmente tão terrível que começo a uivar e a atacar a mim mesmo. Em tais momentos, manifesta-se aquilo que está excessivamente enraizado no fundo do meu coração: descrença.
Com a minha mente, estou plenamente consciente de que fracassei. Transgredi a vontade de Deus. Sei disso, mas mesmo assim prefiro ir pelo caminho mais fácil, afundo em melancolia e tento recalcar a minha culpa.
E então leio este versículo: “Não clamam a mim de coração, mas dão uivos nas suas camas. Eles se ajuntam para o trigo e para o vinho, mas se rebelam contra mim” (Oseias 7.14).
Aí a Palavra de Deus me atinge no coração. Aí o povo de Israel reflete exatamente o que ocorre na minha vida. Em meu coração não clamo pela ajuda de Deus, mas uivo no meu leito, arranho-me por causa de trigo e vinho e volto-me contra Deus.
Assim me deparo com essa pergunta: será que ainda uivo ou já estou clamando? É um questionamento da minha postura básica diante da vida.
Fico jogado no meu leito como um pobre coitado com pena de mim mesmo ou me ajoelharei e clamarei a Deus por perdão pelas minhas transgressões?
E então, quando me arrependo, quando retorno ao meu amoroso Pai, ele me recebe com alegria, porque já nos ama antes mesmo de retornarmos a ele.
Não devemos revolver-nos em autocomiseração, mas mergulhar nos rios da misericórdia de Deus, onde poderemos reconhecer sua compaixão.
Ele de fato tem compaixão de nós, totalmente imerecida. Ex nihilo (a partir do nada).
Assim também foi com Efraim: “Como poderia eu abandoná-lo, Efraim? Como poderia entregá-lo, Israel? Como faria com você o que fiz com Admá? Como poderia fazer de você outra Zeboim? Meu coração se comove dentro de mim; toda a minha compaixão se manifesta. Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir Efraim. Porque eu sou Deus e não homem; sou o Santo no meio de vocês. Não virei com ira” (Oseias 11.8-9).
Não devemos revolver-nos em autocomiseração, mas mergulhar nos rios da misericórdia de Deus, onde poderemos reconhecer sua compaixão.
Trata-se de uma realidade inimaginável: o Deus eterno, o Criador do universo, aceita um relacionamento amoroso com suas criaturas. Não podemos entender como o coração de Deus se revolve nele. A única reação adequada a essa característica ilógica na natureza de Deus é admiração.
Quando então me lembro da realidade da minha miserável condição humana, meu coração se enche de profunda gratidão.
Meus pecados são grandes.
Minha autocomiseração é maior.
Mas a graça do meu Pai Celeste é maior que tudo. Posso dizer, acompanhando Paulo: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Romanos 7.25).
Nosso Senhor deu o exemplo: ele sofreu na cruz, assumiu as consequências dos nossos pecados e não uivou, mas clamou. Percorreu o caminho da justiça e pagou por nós. Cristo morreu por nós. Quando abandonamos os seus caminhos, ele pergunta:
“Você ainda uiva ou já está clamando?”.
Lembremos sempre de que podemos clamar a Deus por nossa vida despedaçada. Os salmistas nos dão o exemplo e, confiando na morte do nosso Senhor na cruz aplica-se a qualquer momento 1João 1.9: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça”.
Salmo 130: “Cântico de peregrinação. Das profundezas clamo a ti, Senhor. Escuta, Senhor, a minha voz; estejam abertos os teus ouvidos às minhas súplicas. Se tu, Senhor, observares iniquidades, quem, Senhor, poderá escapar? Mas contigo está o perdão, para que sejas temido. Aguardo o Senhor, a minha alma o aguarda; eu espero na sua palavra. A minha alma anseia pelo Senhor mais do que os guardas anseiam pelo romper da manhã. Mais do que os guardas pelo romper da manhã, espere Israel no Senhor, pois no Senhor há misericórdia; nele, temos ampla redenção. É ele quem redime Israel de todas as suas iniquidades”.
Autor
-
Timo Holzmann é bacharel em teologia pela STH Basel e em história pela Universidade de Friburgo. Casado com Lilien, tem um filho. Atualmente, serve como pastor em uma igreja na Suíça.
Ver todos os posts