Como é possível ter um relacionamento alegre, e de que forma a perspectiva bíblica se opõe à visão atual no mundo?
Há um ditado muito comum entre americanos que afirma: “Happy wife, happy life” [esposa feliz, vida feliz]. Muito embora possamos descartar o ditado como extremamente simplista, ele aponta para o fato de que a alegria não apenas é um dos maiores alvos do ser humano, como também tem sido confirmado – por meio de estudos em saúde mental – que a alegria é um fator fundamental. O Hospital do Cérebro de Istambul afirma em um artigo:
Pesquisas mostram o efeito positivo da alegria na saúde. Estar alegre tem numerosos efeitos positivos na saúde mental e física, tais como redução de estresse, manutenção do equilíbrio emocional, redução do risco de depressão, fortalecimento do sistema imunológico, alívio de dores e melhoria na qualidade do sono.[1]
No meio cristão, afirmamos comumente que nossa fé está ligada à alegria. Isso é claramente defendido na Palavra (Gálatas 5.22-23; João 15.10-11, 1Pedro 1.8-9 etc.). No entanto, também é comum ver essa verdade ter um efeito inverso. Muitos cristãos, motivados por essas promessas, desenvolvem uma aparência de alegria, mesmo quando seu coração está pesado e triste.
Tenho escrito há algumas semanas acerca do casamento sob a perspectiva do reino de Deus baseado no teto de Romanos 14.17: “Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo”. De que maneira, então, a ótica da alegria do reino afeta um casamento, ou qualquer outro relacionamento?

A alegria do reino
A alegria do reino não é egoísta, mas relacional. Recentemente ouvi a história de um jovem pastor que deixou sua esposa e três filhos para viver com uma jovem de sua igreja. Seu argumento era que ele tinha o direito de ser feliz…
Enquanto o mundo afirma que cada um deve buscar sua própria alegria a qualquer custo, a alegria do reino sempre envolve os elementos de vínculos e de deferência.
O elemento do vínculo
O vínculo relacional na alegria do reino é tanto vertical (em relação a Deus) como horizontal (em relação àqueles ao nosso redor). No contexto do casamento, a alegria trata especialmente do vínculo entre os cônjuges.
Enquanto o mundo afirma que cada um deve buscar sua própria alegria a qualquer custo, a alegria do reino sempre envolve os elementos de vínculos e de deferência.
Desde que foi estabelecido, o relacionamento conjugal se baseia na frase de que os dois serão uma só carne. Isso não traz alegria automaticamente, mas define o contexto em que essa alegria deve ser cultivada. É por isso que a Bíblia estimula tantas vezes que esse relacionamento deve ser tratado com todo o cuidado (Efésios 5.20-30). A instrução é que o vínculo, tornado sagrado pelo compromisso diante de Deus, não deve ser rompido, e essa instrução não tem a intenção de ser um peso ou um constrangimento, mas de estabelecer a base de um convívio de alegria (Provérbios 5.18).
O elemento da deferência
A palavra “deferência” tem sido pouca usada; não apenas no vernáculo, mas também em sua essência. Deferência é uma atitude de respeito, de renunciar a seus direitos e conforto em prol do bem-estar do outro. Envolve demonstrar cortesia, consideração e uma postura de ceder diante da vontade ou necessidade de outro. Um excelente exemplo bíblico é a passagem de Filipenses 2.3: “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos”.
Em um casamento, deferência visa justamente colocar os interesses do outro acima de seus próprios interesses. Apesar de parecer exatamente o contrário daquilo que o mundo propõe, a minha percepção é a de que o relacionamento se torna algo leve, prazeroso e alegre quando ambos os cônjuges têm tal atitude.
Quando tenho a oportunidade de aconselhar casais, mesmo casais cristãos, fico frequentemente surpreso com a falta de alegria em vários relacionamentos. Com tristeza ouvi várias vezes um dos cônjuges, muitas vezes ambos, justificarem atitudes egoístas e desrespeitosas com a frase “tenho de pensar na minha alegria”. Uma atitude de deferência para com seu marido ou esposa pode parecer contraintuitivo, mas estou convencido de que é a base de um casamento que experimenta a alegria do reino de Deus.
Nota
- Conselho Editorial do NP Istanbul Hospital, “The Effects on Happiness on Mental and Physical Health”, NP Istanbul Brain Hospital, 17 out. 2023. Disponível em: https://npistanbul.com/en/the-effects-of-happiness-on-mental-and-physical-health. Acesso em: 21 abr. 2026.
Autor
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Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 27º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.
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