Esta série apresenta cinco termos que caracterizam a vida devocional demonstrada ou recomendada na Bíblia. O segundo é “receptividade”.
Alguns dias antes de morrer, Martinho Lutero pegou sua pena e escreveu o que seriam as últimas linhas de uma prolífica vida de escritor: “Somos todos mendigos, isso é verdade”. Essas últimas palavras são um epitáfio apropriado para esse homem cuja devoção singular ao evangelho da graça mudou a história ocidental. Elas ecoam as palavras de Jesus no começo de seu ensino sobre discipulado: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mateus 5.3). A espiritualidade à moda de Jesus começa com o reconhecimento da nossa própria inadequação, o reconhecimento da nossa falência espiritual pessoal. É só aqui que encontramos o poder transformador da graça. Tragicamente, muitos entendem a graça apenas como uma descrição do favor de Deus que nos é dado no momento da nossa salvação. Nessa perspectiva, a graça é limitada a uma associação com a justificação e restrita ao começo da vida cristã. Mas, conforme aponta Jim Wilhoit, “há mais de cem referências à graça no Novo Testamento em inglês, e menos de dez por cento delas se referem primariamente à justificação. Graça tem grande relação com a nossa forma de viver. Para muitas pessoas, graça é ‘salvação’, e obra é ‘crescimento’. No entanto, o Novo Testamento é claro em dizer que a graça de Deus é misericordiosa e também poder restaurador”.[1] A graça divina não é simplesmente o meio pelo qual somos salvos, mas o poder da nossa transformação na vida cristã.
Esse entendimento ajuda a nos guardar contra um mal-entendido fundamental em relação às disciplinas espirituais. As práticas da vida espiritual que a Escritura recomenda e que foram desenvolvidas ao longo da história da igreja não são recursos pelos quais transformamos a nós mesmos. É por meio deles que o Espírito Santo graciosamente opera para nos moldar à imagem de Jesus. Nossa participação nas disciplinas históricas é uma resposta intencional à graça de Deus por meio de um meio de graça divinamente preparado que nos permite encontrar o poder transformador da graça. Ao praticar as disciplinas, praticamos uma descentralização deliberada do eu. James Kushiner sugere, com razão: “Uma disciplina não vai levá-lo para mais perto de Deus. Somente Deus pode levar você para mais perto dele. O que a disciplina pode fazer é ajudar você a se livrar de si mesmo, do seu ego, para que você esteja aberto à sua graça”.[2]
Ao praticar as disciplinas, praticamos uma descentralização deliberada do eu.
Em primeiro lugar, as disciplinas espirituais são uma resposta à graça. Deus dá o primeiro passo. Não experimentamos crescimento espiritual por nos esforçar mais. Experimentamos crescimento espiritual quando respondemos à bondade que Deus derramou sobre nós em Jesus entregando-nos ao Espírito, permitindo que ele faça em nós aquilo que ele quer e que nós não podemos fazer por conta própria. É importante notar que mesmo essa resposta é, em si, graça. Em Filipenses, Paulo escreve: “Desenvolvam a sua salvação com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2.12-13). Aqui Paulo usa o imperativo: há um “desenvolver” que nós somos chamados a realizar. Mas ele rapidamente acrescenta que é apenas pela obra de Deus em nós que somos capazes de querer e agir para realizar o seu plano. As disciplinas espirituais são uma resposta à graça.
Em segundo lugar, as disciplinas espirituais são meios de graça. De acordo com Jesus, o Espírito Santo é a “fonte de água viva”. Como indica a metáfora de C. S. Lewis na abertura deste capítulo, as disciplinas espirituais simplesmente são aquelas práticas que nos colocam em posição de ficarmos molhados. As disciplinas espirituais clássicas são práticas formativas que as Escrituras nos recomendam e foram desenvolvidas ao longo da história da igreja como recursos que o próprio Deus preparou para realizar suas intenções em nossa vida. Elas são o meio pelo qual abrimos espaço e alma para a obra da graça do Espírito Santo.
Habitar com Deus
Neste livro, o pastor Barry Jones compartilha sua visão de uma espiritualidade cristã autêntica, que transforma a forma como vivemos no contexto específico no qual Deus nos inseriu.
Por fim, à medida que respondemos à graça por intermédio dos meios de graça, experimentamos o poder transformador da graça. A intenção do Espírito na vida de cada um de nós é nos conformar à imagem de Jesus, refinar-nos, libertar-nos do poder da alma curvada sobre si mesma e capacitar-nos a nos voltar para fora, em direção a Deus e aos outros. Esse voltar-se para fora é a transformação que a espiritualidade cristã busca. Isso acontece pelo poder do Espírito trabalhando em nós quando nos dispomos a receber o que ele tem a oferecer. “Somos todos mendigos, isso é verdade.”
Notas
- James Wilhoit, Spiritual Formation as if the Church Mattered: Growing in Christ Through Community (Grand Rapids: Baker Academic, 2008), p. 79.
- Veja James M. Kushiner, “Lent: Take Tree”, Mere Comments: The Touchstone Blog, 22 fev. 2008. Disponível em: touchstonemag.com/merecomments/2007/02/lent_take_three.
Este artigo foi extraído e adaptado do livro Habitar com Deus: Um testemunho para o mundo, escrito por Barry D. Jones.
Autor
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Barry D. Jones (Ph.D., Wheaton College) atualmente serve como pastor sênior da Irving Bible Church, no Texas (EUA). Além disso, passou três anos como professor no programa de formação espiritual do Dallas Theological Seminary. Suas paixões são ensinar as Escrituras, fazer discípulos e treinar futuros líderes que estejam profundamente enraizados em sua fé e vitalmente engajados no mundo ao seu redor. Casado com Kim, tem três filhos.
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