Esta série apresenta cinco termos que caracterizam a vida devocional demonstrada ou recomendada na Bíblia. O quarto é “comunidade”.
A Reforma Protestante muitas vezes é elogiada ou então culpada pelo “advento do indivíduo”. Não é que antes da Reforma não houvesse pessoas individuais, mas antes do século 16 o entendimento a respeito do que significava ser humano e o que significava relacionar-se com Deus era entendido de forma muito mais comunitária. A Reforma chamou a atenção para o estado da alma individual diante de Deus. O teólogo Karl Heim identificou esse impulso individualizador como o “primeiro princípio do protestantismo”, a saber, que uma pessoa encontra Deus “apenas em um ato espiritual que ocorre em profunda solitude e com plena clareza mental”.[1] Esse ato espiritual ocorre “inteiramente sozinho e independente de todas as outras pessoas”.[2] Heim captura a mesma noção que o historiador da igreja alemão Adolf von Harnack, o qual insiste: “O reino de Deus chega vindo ao indivíduo, entrando em sua alma e tomando posse dela. […] Não é uma questão […] de tronos e principados, mas de Deus e da alma, da alma e seu Deus”.[3]
Embora o impulso individualizante da Reforma possa ter contribuído para o surgimento do individualismo moderno, as caricaturas retratadas por Heim e Harnack simplesmente não se encaixam com o que os próprios reformados ensinavam. Calvino, por exemplo, destaca a função essencial da comunidade de fé ao explicar a sua metáfora favorita da igreja, a igreja como “mãe de todos os piedosos”. Ele escreve:
Aprendamos, mesmo do mero título mãe, quão útil, ainda mais, quão necessário nos é seu conhecimento, quando não outro nos é o ingresso à vida, a não ser que ela nos conceba no ventre, a não ser que nos dê à luz, a não ser que nos nutra em seus seios, enfim, sob sua guarda e governo nos retenha, até que, despojados da carne mortal, haveremos de ser semelhantes aos anjos.[4]
Calvino chega a dizer que “fora de seu grêmio não há de esperar-se nenhuma remissão de pecados, nem qualquer salvação”.[5]
Essa viagem pela história da igreja destaca quanto muitos cristãos de hoje – herdeiros da Reforma Protestante – se afastaram da visão histórica a respeito do lugar da igreja na vida espiritual. A igreja é o lugar da habitação de Deus. A igreja não é uma fornecedora de bens e serviços religiosos que ocasionalmente é um suplemento útil para a minha busca particular por Deus. A igreja é a “mãe de todos os piedosos”.

Esse entendimento da igreja – conforme retratado na Bíblia e expresso na rica história da igreja – vai contra o forte individualismo que permeia nosso ambiente cultural ocidental contemporâneo. Já que o entendimento predominante sobre a salvação entre os cristãos ocidentais tende a se concentrar exclusivamente no relacionamento pessoal com Jesus, nosso entendimento a respeito da vida cristã tende a focar apenas a nossa própria jornada espiritual individual. Mas isso reflete um raciocínio e existência no mundo que é muito mais moderno do que cristão. Como disse Joseph Hellerman:
Precisamos assumir o fato de que o nosso sistema de valores foi moldado por uma cosmovisão diametralmente oposta à perspectiva dos primeiros cristãos e aos ensinos da Bíblia. Como americanos frequentadores da igreja, fomos socializados para crer que nossa realização individual e o nosso relacionamento pessoal com Deus são muito mais importantes que qualquer conexão que possamos ter com nosso próximo humano, seja em casa, seja na igreja. Da forma mais sutil e insidiosa possível, nós nos conformamos com este mundo.[6]
A igreja no Ocidente precisa desesperadamente recuperar um entendimento robusto a respeito do que significa ser igreja.
Habitar com Deus
Neste livro, o pastor Barry Jones compartilha sua visão de uma espiritualidade cristã autêntica, que transforma a forma como vivemos no contexto específico no qual Deus nos inseriu.
A importância de tudo isso para a nossa reflexão sobre as disciplinas espirituais está em reconhecer que as disciplinas espirituais são as práticas formativas da igreja. Não devemos pensar nelas primariamente em termos de práticas espirituais privadas que ajudam a moldar e sustentar a minha vida com Deus, mas como práticas da igreja que nos ajudam e sustentam a nossa vida com Deus. Essa forma de pensar nos leva a considerar como podemos participar da prática formativa juntos quando a comunidade se reúne. As práticas embutidas no encontro semanal da igreja para adoração estão entre as disciplinas espirituais mais formativas das quais participamos, mesmo quando não prestamos atenção ao seu caráter “formativo” ou como “disciplinas espirituais”. Entender as disciplinas espirituais como as práticas formativas da comunidade também enfatiza como a minha prática pessoal das disciplinas é uma extensão da vida e da prática da comunidade. A igreja deveria me ensinar as disciplinas, a igreja deveria me encorajar nas disciplinas, e a edificação da igreja deveria ser o objetivo da minha prática das disciplinas à medida que pratico sozinho aquilo que fazemos em conjunto. A prática pessoal da espiritualidade cristã é reconhecível e compreensível quando é uma extensão da forma de vida e prática da igreja.
Notas
- James K. A. Smith, Who’s Afraid of Postmodernism: Taking Derrida, Lyotard, and Foucault to Church (Grand Rapids: Baker Academic, 2006), p. 140.
- Karl Heim, The Nature of Protestantism, trad. John Schmidt (Minneapolis: Fortress, 1963), p. 79.
- Ibid., p. 76.
- Adolf von Harnack, citado em William C. Placher, Narratives of a Vulnerable God: Christ, Theology and Scripture (Louisville, KY: Westminster John Knox, 1994), p. 138.
- João Calvino, As Institutas, trad. Waldy Carvalho Luz, 2. ed. (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), 4.1.4, p. 28.
- Ibid.
- Joseph Hellerman, When the Church Was a Family: Recapturing Jesus’ Vision for Authentic Christian Community (Nashville: B & H Publishing), p. 7.
Este artigo foi extraído e adaptado do livro Habitar com Deus: Um testemunho para o mundo, escrito por Barry D. Jones.
Autor
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Barry D. Jones (Ph.D., Wheaton College) atualmente serve como pastor sênior da Irving Bible Church, no Texas (EUA). Além disso, passou três anos como professor no programa de formação espiritual do Dallas Theological Seminary. Suas paixões são ensinar as Escrituras, fazer discípulos e treinar futuros líderes que estejam profundamente enraizados em sua fé e vitalmente engajados no mundo ao seu redor. Casado com Kim, tem três filhos.
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